A imensa maioria das pessoas não percebem a força e o poder do cotidiano, aquela coisa de, não apenas fazer um pouco a cada dia, mas bem mais o laborar repetidamente várias vezes o “mesmo” dia. Muitos enxergariam, e enxergam, nesses repisados afazeres, uma monótona e enfadonha vida, porque foram inundados com uma falsas promessas e sentimentos de que somente uma vida “extraordinária” é que vale a pena.
Encontramos dois erros nesse conceito: primeiro de que tal vida extraordinária seria aquela cheia de emoções, aventuras, desbravamentos, festas e carimbos em passaporte; a segunda é de que a vida comum seria a de uma pessoa fraca, pois não “possuiria” qualidades para tentar algo novo. Levando em conta o erro sobre a premissa conceitual do termo base, acredito que vida extraordinária é justamente a que se adapta e encaixa nas nossas circunstâncias e vocações, e não somente aquela permeada de sensações. É como se fosse algo a mais do que a vida aventureira, mesmo que as pessoas não consigam enxergar isso. O errado não deixa de ser um erro porque todo mundo faz.
O extraordinário passa necessariamente pela forma como enxergamos as coisas que nos acontecem, sejam as boas ou, ainda mais, as ruins: enxergar beleza mesmo nos revezes permite que vivamos melhor, pois em graus diferentes, um acontecimento ruim nos livra de um mal maior ou, como disse Napoleon Hill, “toda adversidade traz consigo a semente de um benefício maior”. Pense apenas no homem que trabalhava no World Trade Center e, antes de sair de casa, um passarinho fez suas necessidades na sua camisa, no dia 11 de setembro.
O filme que quero comentar hoje conta a história de um homem que limpava banheiros públicos na cidade de Tóquio, e mostra uma rotina em que quase não vemos alterações: seus dias são praticamente todos iguais – acorda, cuida das plantas, toma café, trabalha, faz as refeições nos mesmos restaurantes, toma banho num banheiro público, retorna para casa e lê antes de dormir. Sim, o filme é basicamente isso. A questão, no entanto, são as belezas dos detalhes.
Pelo desenrolar da trama, podemos perceber que o personagem principal era alguém rico e que deveria ter alguma relevância na sociedade em que vivia – pelo menos aparentemente sua família é rica pois, em um determinado momento, sua sobrinha adolescente foge de casa e vai para a casa de seu tio, e quando sua irmã busca a filha, aparece em um carro sofisticado (seria importado se fosse no Brasil, mas como o filme é japonês, todos os carros são importados), inclusive com motorista particular –, mas que abriu mão de tudo para viver a simplicidade de passar despercebido.
São três pontos que observei no filme que valem a pena comentar hoje. O primeiro é uma cena simples e sem grande sofisticação: o momento em que ele sai de casa, pela manhã: não importa como o tempo esteja, com sol, nublado ou chuvoso, ele sempre sorri para o céu, como uma espécie de agradecimento pelo simples fato de existir. Há também a forma como ele não apenas observa as pessoas e as paisagens, mas como verdadeiramente as admira. Me vêm à memória um trecho de uma Conferência do Monsenhor Landriot: “O autor da Imitação (Tomás de Kempis) diz que, para a alma justa, tudo se converte em espelho da beleza divina. Um espelho representa a figura exata do objeto; em certo sentido, pode-se dizer que é como o desdobramento do próprio objeto que, transportado sobre ondas de luz, vai perpetuar-se através dos mundos. Assim, a bela, augusta e materna figura de Deus vem, se é permitido falar assim, refletir-se sobre cada objeto criado, e nos retorna como a figura de um pai e de uma mãe que nos chama”.
Em outros momentos, o personagem mostra um lado caridoso seu, primeiro quando empresta dinheiro para seu colega de serviço que, a despeito de ser desleixado e inconstante, torna o ato mais solene ainda: ele não vai receber o dinheiro de volta, e sabe disso, o que não o impede de fazê-lo – ficando inclusive sem dinheiro para colocar combustível no próprio carro. Depois, quando encontra um homem que é ex-marido da mulher que ele admira, e este confessa-lhe estar com câncer: sua reação é a de apenas confortar o homem e tentar proporcionar, pelo menos naquele momento, um instante de alegria em meio às notícias ruins.
Por último, há ainda a forma como ele realiza seu trabalho, que muitos tomariam como desagradável, e até mesmo degradante, mas que ele executa com extremo zelo e afinco – em alguns momentos usa até um espelhinho para limpar lugares do vaso sanitário que ninguém consegue enxergar. Ora, não consigo desvincular essa dedicação dos ensinamentos de São Josemaria e, indo além do conhecido “faz o que deves e está no que fazes”, em Forja, no ponto 681, o Santo do Cotidiano nos ensina que “temos obrigação de trabalhar, e de trabalhar conscienciosamente, com senso de responsabilidade, com amor e perseverança, sem descuidos nem ligeirezas: porque o trabalho é um preceito de Deus, e a Deus, como diz o salmista, é preciso obedecer <in Laetitia> - com alegria!”
O filme não é uma propaganda cristã, muito menos um incentivo à aversão à monotonia, mas sim uma amostra do heroísmo silencioso que devemos buscar no dia a dia. Sim, é absolutamente normal não termos aventuras todos os dias, e a contrario sensu, é necessário uma força muito maior para repetir o que fizemos bem feito ontem.
*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.