08/01/2026 às 08h00min - Atualizada em 08/01/2026 às 08h00min

Quem tudo quer, nada tem

IVONE ASSIS

O conto indiano “O Vaso Quebrado”, coletado por Joseph Jacobs, em poucas linhas realiza uma radiografia precisa da psique humana, explorando a tensão entre a realidade material e a projeção fantasmagórica do desejo.

O personagem Svabhavakripana, do sânscrito “mercenário por natureza”, é um arquétipo da avareza. O conto é uma parábola atemporal sobre a insensatez de edificar o futuro sobre o vazio do presente.

A narrativa inicia-se com o símbolo da escassez: o resto de arroz. Para Svabhavakripana, o arroz é a representação da moeda. O protagonista não sonha com o usufruto da riqueza, mas com a acumulação de poder. O dinheiro não é para ele viver, ele vive para o dinheiro. O arroz transforma-se em bodes, vacas, búfalos e éguas em uma progressão geométrica que revela o mecanismo da ganância: o desejo nunca está no objeto presente, mas na sua capacidade de se tornar outra coisa, infinitamente superior.

Entrelaçando com o cronotopo da Teoria da Relatividade de Einstein, em que a física e matemática dialogam com essa soma constante de Svabhavakripana, o tempo foi curto para se desviar da velocidade do chute e evitar a quebra. Por outro lado, na Teoria Literária de Bakhtin, em que o termo descreve a ligação do homem, suas ações e o espaço-temporal, o conto mostra um espaço estático (o brâmane deitado sob o prego) e um tempo frenético (anos de procriação e crescimento em segundos mentais).

O conflito surge quando o tempo subjetivo (o futuro imaginário) tenta ocupar o espaço físico (o chute no ar). O vaso quebra porque o brâmane tentou viver um “tempo de gerações” dentro de um “espaço de um quarto”.

Do ponto de vista da neuropsicanálise, Svabhavakripana sofre de uma hipertrofia do sistema de recompensa antecipatória. Ele habita exclusivamente o futuro, uma “alucinação produtiva” onde o córtex pré-frontal projeta uma vida inteira de conquistas. No entanto, o seu erro trágico ultrapassa o sonho e se confunde entre a projeção mental e o domínio físico. Ele constrói uma “casa com quatro alas” dentro de um vaso de barro pendurado em um prego.

A virada narrativa ocorre quando o delírio atinge o ápice da domesticidade: o nascimento do filho, Somasarman. É fascinante notar que, mesmo no auge de sua fantasia de felicidade, o avarento projeta o conflito. Ele não sonha somente com o amor do filho, mas ambiciona também o exercício da autoridade sobre a esposa e a punição do garoto.

O “chute” que destrói o vaso é o clímax da ironia dramática. O ato físico de agredir a esposa imaginária é o que destrói a única posse real que ele detinha. Há aqui uma lição profunda sobre como a raiva e a prepotência, mesmo quando frutos de uma ilusão de poder, têm consequências materiais devastadoras.

O desfecho, em que o brâmane termina “todo branco” de arroz, é uma imagem de humilhação simbólica. O branco, que poderia representar a pureza ou a fartura, aqui representa a palidez da morte dos sonhos e a sujeira da tolice cometida. Ele tornou-se o espectro de sua própria ambição. A “brancura” é o resíduo do que poderia ter sido alimento, no entanto transformou-se em nada sob o peso de um chute no ar.

A estrutura do conto respeita a tradição oral dos Panchatantra, em que o ensinamento moral é destilado em uma máxima final. Jacobs mantém a agudeza da tradução, preservando o contraste entre a imobilidade do brâmane (deitado embaixo do vaso) e a agitação frenética de sua mente.

A obra nos lembra que a avareza é a incapacidade de viver o presente, em que o sujeito deixa de viver para perder seu tempo guardando aquilo que talvez nem vá usufruir dele. Svabhavakripana morre de fome emocional e social enquanto vigia um vaso cheio.

Em suma, “O Vaso Quebrado” é uma crítica contundente ao planejamento insensato. Ele dialoga com a modernidade ao questionar a ansiedade por resultados futuros que nos impede de gerir a realidade imediata. 

O brâmane, em sua busca por um “império de éguas e ouro”, esqueceu-se da fragilidade do barro e da impermanência do tempo. O conto permanece como um espelho (ou um vaso) onde podemos ver refletida a nossa própria tendência de trocar a realidade pela ilusão, de chutar a oportunidade e abraçar o nada. Quem tudo quer, nada tem.

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

 

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