22/09/2020 às 08h30min - Atualizada em 22/09/2020 às 08h30min

Alan Moore – Maxwell o Gato Mágico

CHICO DE ASSIS
É improvável encontrar entre leitores alguém que não conheça Alan Moore. Responsável por trabalhos como “Monstro do Pântano”, “Watchmen”, “V de Vingança” e muitas outras obras de grande relevância, é considerado um dos maiores roteiristas da história dos quadrinhos. O que muitos não sabem entretanto é que ele foi o autor de uma tira de humor em um jornal de sua cidade Northampton. “Maxwel o Gato Mágico” foi publicado semanalmente nas páginas do “Northants Post” entre os anos de 1979 e 1986 sob o pseudônimo de Jill de Ray. Embora em um dado momento já tivesse reconhecimento mundial com seus trabalhos para grandes editoras americanas, recebendo valores incomparáveis com as 10 ou 12 libras semanais pagos por sua tira, Alan não pretendia encerrar esse trabalho, e só o fez em função de o jornal haver publicado um artigo abertamente homofóbico. E essa é apenas uma amostra da admirável postura moral e política do autor.

Escrita e desenhada por Moore a tira segue um padrão fixo de 5 quadrinhos e explora bastante os limites da linguagem, às vezes “desobedecendo” os requadros, ou por exemplo em um episódio onde nos é mostrado o lado “avesso” da tira. Critico extremo da “Era Thatcher” o autor usava esse espaço para expor sua visão política e ao mesmo tempo como um laboratório para experimentar técnica e esteticamente as possibilidades do meio. Tudo isso é claro sem esquecer que se tratava de uma tira de humor. Sobre isso Eddie Campbell seu parceiro de trabalho em “Do Inferno” diz: “Quando a nova geração de historiadores/críticos reavaliar a história dos quadrinhos e começar a selecionar quais tiras beberam fundo no espírito dos anos 1980, tenho a sensação de que Maxwell será devidamente reconhecida como obra de relevância e não só aquela coisinha que o Alan Moore fazia nas horas de ócio.”  

Uma reunião desse trabalho foi publicada uma única vez ainda no ano de 1986 pela editora inglesa “Acme Press” em quatro volumes com edição e tiragem bem modestas. Mas... A jovem e ousada editora brasileira “Pipoca e nanquim” resolveu suprir essa lacuna e traz uma edição em volume único com 132 página, todas as tiras restauradas, inclusive uma que estava perdida nos arquivos do jornal e outra de 2016 desenhada por ocasião do encerramento das atividades do “Northants Post”, além de um prefácio de Eddie Campbell, posfácio do próprio autor, tradução e notas de Érico Assis que foi também tradutor para português de uma biografia de Alan Moore, texto de Flavio Pessanha estudioso da obra de Moore, textos e notas dos editores e uma galeria com vários artistas como David Lloyd e Brian Bolland representado Maxwell. Uma edição com o cuidado que o “velho mago” merece, e pela primeira vez em um idioma que não o inglês, o feito é tão notável que foi notícia no “Bleending cool” site de notícias dos EUA sobre quadrinhos, que termina com uma chamada aos editores de língua inglesa do tipo: “veja o que vocês NÃO estão fazendo!”.

O álbum lançado no dia 26 de março continua disponível no site da editora e como ação de divulgação a editora começou um sorteio nas redes sociais de 200 bookplates autografados por Alan Moore, o que deve ser retomado em breve. Em época de louvor ao empreendedorismo de ocasião, prefiro pensar que esse é o resultado do esforço de pessoas que decidem trabalhar com aquilo que amam de verdade. Parabéns “Pipoca e Nanquim”.


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
 
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