19/12/2019 às 14h24min - Atualizada em 19/12/2019 às 14h24min

Tempos líquidos

IVONE ASSIS
"Se você quer a paz, cuide da justiça", advertia a sabedoria antiga – e, diferentemente do conhecimento, a sabedoria não envelhece. Atualmente, a ausência de justiça está bloqueando o caminho para a paz, tal como o fazia há dois milênios. Isso não mudou. O que mudou é que agora a "justiça" é [...] uma questão planetária”. (Zygmunt Bauman, 2007, p. 11).

Escolhi este pequeno recorte da obra “Tempos líquidos”, do sr. Bauman, para introduzir a Literato de hoje porque penso ser este um dos melhores textos para se refletir, neste momento, em que todo o país passa por sérias dificuldades e necessidades, e mesmo assim os oportunistas não se intimidam. A cada vez que investimos nosso precioso tempo para ler ou ouvir as notícias, é como retirar o tampão do esgoto prestes a espocar. São assassinatos e roubos de todos os “calibres”. Contudo, aquilo que antes era atribuído a uma classe, agora miscigenou.

O sistema eleito, e muito bem pago, para gerir os recursos do país, a fim de fazer repasses adequados, para que a população carente não venha a perecer às mínguas, vitimadas por doenças, fome, inanição, violência e outros males, tornou-se um sistema que amedronta, que silencia pelo medo. Por mais que se tente sonhar e acreditar, “o medo está lá, saturando diariamente a existência humana, enquanto a desregulamentação penetra profundamente nos seus alicerces e os bastiões de defesa da sociedade civil desabam. O medo está lá - e recorrer a seus suprimentos aparentemente inexauríveis e avidamente renovados a fim de reconstruir um capital político depauperado é uma tentação à qual muitos políticos acham difícil resistir. E a estratégia de lucrar com o medo está igualmente bem arraigada”. (Zygmunt Bauman, 2007, p. 23).

Proletariado! Cheguei a elucubrar, certa vez, que haveria um tempo em que esta palavrinha já não teria sentido. Ah, tempos líquidos. Tudo se dissolve, inclusive a “esperanza”. O que dizer a um tutor familiar que foi pego furtando comida no supermercado? É fato que um erro não justifica o outro, no entanto, há que se ponderar, a Constituição reza que somos todos iguais perante a lei. Então, sendo todos iguais, por qual razão um semelhante surrupia comida, para não morrer de fome, ante suas precárias condições de subsistência, e o outro surrupia a verba destinada à nação, para, simplesmente, acumular bens dos quais, de muitos, ele nem irá usufruir?

Já cansei de ouvir o jargão: “Uns nascem para ser empreendedores, outros nascem para ser empregados”. Financeiramente falando, é fato comum e aceitável, todavia, isso não se confunde com a condição humana, pois o sujeito, enquanto pessoa que é, empregado ou empregador, ocupa o mesmo espaço de mundo e, diante da lei, tem o mesmo direito de ser honrado pelo seu suor, com oportunidades e justiça, para que cada qual tenha o direito de escolha, seja nos estudos, no trabalho, no ir e vir. Novamente, a literatura, com suas possibilidades de leitura, vem apresentar probabilidades de “compreensão”: “O tempo flui, e o truque é se manter no ritmo das ondas. Se você não quer afundar, continue surfando, e isso significa mudar o guarda-roupa, a mobília, o papel de parede, a aparência, os hábitos – em suma, você mesmo – tão frequentemente quanto consiga”. (Zygmunt Bauman, 2007, p. 108).

Agarrados a isso, vamos mudando nossas vontades, conforme nossas possibilidades. Chega um dia, que de tanto mudar, mudamos de identidade. E acometidos da síndrome da memória curta, muitos se esquecem de quem foram um dia; outros, de quem poderiam ser.

“Nada resta senão os muros, o arame farpado, os portões controlados, os guardas armados.” (Zygmunt Bauman, 2007, p. 47). E o jovem, com o olho fixo no quadro e outro no exemplo, rabisca na pauta da folha branca trilhada pelas linhas azuis: "Se você quer a paz, cuide da justiça".


*Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.









 
 
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