25/06/2026 às 08h00min - Atualizada em 25/06/2026 às 08h01min

Condições Fundamentais

IVONE ASSIS

Deve o Estado pautar-se na raça visível ou na correção de desvantagens sociais mensuráveis? A questão situa-se entre política e filosofia, onde boas intenções esbarram na complexidade da realidade. O debate sobre ações afirmativas costuma ser apresentado como uma disputa entre justiça e injustiça, mas talvez seja mais produtivo entendê-lo como um conflito entre diferentes diagnósticos da desigualdade e diferentes modos de compreensão da experiência humana.

Karl Mannheim mostrou que nenhuma visão social é absoluta ou neutra: toda interpretação é situada. O risco surge quando uma perspectiva se impõe como verdade indiscutível. No debate sobre cotas, isso vale para ambos os lados. Reduzir a desigualdade só à pobreza pode ocultar discriminação racial; reduzi-la à raça pode ignorar barreiras econômicas e culturais que afetam milhões de pessoas. Pior ainda é quando uma visão parcial não reconhece sua própria parcialidade.

A questão torna-se mais delicada quando o Estado converte conceitos sociológicos em critérios administrativos, como foi o caso da candidata aprovada para a carreira diplomática, empossada e depois exonerada. A realidade humana é complexa e heterogênea, enquanto a burocracia exige categorias definidas. A tensão inevitável está em corrigir injustiças históricas por meio da classificação dos indivíduos. Toda classificação simplifica, e o indivíduo reduzido à categoria que o representa perde sua complexidade.

Paul Ricoeur ensina que nenhuma causa justa está imune à deformação ideológica. Uma reivindicação legítima pode, com o tempo, criar mecanismos que passam a reproduzir os mesmos vícios que buscavam corrigir. Reconhecer essa possibilidade não significa negar a legitimidade da causa, mas levá-la a sério o bastante para submetê-la à crítica.

As ações afirmativas nasceram para enfrentar desigualdades reais e persistentes. Mas, quando dependem da avaliação de traços físicos, surgem questões difíceis. Até que ponto uma banca consegue definir, de forma objetiva, uma identidade social? Como lidar com decisões divergentes entre diferentes instituições? Quando alguém é apto por uma comissão e inapto por outra, instala-se a dúvida sobre o indivíduo e sobre o próprio critério. A crítica não precisa negar a finalidade da política para questionar seus instrumentos.

Cabe invocar Max Weber e sua ética da responsabilidade. Ele adverte contra a tendência de confundir a nobreza dos fins com a legitimidade automática dos meios. Um objetivo moralmente elevado não elimina a necessidade de examinar os efeitos concretos dos procedimentos adotados. Uma política de inclusão, por exemplo, deve prestar contas de suas consequências, possíveis arbitrariedades e limites. A boa intenção não substitui a análise institucional.

Essa preocupação leva à seguinte questão: o combate à desigualdade deve privilegiar categorias identitárias ou condições objetivas de vulnerabilidade? A resposta é reconhecer que toda escolha enfatiza certos aspectos da realidade e ofusca outros. Toda política pública é também uma teoria implícita da sociedade.

Talvez seja por isso que Hannah Arendt continue sendo indispensável. Ela desconfiava de explicações totalizantes e da pretensão de qualquer grupo deter acesso privilegiado à verdade histórica. Para Arendt, o espaço político nasce da pluralidade humana. O juízo político não elimina diferenças, mas convive com elas. Quando uma sociedade transforma uma interpretação em dogma, perde a capacidade de pensar e reduz problemas humanos complexos a fórmulas administrativas simplificadas.

Nesse sentido, a pergunta inicial talvez não exija uma resposta definitiva, mas uma atitude intelectual. O desafio não é escolher entre raça ou classe como explicações excludentes, mas resistir à tentação de transformar qualquer uma delas em chave única da realidade. Como sugere Antonio Machado, há sempre um “outro” que escapa às nossas categorias. A pobreza não esgota a experiência humana, nem a identidade racial a define por completo.

Entre o indivíduo concreto e as classificações do Estado há uma distância inevitável, onde reside tanto a necessidade quanto o limite da política. Por isso, a crítica não é obstáculo à justiça, mas uma de suas condições fundamentais.

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

 

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