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Comentei no último texto que iríamos explorar um pouco mais essa ideia de como, não apenas a língua Portuguesa, mas bem mais a imaginação, são ferramentas importantíssimas para o desenvolvimento de uma nação. Quando mencionei na coluna anterior, um trecho da obra, mais especificamente “Onde quer o que o analfabetismo seja um problema, é um problema tão grave quanto a falta de alimento ou a falta de abrigo”, me lembrei de imediato da reforma ortográfica que entrou em vigor no Brasil, em 2009, e algumas ideias que as circuncidaram: a principal delas, e acredito ser uma das mais letais para um pretenso desenvolvimento, é a de que não existe “linguajar” errado. Uma ideia abominável de que a “forma” como todos falam, e escrevem, está correta.
A ideia pode parecer sedutora, quando usada sob o argumento de que existem em nosso país vários “povos” distintos, que em cada região se fala de uma forma, que são usadas gírias e até mesmo de que as pessoas mais humildes serão “beneficiadas” com essa aceitação, pois serão “incluídas” no idioma e serão “legalizadas” e reconhecidas na língua portuguesa.
Imagine uma fábrica. Para facilitar o exercício imaginário, suponha que existam apenas três níveis de colaboradores: um primeiro nível, que são os funcionários que trabalham com a mão na massa, estão na linha de frente da produção, ou seja, o “chão da fábrica”; um nível intermediário, no qual poderíamos elencar os empregados como supervisores e diretores, que são aqueles que fazem o “meio de campo”, que interligam os donos e gestores da empresa aos empregados que fazem o trabalho final; e um terceiro nível, sendo os próprios donos da fábrica ou mesmo os CEOs, que seriam a “elite” dessa indústria, ou, topo da carreira.
Cada nível desse lugar tem um linguajar que lhe é característico, uma espécie de “dialeto”, níveis de conversa e linguagens técnicas que lhes são específicas – e isso não é uma teoria ou um ideal, é simplesmente a realidade como está apresentada. Essa distinção acontece em basicamente todos os empreendimentos, até mesmo dentro do serviço público: os termos técnicos utilizados por um Gari são completamente diferentes daqueles utilizados num gabinete de assessoria parlamentar, com um secretário de alguma pasta municipal – um secretário de esportes, por exemplo.
Perceba, então, que a linguagem é um caminho, um “transporte”, que faz a ligação entre diversas áreas. Quando algum “intelectual”, um daqueles “ungidos” – Sowell diz que há alguns pseudointelectuais, em sua grande maioria esquerdistas, que acreditam serem iluminados por Deus e que lhe foram incumbidos da missão de “transcender”, de promover a evolução da humanidade, mesmo que aquilo que pensem esteja no caminho completamente oposto ao que de fato a realidade anseia – diz que “não existe linguagem errada, todas estão certas”, o único resultado obtido com esse pensamento não é outro senão a própria manutenção da desigualdade social que ele tanto jura combater.
Por mais que seja uma ideia linda na teoria, ela não comporta o peso da realidade. Veja, se em uma fábrica, onde sempre existiu e vai continuar existindo essa diferenciação de linguagem nos níveis, ao se falar que o funcionário do nível mais baixo não precisa aprimorar sua comunicação, “porque tudo é válido”, lhe é tolhido, mesmo que inconsciente e indiretamente, a possibilidade de buscar um crescimento dentro da carreira: ele se acomoda em sua posição, e o que permite, de fato, a ascensão em qualquer profissão, vai um pouco além da capacidade técnica de cada indivíduo e passa principalmente pela forma como ele se comunica: você com certeza conhece ou já ouviu alguma história de alguém que era extremamente habilidoso em algum nicho ou área mas que, “inexplicavelmente”, não obteve sucesso naquilo que propôs. A resposta é essa, a linguagem, a comunicação.
Nos próximos textos vamos aprofundar um pouco mais sobre esses níveis de linguagens. Até lá.
A Imaginação Educada, Northrop Frye.
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