Talvez possa parecer um tanto quanto redundante falar novamente sobre esse assunto, visto que no ano passado já fiz uma coluna com o mesmo tema. Mas gosto muito de uma frase que Gustavo Corção usa, que a nossa vida, sem os marcos festivos da Igreja, seria como um “osso liso”. É como se, caso não tivéssemos essas recordações temporais, não houvesse nada que nos diferenciasse dos animais: sim, à grosso modo é isso mesmo: somos seres racionais, dotados não apenas de inteligência, mas verdadeiramente sobrepujados com espírito divino, ao passo que os animais apenas sobrevivem, mesmo possuindo inteligência. A questão é que, na maioria das vezes, esquecemos esse nosso aspecto sobrenatural, fazendo com que as coisas mundanas pareçam sempre mais atrativas e importantes, quando na realidade são meras distrações daquilo que é o mais essencial: a Eternidade.
O tempo de Quaresma vem justamente para relembrar esse caminho que devemos tomar, propondo que nos abstenhamos de algumas vontades e vícios – a ideia é que, a partir do momento em que consigamos ficar sem algum vício, principalmente, possamos continuar sem após os 40 dias: não podemos deixar, com um exemplo bem comum, de beber uma cervejinha durante a Quaresma, para depois desse tempo de jejum voltar com a bebida em excesso diariamente, porque o intuito primeiro, por óbvio, é o Amor à Deus, mas a consequência dessas nossas ações deve, como corolário, resultar num controle maior sobre nossos instintos.
Há um trecho que achei fabuloso nos sermões sobre a Quaresma, de São Leão Magno, que escreveu-os por volta do século IV, dizendo acerca da nossa possibilidade de nos tornarmos sempre melhores: “Como estes dias objetivam aumentar nossa prática religiosa, estou convencido de que não existe ninguém entre nós que não se sinta estimulado para as boas obras. Enquanto permanecemos mortais, nossa natureza é mutável e, ainda que atinja o mais alto grau de zelo na busca das virtudes, ela pode, entretanto, encontrar de novo, tanto uma ocasião de queda, quanto de crescimento. E esta é a verdadeira justiça dos perfeitos, que jamais presumem ser perfeitos com medo de, abandonando sua decisão de continuar caminhando antes de chegar ao fim, sucumbam ao perigo de desanimar no mesmo momento em que perdessem o desejo de avançar. Porque entre nós, caríssimos, ninguém é tão perfeito e santo que não consiga ser mais perfeito e mais santo.”
Perceba que a chamada desse tempo precioso não é a de uma mortificação em vão ou a abstinência dos pequenos prazeres por uma espécie de mutilação da vontade per si, mas sim um reencontro com Aquele que pode nos prover da verdadeira fonte da vida. É por esse motivo que, quando nos penitenciamos, forçamos nossa carne ao desconforto terreno, mas produzimos frutos esplêndidos em nosso espírito. É o que entendo quando São Francisco de Sales ensina que temos duas naturezas, uma divina e outra animal e que, quanto mais nos aproximamos de uma, mais nos afastamos da outra. Ora, quanto mais mortifico a minha carne, mais forte se torna meu espírito, por consequência óbvia.
A Quaresma, assim, é muito mais um período de crescimento espiritual, do que propriamente uma época de mortificações e sacrifícios vãos. Portanto, alegre-se: o tempo é de contrição e silêncio, mas no fim do caminho, sempre há a Luz da Páscoa que nos mostra a vitória sobre as coisas terrenas: “No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo”.
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