04/05/2021 às 17h20min - Atualizada em 04/05/2021 às 17h20min

Poesia Agoraqui

ENZO BANZO
Li em algum canto da internet que o 1º de maio é o Dia da Literatura Brasileira. Mas não era o Dia do Trabalho? Acho graça. É que costumam tratar como opostos trabalho e poesia. É que costumo defender que poesia é trabalho. Qualquer trabalho artístico o é, e não só pelo imenso labor da construção estética (aquele gesto de João Cabral, o engenheiro, sentado todo dia na labuta das palavras), mas de toda uma roda que se movimenta a partir desse ato. Roda que o artista gira no braço, com a soma de forças de parceiros de todo lado. Inclusive a sua, leitor-leitora.

A tal da Literatura Brasileira é outro tema que me instiga. Diz o Google que a desconhecida data comemorativa é "uma homenagem aos grandes escritores e às suas belíssimas obras". Acho graça. Só valem os grandes canônicos? Só servem as obras belíssimas? Olho pro lado, penso o contrário. Na minha mesa estão três livros de poesias de jovens escritores daqui das nossas paragens; todas chegaram até mim pelo empenho (trabalho) direto de seus autores. Comentá-los, mesmo que brevemente, será minha homenagem ao Trabalho da Literatura Brasileira que se faz viva e pulsante, agoracá, agoraqui.

"A mulher grande", de Beatriz Rocha (Hecatombe, 2021), que me mandou mensagem nas redes para colaborar na campanha de financiamento coletivo do livro. Colaborei, chegou, bonito. A mulher é grande coração: "meu peito é errante e não cabe no mar", verso de abertura. Mas o que os poemas cantam e contam são as trivialidades do cotidiano de uma jovem mulher, entre o fogo do amor e as duchas frias: "o meu problema, meu bem / é isso de achar que as coisas são mágicas". Erotismos se transcrevem num jornal? A notícia, aqui, é simples como a vida: "contar que fui ao terraço de um café famoso / e que secretamente tinha fobia de metrô". O livro parece pequeno, um pocket. A mulher-texto escondida, grande, aparece: "como um grande sol que se abre / agora gosto ainda mais de dançar nua trancada no quarto".

Do correio veio também, dessa vez de Catalão, "Letras simples, corações complexos", de Rodrigo Locura (Assis, 2021). Foi um dos tantos trabalhos que se concretizaram graças à Lei Aldir Blanc (um brinde, caro Aldir). Quem conhece Rodrigo, como eu, vê no título a definição de sua figura, poesia que se confunde com poeta. Locura não teme o mergulho, mesmo que a água seja puro barro: "A bacia / estava com água / Lavei meu rosto, / que ficou / desfigurado / Mergulhei nela, / em busca / de meus traços / Naquele momento, já não tinha rosto / nem corpo / Tornei-me parte / daquela água / barrenta e turva". Seu livro é essa bacia que nos oferece, gentil, para sujarmo-nos na mesma água barrenta, profundidade oculta que se revela no mundo aparente: "a dor que parece profunda / é na pele". Assim em nós se inscreve, firme e discreto: "o melhor sorriso / é o do canto da boca / ao ler seu poema".

Busquei no portão do prédio, sorriso sob máscaras, o instigante "Plagiando Hilda", de Marcus Vinicius Lessa (Urutau, 2020). Plagiar não era crime a ser evitado? Acho graça. Pois Marcus revela, no exercício do plágio, a potência de sua criatividade artística. É irresistível buscar o objeto plagiado, de antemão informado, o livro "Júbilo, memória, noviciado da paixão", publicado por Hilda Hilst em 1974. Procurando o jogo, percebo que Marcus importa a estrutura, os cantos em algarismos romanos, os títulos em marcas musicais, até a dedicatória. Toma quadros e tons de cores (versos) para compor seu original de rasuras, emendas e tentativas. Os ecos são outros, embora ainda se encontre alguma correspondência. O canto III de Hilda começa: "se refazer o tempo, a mim, me fosse dado"; o canto III de Marcus termina: "o espaço não finda comigo". O tempo-espaço de Lessa é repleto de frestas; da voz camuflada de Hilda pode surgir, desavisado, o canto de Gal: "mamãe eu tenho medo da buzina da vizinha da carina / da cartolina também tenho medo da cruz". Marcus Vinícius é fino garimpador, sabe que a tal Literatura está em movimento e transformação, oculta com olhos atentos sobre quem a observa a absorve: "a própria sombra de extrair gavetas do raro".



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