18/07/2024 às 08h00min - Atualizada em 18/07/2024 às 08h00min

Criatividade - Desenvoltura - Conhecimento

IVONE ASSIS
"'De vez em quando, conhecemos pessoas maravilhosas, e isso, às vezes, acontece tarde na vida. O que fazer em momentos não notáveis, ou com aqueles em que convivemos com pessoas que não nos apetecem?' Mais uma vez, o poeta fecha o caderno de rascunhos e desiste da publicação" (Rezende, 2022, p. 26).

Ao ler esse Conto 16, de Hugo Rezende, fiquei pensando na inspiração prática do autor, em escrever sobre a inspiração (ou a falta dela) em seu eu lírico.
É como se dissesse: Ora, ora, nem só de imaginação vive o poeta, ele também bebe na fonte da realidade.

Esse Conto 16 nos convida ao questionamento existencial. Todos nós queremos um contínuo viver de realizações, em um eterno conviver de agradabilidade. Mas onde é que a vida proporciona isso, senão no imaginário de alguns? Pensando em pautas assim que, muito possivelmente, Rezende quis pontuar esse assunto em seu conto, construindo uma narrativa curta, objetiva, porém, de possibilidades amplas.

A obra "A hora da pedra", de Hugo Rezende, apresenta um compêndio de 83 contos curtos, cuja temática transita pelo cotidiano, revisitando mazelas 'existenciais', como a dor da perda de um filho por desaparecimento; roubo por fome; frustrações no casamento; decepções humanas, e assim se segue uma infindável lista. Mas, nem só de dor se faz a narrativa literária. "A hora da pedra" também apresenta grandes reflexões e alguns episódios de muito humor (sarcástico ou não).

O Conto 3, por exemplo, apresenta o exercício da 'sobrevivência' a um primeiro dia de trabalho em ambiente hostil, em que a criatividade vale mais do que o saber. E o narrador conclui informando: "Sempre haverá, de um lado, a verdade; do outro, a necessidade". 

A narrativa de Rezende vem do ouvir, do ler, do observar e do vivenciar, isso torna o livro em uma narrativa mais intensa. Walter Benjamin, em seu livro "Magia e técnica, arte e política", 1987, capítulo "O narrador", ensina que: "A experiência que passa de pessoa a pessoa é a fonte a que recorreram todos os narradores. E, entre as narrativas escritas, as melhores são as que menos se distinguem das histórias orais contadas pelos inúmeros narradores anônimos". 

Benjamin conclui dizendo que o povo pressupõe que narradores são aqueles que viajam bastante, portanto tem muito a contar. E de fato, uma pessoa que viaja tem bagagem narratológica. Mas também os narradores que optam por não viajar podem ser notoriamente uns excelentes narradores, bastando-lhe conhecimento de si, de seu povo, de sua própria história. Narrar é criatividade, desenvoltura e conhecimento.


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
 
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