13/06/2026 às 08h00min - Atualizada em 13/06/2026 às 08h00min

Leves puxões de orelhas

EDMAR PAZ JUNIOR
Foto: Reprodução/Internet

Por alguns momentos penso que na maior parte das minhas colunas trago assuntos de demasiada profundidade – e se o leitor não entende os termos propostos como elementares à nossa vida, temo que não esteja deixando o texto leve o suficiente para que seja compreendido ou, então, os escritos estejam tão truncados que não consigo dar a densidade temporal e moral que merecem tais reflexões. De qualquer modo, gostaria de poder trazer assuntos mais ordinários, mas quando me vejo pensando nesses temas logo aparece algum dos autores que admiro para me beliscar a consciência. Ontem foi a vez de Corção – quase sempre é ele. 

Corção nos dá essa necessidade de urgência porque por detrás da beleza de suas palavras, há um anseio, diria até santificante, para que as pessoas conseguissem enxergar o Bem que estão trocando pelas veleidades terrenas. Numa de suas crônicas, na qual conta quais seriam seus motivos de se alegrar ao partir desse mundo, em algumas linhas rasga o véu da indiferença e da nudez que ninguém tem coragem de apontar ao rei, e mostra como estamos afundados num lamaçal moral já há algum tempo: “Porque, na verdade, e feitos todos os descontos das saudades que temos de nós mesmos, o mundo que estou deixando está exagerando um pouco a liberdade de desfigurar a imagem do homem, feito à semelhança de Deus. E não preciso sair do meu reduto para descobrir o somatório de poluições com que se enfeita o século agonizante: o supramencionado mundo por engenho e mágica do mesmo homem que ele difama entra-me por debaixo da porta, pelas frestas das janelas, ou desce pelos cordões das cortinas como os sonhos de Homero. Com todos esses rodeios quero simplesmente referir-me ao jornal que tenho diante dos olhos, estatelado, descomplexado, despoliciado e só não acrescento despudorado com receio de que o leitor imagine que passei a escrever em sânscrito.

“Na folha pela metade cheia de fotografias de hotéis de luxo leio este letreiro: HOTÉIS DÃO À BARRA DA TIJUCA TOQUE DE TURISMO COM ROMANCE, onde todas as palavras são falsas, com exceção do nome do bairro. Porque nesse anúncio tranquilamente aberto num chão dominical de casa de família, onde entrou o matutino, hotel não é hotel, turismo não é turismo e romance é pseudônimo de lenocínio e prostituição.” 

A ressignificação das palavras, que para muitos já é um método conhecido na campanha de domínio das consciências, não começou a ser usada ontem, como percebemos nesse trecho que é da década de 70, por isso há essa imprescindibilidade nas entrelinhas de Corção, uma chamada à observar com os olhos reais a realidade.

Ultimamente tenho me interessado pela história de Star Wars e, há alguns dias, assistindo uma das várias séries “auxiliares” da trilogia, um Cavaleiro Jedi que havia se isolado no submundo, decidiu treinar um jovem garoto com os poderes da Força e ao entrar num dos antigos templos desses guerreiros, foi confrontado com a voz do mestre Yoda, que lhe perguntou: “então, treinando o garoto está você? Por acaso Mestre Jedi se tornou um?" (tentei dar fidelidade à fala...quem conhece a história vai saber)

A resposta do cavaleiro foi confusa e até certo ponto, um tanto evasiva, pois ele sabia da responsabilidade que era ser um Mestre Jedi e, como estava quase sempre envolvido em comércios ilegais e assuntos imorais, mesmo fazendo isso na intenção de ajudar pessoas, sentiu o peso das palavras do antigo Mestre. “Honesto, tem de ser, um Mestre Jedi, todo o tempo”, foi a resposta de Mestre Yoda.

Vou tentar fazer um caminho inverso de responsabilidade. Se antigamente os mestres sabiam de suas responsabilidades e só as assumiam com a ciência e sensibilidade de saber o que estavam fazendo, hoje não é bem assim. É por isso que vemos tantas pessoas falando tanta baboseira por aí, sem terem a mínima noção do quão são nocivas para um grande grupo de pessoas. O homem massa só quer que a igualdade seja aplicada, nem que seja à força, sem distinção, e que todos se tornem “medíocres”, como disse Ortega Y Gasset.  Com a quantidade de informações disponíveis que possuímos hoje, seja através dos jornais, das redes sociais, mas principalmente por meio dos livros – e notadamente, os clássicos – não podemos tomar qualquer um por “Mestre”. 

Este é o ponto: há uma imensa variável de coisas que não podemos controlar em nossas vidas, mas aquilo que vemos, ouvimos ou lemos, temos um certo domínio que devemos exercê-lo. Hoje, queira ou não, a responsabilidade da escolha é dos Padawans e não dos Mestres Jedi, e para aproveitar a fantasia galática, com uma certeza absoluta, seria uma honra inenarrável que Corção me escolhesse como aprendiz. 

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

 

 

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