Quando observo a nossa sociedade, tão cativa, tão dependente da aprovação alheia — aliás, aprovação de pessoas desconhecidas, por vezes, até inferiores às próprias pessoas que delas buscam aprovação — sinto medo. Medo ao pensar que a vida é tão curta e o mundo tão grande, mas em vez de aproveitar o breve espaço de tempo para viver e explorar livremente a grandeza do universo, as pessoas têm preferido se escravizar em redes sociais, em consumo, em vícios, em práticas nocivas, prejudiciais a si e aos outros. Que sentido faz isso?
A literatura sempre foi um farol, sobretudo em noites tempestuosas nos mares da existência. Quantos não foram aqueles que, em seus piores momentos, encontraram alívio para suas dores na escrita? Quantos não sobreviveram graças às doses de boa leitura? A boa literatura é atemporal. A exemplo dessa escrita universal, temos as Escrituras Sagradas, os clássicos, a filosofia grega. Mas aí vem o cativador, cheio de encantos e, quase sempre, abre as portas ao manipulador, que reivindica o encanto.
A distância histórica entre “O Discurso da Servidão Voluntária” e o pensamento de Erich Fromm é, à primeira vista, enorme. Um texto do século XVI, escrito em forma de ensaio filosófico radical sobre a obediência política; outro, do século XX, articulado no campo da psicanálise social e da crítica à modernidade autoritária. No entanto, ambos parecem se encontrar em um ponto decisivo: a pergunta sobre por que seres humanos aceitam voluntariamente formas de dominação que limitam sua própria autonomia.
La Boétie parte de uma inquietação quase escandalosa para seu tempo: a constatação de que não é necessário um império absoluto da força para sustentar a tirania, mas sim uma espécie de adesão coletiva que se repete e se estabiliza no cotidiano. A obediência, nesse sentido, além de imposição é também hábito. O poder não paira acima da sociedade como uma estrutura externa inquebrantável; ele se sustenta porque se infiltra na rotina, nos costumes, na repetição das práticas sociais. A pergunta que atravessa o texto não é como os tiranos governam, mas porque os governados continuam a obedecer.
Fromm, por sua vez, desloca essa mesma inquietação para o interior da constituição psíquica moderna. Em sua análise da liberdade, especialmente em obras como O Medo à Liberdade, ele sugere que o indivíduo contemporâneo, ao conquistar autonomia formal, também passa a experimentar um profundo sentimento de insegurança. A liberdade, longe de ser vivida como emancipação, pode se tornar angústia. É nesse ponto que surgem mecanismos de fuga: o indivíduo abdica de sua autonomia crítica em troca de pertencimento, direção e estabilidade emocional. A obediência, aqui, é tanto política quanto psicológica.
Quando esses dois autores são colocados em diálogo, emerge uma estrutura comum: a ideia de que a servidão é sustentada tanto por coerção externa como por uma disposição interna de aceitação. Em La Boétie, isso aparece como consentimento social sedimentado pelo costume; em Fromm, como fuga psicológica diante do peso da liberdade. Em ambos os casos, o sujeito é vítima de um sistema assim como é também participante de sua reprodução — ainda que não consciente.
Essa convergência permite reler a modernidade sob uma chave menos confortável: a de que sistemas de controle não se reduzem à violência explícita, mas desencadeiam-se de promessas de segurança, pertencimento e sentido. A obediência se torna, então, uma espécie de troca invisível: renuncia-se à incerteza da liberdade em favor da previsibilidade da tutela. O problema central é tanto a existência de estruturas autoritárias quanto a sua contínua demanda por adesão subjetiva.
Lidos em conjunto, La Boétie e Fromm deslocam a crítica política para um território mais profundo: o da formação do desejo. Não basta perguntar quem domina; é preciso perguntar por que o dominado aceita, e até mesmo, em certos casos, deseja essa forma de organização. Nesse ponto, a liberdade deixa de ser um estado garantido e passa a ser uma prática frágil, constantemente ameaçada pela tentação da segurança.
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