As fábulas de Esopo, mesmo eu não concordando com todas, sempre exerceram um certo fascínio em mim, graças à pontualidade dos assuntos, à sátira e outros elementos relevantes. Trata-se de narrativa curta, que prioriza a personificação animal, e sempre trará certa moral da história.
A contação de histórias exerce um poder pedagógico na educação e formação da criança, por meio da leitura literária, cuja prática apresenta conhecimento e ludicidade. Daí a relevância da contação na vida do aprendiz. A literatura infantil é o start no desenvolvimento crítico do ser humano, e as fábulas colaboram nesse processo que, além de prazeroso, é bastante instrutivo. É claro que o aproveitamento maior depende, e muito, do conhecimento do docente e/ou contador/leitor, uma vez que o ouvinte está em busca do aprendizado.
As histórias atuam com persuasão no pensamento, contribuindo para maior compreensão e aprendizado lógico, científico e emocional. As fábulas, em especial, atuam diretamente no psíquico e no emocional da criança, cujo acervo de informações está no início de sua estruturação e, com certeza, todo aprendizado refletirá em sua identidade. Ouvir histórias é uma experiência única, em nosso viver, independentemente da idade. O que muda são as formas de contação e a capacidade de interpretação.
As narrativas atravessam o tempo e o espaço, e ao chegarem ao espectador terão ação própria, conforme a demanda de cada um, portanto, o personagem e o narrador estarão sempre em reunião privada com aquele que os ouve ou os lê.
Seja prosa, seja poesia, o discernimento é essencial. As fábulas são narrativas rápidas, pensadas para sob uma moral da história. Sua mensagem envolve uma lição a ser aprendida e seu resultado depende da competência interpretativa.
A literatura infantil coopera, sobretudo, preenchendo lacunas deixadas pela escassez de diálogos e de convívio com as crianças, geralmente, devido à correria cotidiana. Esse é o preço que o progresso cobra. Por outro lado, não é possível ignorar que essas histórias contadas são escritas por esses adultos sem tempo para o diálogo presencial com suas crianças, em volta da mesa, trocando experiências. Logo, há que se haver uma ponderação na análise do conteúdo ofertado a essas crianças. Porque, a meu ver, a literatura infantil é a literatura que mais exige esforço para sua construção, e não deve ser elaborada de qualquer maneira, com conhecimentos rasos, como se observa em muitas circunstâncias. Afinal, trata-se de uma literatura formativa de opinião e estruturação crítica de um indivíduo, o qual será o adulto de amanhã, fazendo a gestão de algum setor, ou país. Podendo promover a paz ou a guerra, seja no seu entorno ou no mundo inteiro. Tudo depende de como os conflitos são resolvidos dentro de cada um, portanto, no ensino não cabe rasuras.
A fábula “Guerra e violência”, de Esopo, diz: “Cada um dos deuses se casou com a mulher que o destino lhes havia reservado. Quando foi a vez do deus guerra, só havia sobrado a violência: ele se apaixonou loucamente por ela e a desposou. Desde então, ele a acompanha, por toda parte. A violência impera numa cidade ou entre as nações, trazendo guerra e discórdia”.
Os clássicos não se tornaram clássicos pelo acaso, e sim, pela qualidade, e aquele que se nega a esse reconhecimento é porque lhe falta ciência, então, na sua leviandade, é mais fácil menosprezar o clássico do que assumir sua ignorância.
Como o próprio Esopo escreve em sua fábula “Os bois e o eixo”, “Um carro era arrastado pelos bois. Como o eixo rangia, eles se voltaram e disseram-lhe: ‘Nós puxamos o carro e vocês é que gemem?’. Para uns o sacrifício, para outros as queixas”. Portanto, a literatura infantil não é uma bagatela, mas uma ferramenta de inserção ao mundo das descobertas, o que exige responsabilidade. Quanto mais superficial a literatura ofertada, menos crítico será o cidadão. Moral da história não diminui qualidade ou ludicidade, pelo contrário, amplia a criticidade.
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