10/01/2026 às 08h00min - Atualizada em 10/01/2026 às 08h00min

Doutor Jivago

EDMAR PAZ JUNIOR
Foto: Reprodução/Internet

Há alguns dias terminei a leitura dessa obra de Boris Pasternak, ambientada entre os primeiros anos pré-revolução russa de 1917 e alguns anos depois, e foram várias as impressões que me marcaram durante e depois da leitura. 

Uma das principais falhas morais do nosso tempo reside justamente na falta de percepção da realidade e no desejo de impor uma utopia teórica a qualquer custo, suprimindo violentamente o que de fato acontece no mundo real. Vou tentar exemplificar: houve inúmeros relatos, documentos oficiais e fatos visíveis – alguns integrantes dos partidos progressistas mal se dão ao trabalho de camuflar os fatos, tamanha a certeza da hemiplegia moral contemporânea – que não apenas mostraram uma Rússia rigorosa, mas sim ditatorial, totalitária, que buscava não apenas o controle físico, mas primordialmente o domínio do pensamento da população. A censura prévia ou mesmo ulterior à publicação de um livro, não nos faz pensar em outra coisa que não a proteção de um sistema que não busca mais o bem social, mas somente a sua própria blindagem. É assim que funciona em todos os lugares que tiveram a má sorte – e, também, uma certa dose de responsabilidade, porque as liberdades não são perdidas de uma vez, mas pouco a pouco, centímetro a centímetro – de serem comandados por homens que, como disse C.S Lewis, são uns “intrometidos morais onipresentes”. É uma tirania pior que a de ladrões. 

O ponto que quero chegar aqui é que, mesmo com a história mostrando o dano que houve, a devastação, não somente financeira, mas predominantemente moral, com uma espécie de anestesia do senso moral coletivo, ou seja, houve uma verdadeira operação para dessensibilizar o povo, para que aceitasse cada vez mais as imposições tirânicas e totalitárias de uma utopia. 

O livro de Pasternak retrata muito bem a angústia de um povo inteiro, que clamava por uma mudança em suas vidas, mas escolheu o caminho que os levou quase à ruína total, tamanha foi a opressão do regime, primeiro com Lênin e posteriormente com Stalin. A inteligência de uma nação inteira quase foi suprimida por completo, tudo para que uma ideologia pudesse ser implantada e mesmo assim ainda há os que defendem a mesma ideia ainda hoje, como se “aquilo” deu errado porque não foram utilizadas as ferramentas corretas. Ora, isso apenas demonstra que quem usa esse argumento é tão sórdido quanto os que estavam no poder naquele momento, e talvez faria até pior.

Há alguns trechos de reflexões bem significativas que apresentam essa percepção do autor, já na década de 50, e, sendo o livro publicado em 1957, fora da Rússia, pois havia sido banido pelo partido comunista, Pasternak possui lugar de fala – usando um termo queridinho pelos progressistas – para expor as entranhas, não apenas de um regime político, mas de um câncer sistêmico que tenta dominar até a alma das pessoas.

“No início da revolução, temia-se que, a exemplo de 1905, ela não passasse de um breve episódio da história das classes cultivadas, caso não atingisse as camadas inferiores, onde de fato não havia se consolidado. Foi então que submeteram o povo a uma maciça propaganda, numa tentativa de levá-lo à revolta, agitação, desordem e exasperação.

Nesses primeiros momentos da revolução, pessoas como o soldado Pamfil Palíkh, que nutriam um ódio gratuito e bestial por intelectuais, patrões e oficiais, eram um achado raro para os intelectuais de esquerda exaltados, que lhes pagavam um preço considerável. Sua falta de humanidade era apresentada como um milagre da consciência de classe, sua barbárie como modelo de firmeza proletária e instinto revolucionário. Essa era toda a glória de Pamfil. Os chefes partisans e as autoridades do partido o tinham em alta conta.”

Nesse trecho acima, Pasternak comenta sobre um personagem mau por completo e como esse conjunto de características eram estimadas pelos líderes comunistas. Em outro momento, já em meio à segunda grande guerra, dois personagens conhecidos de Jivago comentavam sobre as percepções do ambiente russo.

“Eu penso que a coletivização foi um erro, um fracasso, e uma vez que isso não podia ser admitido, passaram a usar todos os meios de intimidação possíveis para suprimir o hábito das pessoas de julgar e pensar, para forçá-las a ver o que não existia e provar o contrário das evidências. Daí a crueldade sem precedentes do período de Ejóv (chefe supremo da NKVD, a polícia secreta soviética, responsável pela era de terror e expurgos stalinistas entre 1936 e 1938, segundo o autor), a promulgação de uma Constituição destinada a não ser aplicada, a convocação de eleições não fundadas em princípios eleitorais. 

“E quando eclodiu a guerra, o seu horror real, perigo real e ameaça real de morte foram percebidos como um bem, se comparados à dominação inumana do imaginário; trouxeram-nos alívio porque limitaram a força mágica da letra morta.

“As pessoas, não apenas as que estavam na situação de forçado, mas absolutamente todas, na retaguarda e no front, respiraram mais livremente, de peito aberto, e, embriagadas pelo sentimento de uma verdadeira felicidade, atiraram-se na fornalha da luta terrível, mortal e salvadora.”

Sim, é isso que você leu: as pessoas sob o regime comunista preferiram lutar e morrer na guerra a ficar sob “à dominação inumana do imaginário”. Eu sempre digo que para entender um pouco do que acontece no Brasil hoje, precisamos voltar algumas casas e ler um pouco sobre a história da Rússia: há um método, um modo de dominar as massas e os que o fazem não estão nem um pouco preocupados em repeti-lo, por isso, a nossa maior arma contra a tirania intelectual é aprender a se desamarrar das armadilhas ideológicas e aprender a pensar por si mesmo.

Doutor Jivago, Boris Pasternak.

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

 
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