06/09/2025 às 08h00min - Atualizada em 06/09/2025 às 08h00min

Uma Luz no fim do Túnel – II

EDMAR PAZ JUNIOR
Foto: Reprodução/Internet

Terminei o último texto dizendo que não precisamos ler tudo o que encontramos pela frente, principalmente para que não caiamos na mesquinhez de querer saber alguma coisa, mesmo que superficial, apenas para “impressionar” alguém. Há algumas semanas vimos a notícia de que uma influencer, que já não sei dizer se é famosa ou não – veja, diante da intensidade do movimento das marés nesse oceano das redes sociais, em que ora se fala incessantemente de um personagem, mas no segundo seguinte ninguém se recorda mais quem era, encontra-se esse tipo de conhecido: as famosas subcelebridades (não que as celebridades tenham relevância, mas vamos lá) – havia gasto uma quantia razoável (dez mil reais ou mais) em livros para decoração da sua casa nova.

Não sei dizer se isso seria apenas pedantismo barato. Parece-me menos a vontade de ser algo que não é do que um sintoma latente da nossa sociedade atual: o menosprezo, quase que absoluto, pelo conhecimento real. As pessoas deixaram de ambicionar as possibilidades de um “aprimoramento interno”, justamente porque, diante da quantidade de informações disponíveis, se julgam melhores que as gerações passadas e, como disse Ortega y Gassset, apesar de termos todos os recursos e técnicas disponíveis que nenhuma geração anterior jamais teve, somos a mais perdida, uma “geração à deriva”, exatamente porque não sabe o que quer. Temos as informações, mas não sabemos o que fazer com elas. Ou melhor, não “as queremos”.

Num outro caso, mas dessa vez pessoal, um colega pediu indicações de vídeos ou conteúdos que lhe pudessem dar alguma ideia acerca de um assunto, se não me falha a memória, sobre geopolítica mundial e o momento em que o brasil se encontrava em 2018, e lhe encaminhei dois vídeos de pouco mais de duas horas cada – veja, quatro horas de conteúdo, por mais denso que seja o ensinamento ali contido, não desnuda nem 5% do que seria o assunto em si, ainda mais sendo vídeos de convidados em podcasts – e quando esse colega visualizou os vídeos, respondeu de imediato: “Poh, mas duas horas e meia de vídeo? Cada?”. É meu amigo, conhecimento não vem em pílulas, que tomamos e, puff, sabemos.

O conhecimento, assim como a cultura, é uma construção, um diálogo entre aquilo que sabemos, o que não sabemos e o que sabemos que não sabemos. Essa intersecção entre os saberes produz uma evolução natural ou, a depender do caso, uma involução, uma regressão, que faz com que o indivíduo se torne cada vez mais massa, nas palavras de Ortega y Gasset.

Veja, não quero e nem vou determinar o que cada um deve fazer para ser melhor; isso é muito pessoal e íntimo de cada um para consigo e para com o Criador. Mas no que concerne à cultura, há um movimento necessário para colaborar com nosso crescimento: a leitura dos clássicos e de bons livros.

Corção fala algo nesse sentido, assim como T.S Eliot, de que é preciso dominar o passado, ter controle sobre as boas obras, para poder flertar com uma tão “ansiada” revolução cultural, de libertação, de quebra de protocolo, onde cada um poderia produzir a obra que quisesse e julgasse melhor. “O poeta, a meu ver, há de recapitular um longo traço da cultura antes de se tornar o que é. Há de ser uma continuação antes de ser uma renovação.” O ponto, entretanto, é que essa liberdade sempre existiu. O problema é que não é porque há a liberdade de produção que necessariamente haveria também o reconhecimento automático de uma obra, seja literária ou não. Você escreve ou produz a obra que quiser; se vão ser lidos ou consumidos, é outro departamento.

A questão que quero levantar aqui é a de que, se essa ideia é essencial para aqueles que querem produzir arte, também o é de suma importância que nós, os que consumimos essa arte, tenhamos também uma bagagem anterior, uma espécie de “preparação” intelectual. Sem esse arranjo, sem esse pressuposto, seremos como o terreno pedregoso que Cristo fala, onde a semente cai, floresce, mas logo se perde, pela falta de profundidade. Sejamos então terrenos férteis, ávidos pelo bom conhecimento.

Essa “terra produtiva” é tão importante que, sem ela, nos tornamos uma sociedade inócua, iníqua e imperiosamente “opressora”, justamente por ser uma avassaladora do conhecimento: subjuga-o incessantemente até ter todos em seu nível mais baixo: o da mera existência animal. Saiamos desse declínio cíclico. 

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

 

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