05/04/2025 às 08h00min - Atualizada em 05/04/2025 às 08h00min

Sobre a Continuidade – II

EDMAR PAZ JUNIOR
Foto: Reprodução/Internet

Comecei a elaborar no texto anterior uma descrição do que entendo por “sentimento de continuidade”. Por que estou tentando trazer esses conceitos e demonstrá-los antes de adentrar ao tema deste ensaio? Porque acredito que assim como nós perdemos o contato com a realidade, devido à grande velocidade com que conquistamos “objetos” e metas, pessoais ou não, deixamos de observar também a continuidade daquilo que deveria ser estável. A transitoriedade fugaz e superficial que reina na sociedade hoje, não pode ser entendida como normal em absolutamente todas as relações humanas. 

Entendo que nosso ambiente não nos limita, porque não é determinante, mas certamente nos influencia e acho um fenômeno até engraçado as “redescobertas” da ciência atual, sobre coisas/ensinamentos, que os homens sabiam há séculos. Um padre amigo aconselhou-me a esparramar símbolos sagrados pela casa, de forma que minha visão sempre seja “tocada” por algo sacro, que faça minha mente se recordar disso. No livro “Hábitos Atômicos”, de James Clair, ele diz exatamente a mesma coisa, de um modo totalmente desvinculado do religioso, no intuito de criar, estimular e manter hábitos novos.

O grande ponto que diferencia as duas situações reside na forma como ambas são assimiladas, ou melhor, constituídas em sua essência: ao passo que a primeira consiste em um ensinamento milenar, carregado, calejado e forjado durante séculos pela psicologia da Igreja Católica – é importante lembrar que os padres carregam esses ensinamentos vivenciados e aprendidos na prática, não apenas através dos estudos de grandes nomes da filosofia, mas principalmente pela própria parte empírica da Igreja que vivencia a experiência da existência humana através das confissões dos fiéis durante dois milênios de anos –, ao passo que a segunda é uma espécie de pequeno êxtase da ciência, por acreditar que descobriu algo. 

A continuidade, assim, seria essa ideia mesma de “sequência” histórica, de conservação, e o direito a ela, nas palavras de Gasset, é o contraposto da revolução. Mas, talvez num aspecto mais abstrato ainda, é também o sentimento que os homens têm de propor algo que vai além de sua existência, o desejo de perenidade, de perpetuidade. De um lado teríamos a continuidade como fato material, histórico; e noutro, como sentimento abstrato. Assim, se torna ao mesmo tempo um direito e um desejo; um fato e um estado de alma.

Não posso achar insignificante o fato de estudar durante anos, décadas, e aproveitar uma doutrina como base, para no “final” do trabalho, acrescentar apenas uma palavra. Essa talvez seja uma das ideias que sabotam esse sentimento de continuidade. Muitas vezes queremos tirar alguma teoria simplesmente do nada, do zero. Mas não é assim que a história funciona. Estamos condenados a acrescentar, sempre. Essa é a dinâmica. Não creio que haja algo novo, em sua literalidade, mas tão somente novas percepções ou elevações de níveis antes já conquistados. 

Quando Isaac Newton disse que enxergava mais porque estava sobre os ombros de gigantes, é exatamente sobre isso que ele falava. A história da humanidade é imensa e somos menos que grãos de areia nessa praia. Se temos um Dom, a capacidade e o toque divino de conseguir acrescentar uma palavra que seja à algum ensinamento, já podemos nos considerar vencedores. Está por trás dessa ideia o desejo de transcendência de nossa vida, o desejo de deixar algo marcado na história, que aparentemente perdemos ultimamente.

Praticamente tudo o que fazemos em nossas vidas é ligado por um laço invisível, um dever-fazer, como se fosse uma espécie de amarração que nos prende e nos faz querer começar uma nova empreitada, terminar algo que começamos, ou mesmo finalizar algum trabalho de outrem, que conhecemos ou não, para deixar uma espécie de legado. A questão, porém, é que, na maioria das vezes, não conseguimos distinguir exatamente o que é esse chamado e acabamos por passar a vida toda com um sentimento de que estamos “fora de lugar” ou aquela sensação de que não sabemos mais o que fazer.

Talvez, então, esses têm sido os grandes golpes que afetam esse sentimento de continuidade: a vulgaridade, a aceleração da deterioração e a fragilidade das relações estão sendo ampliadas pelo excesso de informação e, consequência disso, pelo “barulho” que não nos permite reflexões profundas: mais uma vez, somos sempre instados à um estado de querer “saber sobre tudo”, mas nunca de forma significativa, sempre raso o suficiente para não sermos intelectualmente desenvolvidos e não deixarmos rastros na história.

Termino no próximo texto. Até lá. 

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

 

 

 

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