Esta é uma coluna literária, distante das disputas partidárias, mas atenta aos conflitos que revelam os limites da condição humana. Não como crítica a partidos ou pessoas, mas como reflexão ao comportamento humano. Ontem deparei-me com a frase de Ortega, presidente da Nicarágua, que proferiu, sem rodeios, "Esqueçam, aqui não haverá mais eleições", e conclui de modo enfático "jamais, jamais, jamais".
Segundo ele, o objetivo é evitar que a oposição tente “tomar” o poder por meio do voto. Há pouco tempo, o povo daquele país foi surpreendido com a criação do cargo de copresidente para a primeira-dama Rosario Murillo, e a dissolução do Legislativo e do Judiciário, mantendo somente o Poder Executivo.
Trago esse olhar sob o espanto literário. Lembremos dos antigos decretos, quando o faraó se autodeclarava deus, quando os reis governavam por direito divino, imperadores se proclamavam o próprio Estado. Todos sob a alegação de que estavam pensando no bem da nação, para que o poder não caísse nas mãos erradas. Mas, pensando ao estilo de Fernando Pessoa, qual mão é a certa e qual é a errada “...ninguém nos saberá explicar; e vivemos de maneira que a vida que a gente tem é a que tem que pensar”.
O ideal talvez fosse que dois partidos opostos sugerissem ações ao mesmo tempo, e os três poderes, ocupados por 50% de um lado e 50% do outro, discutissem, por meio de análise acadêmica e pesquisas de campo que refletissem a realidade das ruas, aquilo que poderia ser menos prejudicial à população. A democracia nasce dessa aceitação incômoda: ninguém é Deus para ser uno.
Quando essa possibilidade é abolida, a política deixa de ser o espaço onde diferentes pessoas disputam sentidos sobre o mundo e passa a ser uma tentativa de suspender o próprio tempo. À luz de Freud, isso poderia ser compreendido como uma dificuldade humana de elaborar a perda. O sujeito deseja conservar aquilo que lhe oferece segurança, ainda que isso seja uma prisão. O poder absoluto tenta ser uma promessa contra a angústia da separação, mas isso seria uma negação da condição humana, porque o homem é aquele ser que vive sabendo que tudo passa.
Lacan talvez acrescentaria que o poder nunca preenche o vazio que promete eliminar. O governante que procura tornar-se insubstituível só se declara autodependente do olhar alheio. A renovação de reconhecimento é necessária porque nenhuma posição simbólica pertence a quem a ocupa. E isso se vê ao longo da história: palácios, monumentos... permanecem enquanto seus donos e idealizadores estão por perto. Até as bibliotecas de tempos em tempos são incineradas para, insanamente, apagar a memória. Tudo em prol da disputa pelo poder, que é sempre transitório sob o escrutínio da eternidade que nenhum ser humano detém.
O eterno que se consegue com essas desmedidas é o sofrimento dos povos. Walter Benjamin, como poucos, teria percebido essas imagens como a ruína presente. Para ele, o passado é um campo de forças onde os vencidos ainda aguardam reconhecimento. Se a história ilumina os vencedores, a memória crítica fotografa aqueles que ficaram fora da fotografia.
Os jornais contemporâneos estão cheios dessas fotografias ausentes. Funcionários públicos obedecem, professores se emudecem, cidadãos são apagados... A erosão democrática se inicia nas portas abertas, para que não se perceba a corrosão até que a porta seja trancada.
Hannah Arendt mostra que o totalitarismo não vem montado na cela da violência, porque ele depende da eliminação da discordância. Quando uma sociedade perde a capacidade de discutir a realidade comum, perde uma parte essencial de sua própria liberdade. De modo isolado, lembro Adorno, para o qual a barbárie moderna é perturbadora. Ela pode vestir a aparência da normalidade e ser acompanhada por justificativas administrativas, promessas de ordem, discursos sobre necessidade histórica... convertendo o espanto no inevitável.
A escolha é necessária, pois sua ausência é tão perigosa quanto uma escolha errada. A história é movimento e não congelamento. A geração recebe o mundo como herança provisória, porque somos seres em construção.
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