07/05/2026 às 08h00min - Atualizada em 07/05/2026 às 08h00min

Escapar

IVONE ASSIS

Alguns textos se perpetuam no tempo pela delicadeza com que nos ensinam a olhar. “O Catador de Pensamentos” (2002), de Monika Feth, pertence exatamente a essa rara espécie. Lido à luz da sensibilidade pastoral e introspectiva de Lucy Maud Montgomery, deixo de lado a narrativa fantástica para me apegar a um jardim de reflexão onde as ideias florescem adubadas com paciência e moral. Aquela moral da história que os contos de fada nos trazem.

Desde as primeiras linhas, o cenário cotidiano — a rua tranquila, o gato que atravessa sorrateiro, com o sono ainda pousado sobre os telhados — constrói um espaço suspenso no tempo. Esse ambiente é condição necessária para que o invisível se torne perceptível. É nesse caminhar quase diminuto que o Sr. Rabuja emerge; ele vem como figura ao mesmo tempo humilde e extraordinária, cujo passo arrastado indica um tipo raro de atenção ao mundo.

A crônica, se assim a tomamos, sugere uma crítica sutil ao ritmo moderno. Enquanto tudo ao redor ainda dorme, o catador já trabalha. No cumprimento do dever, em busca da compreensão, ele não produz, não acumula bens, não ambiciona o alheio; ele tão somente recolhe pensamentos. E aqui reside uma inversão delicada: aquilo que, no cotidiano, consideramos efêmero ou íntimo demais para ter valor público (os pensamentos) torna-se matéria de cultivo, organização e partilha.

A imagem central do texto, neste caso, o pensamento como algo que pode ser colhido, classificado e plantado, encontra ressonância na obra “A galáxia de Gutenberg”, de Marshall McLuhan, na qual ele explora como o espaço e a sensibilidade são reorganizados pelos meios, permitindo compreender o jardim do Sr. Rabuja.

No universo do Sr. Rabuja, as abstrações dos pensamentos ganham textura, peso, cor e até comportamento. Eles tropeçam, voam e se escondem, como fazem as crianças caprichosas, exigindo cuidado e respeito. Essa materialização revela um ponto profundamente humano: nossa vida interior é, às vezes, caótica por excesso de vitalidade e não por falta de ordem.

Há, porém, uma dimensão crítica que não deve ser suavizada pelo encanto da narrativa. O fato de o Sr. Rabuja trabalhar sozinho, quase invisível, sugere uma sociedade que já não sabe lidar com seus próprios pensamentos. Eles escapam pelas frestas, perdem-se pelas ruas, precisam ser recolhidos por alguém à margem. Um quase retrato da sociedade da tela. Uma possível metáfora de nosso distanciamento da reflexão. Em vez de cultivar nossas ideias, deixamos que dispersem, esperando que outro as reorganize por nós.

Ainda mais significativo é o destino desses pensamentos: o jardim, laboratório de transformação. Os pensamentos se transformam em partículas que retornarão às pessoas adormecidas. Esse estranho ciclo — coleta, cultivo, dissolução e retorno — sugere uma concepção orgânica do pensamento, muito distante da lógica utilitária. Pensar, nesse contexto, é participar de um fluxo contínuo de transformação.

Talvez isso seja reconfortante, pois ao contrário do que cremos, nossos pensamentos não nos pertencem inteiramente. Pensamentos nos atravessam, nos visitam, nos deixam. Talvez seja essa impermanência que garanta sua renovação. A advertência atribuída a Píndaro, citada ao final, adquire então um novo matiz: vigiar os pensamentos significa reconhecê-los como sementes de um plantio maior.

Lida sob essa perspectiva, a figura do narrador — que observa, escuta e, sobretudo, aprende — se aproxima das jovens protagonistas de Montgomery: seres atentos ao detalhe, capazes de perceber o extraordinário no ordinário. 

Trata-se de uma narrativa sem grandes conflitos, mas com grandes descobertas, e de uma forma mais sutil de crítica literária seria nos lembrar de que a imaginação, em vez de fuga, se constitui melhor como ferramenta de compreensão.

No fim, o que se tem é a sensação de que, em algum nível, todos somos responsáveis pelo jardim invisível que compartilhamos. E que, se o mundo ainda produz flores tão delicadas, é porque, em silêncio, alguém (real ou simbólico) continua a cuidar dos pensamentos que deixamos escapar.

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

 

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