19/12/2024 às 08h00min - Atualizada em 19/12/2024 às 08h00min

E agora, meu Deus?!

IVONE ASSIS
O livro “Reticências” (2010), do escritor, compositor e zootecnista uberlandense Marcelo Macário, traz como abertura o poema Tato, que também é uma letra musical. O poema diz: “As noites mais frias / Se tornam as mais tristes e infindas / Logo se perde o tato no mundo só. / Do que servem milhares de olhos cegos?!”.

Analisando os acontecimentos dos últimos dias, com tantas guerras e prisões políticas em todos os continentes, dentre outros assombros, sobretudo relembrando as cenas de horror da prisão de Saidnaya, construída nos anos 1980, e aberta agora, com a queda de Bashar al Assad, na Síria, pergunto, “Do que servem milhares de olhos cegos?”

O poema-musical de Marcelo Macário vai ganhando força extra, mediante o cotidiano. Enquanto muitos temem o fim das profissões humanas, devido ao avanço da I.A., o IBGE vem avisar que o Brasil contabiliza mais de 10 milhões de analfabetos. E no mesmo impulso, a Unesco informa que cerca de 14% da população mundial, a partir dos 15 anos, é de analfabetos.

Então, preocupação maior que o avanço da I.A. é o chamado analfabetismo. Uma população sem conhecimento fica mais propensa à fome, à criminalidade, às doenças, ao preconceito e mazelas similares.

A Covid passou e o ensino EAD no fundamental brasileiro prossegue, aprovando alunos que não sabem nem o básico, para que a nação saia do analfabetismo.

Do outro lado, a fome vai fechando o cerco. Se a “Declaração de Roma Sobre a Segurança Alimentar Mundial...”, de 1996, se comprometeu “a consagrar a nossa vontade política e o nosso compromisso comum e nacional”, para “atingir uma segurança alimentar para todos e à realização de um esforço permanente para erradicar a fome em todos os países [...], ao mais tardar, o ano 2015 [...]". Em 2024, a ONU avisou, no G20, que a fome persiste avassaladora, pois uma a cada onze pessoas, no mundo, passou fome em 2023. Onde há fome e falta de conhecimento, faltam oportunidades e aumentam a criminalidade e as doenças, é o que informam os relatórios.

Outra vez o Mito da Caverna rufa os tambores. O combate a essa guerra é por meio de investimento em políticas públicas eficientes. Mas não se vê esse problema nas pautas. E sem uma reestruturação na infraestrutura educacional e sem preparação técnica, teórica e prática dos trabalhadores, as pessoas entram em um processo de cegueira.

Se o poeta brasileiro questiona, “Do que servem milhares de olhos cegos?”, também, o escritor português, vencedor do Nobel de Literatura 1998, José Saramago, em sua obra “Ensaio sobre a cegueira” (1995), questiona “Provavelmente, só num mundo de cegos as coisas serão o que verdadeiramente são” (Saramago, 1995, p. 128). A obra se abre desafiando: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.” (p. 9).

A letargia desse processo para tirar o homem da cegueira, é como se estivesse a esperar que todos se cegassem. Então, à página 75, Saramago declara: “Que faço eu, se a minha maior preocupação é evitar que alguém se aperceba de que vejo?” O mesmo receio do romancista é o da maioria incapaz de mudar o cenário. E assim sendo, é mais seguro não ver.

Como escreveu a nobre Cecília Meireles, em seu poema “Motivo”: “EU CANTO porque o instante existe / e a minha vida está completa. / Não sou alegre nem sou triste: / sou poeta. [...] / Sei que canto. E a canção é tudo. / Tem sangue eterno a asa ritmada...

Na mesma linha de raciocínio de Cecília, o saudoso Bosco de Lima escreveu: “Não nasci pobre / Nasci poeta / As palavras encheram meu baú / Fizeram-me sê-lo!”.

Em busca da paz, atiram-se balas, e crianças, inocentes, recebem balas; espalham-se pânico, e o poeta, assombrado, espalha palavras. Mas de um modo geral, a violência e a fome se espalham por si, diante dos olhos cada vez mais cegos. As leis são implantadas, porque os valores foram soterrados. Na busca por subterfúgios cada qual se reinventa. Drummond, o poeta mineiro, pergunta: “E agora, José?!”; a bola da vez pergunta: “E agora, Mané?!”. E o cidadão pergunta: “E agora, meu Deus?!”.


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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