13/06/2019 às 08h17min - Atualizada em 13/06/2019 às 08h17min

Mundo poético

IVONE GOMES DE ASSIS
Há nove anos promovo um encontro literário em que pessoas comuns, amantes da literatura e da música, se encontram para recitar poemas e cantar. Embora seja maravilhoso, creio que a essência maior desse evento é a criatividade e a empatia desencadeada entre as pessoas ali presentes. Não raro, vejo pessoas presentearem colegas com palavras tão nobres, e comumente dizer: “Escrevi como se fosse para mim, por isso fiz o melhor!”. Ora, ora, acaso não é isso a empatia tão comentada no mundo? Escrever algo para alguém, mas antes colocar-se no lugar do outro para imaginar a emoção do outro ao receber a homenagem, a fala, a música, o abraço, o poema...

Como nos ensina o mestre da poesia Mário Quintana: “Os poemas são pássaros que chegam não se sabe de onde e pousam no livro que lês. Quando fechas o livro, eles alçam voo como de um alçapão. Eles não têm pouso, nem porto, alimentam-se um instante em cada par de mãos e partem. E olhas, então, essas tuas mãos vazias, no maravilhado espanto de saberes que o alimento deles já estava em ti…”.

Este poema de Quintana, apreciadíssimo pela crítica literária e pelo leitor comum, aponta para a reflexão de que o poema chega livre e volta sozinho. A escrita poética voa solitária em busca de alimento dentro de cada leitor. “Não tem pouso, nem porto”, contudo o instante vivido em cada um pode ser eterno em cada leitor. Vejo o poema como as cidades. Uma cidade, quanto mais velha, mais se remoça, mais se inova, mais se amplia em possibilidades. Igualmente, o poema quanto mais é lido, quanto mais leitores alcança, mais conteúdo ele oferece. E a interpretação que ele deixa em cada um não se esvazia quando chega à próxima análise. Pelo contrário, quanto mais vive um poema, mais valor se agrega a ele. Sua vida é uma somatória de interpretações. É assim que nascem os clássicos.

De acordo com Bakhtin, o conhecimento é alcançado em contextos históricos/culturais, e o sentido, portanto, não depende de sua expressão linguística, mas de seu alcance extralinguístico. Desse modo, entendo que, se a escrita imprime a estrutura, a arquitetura de um texto, é a cultura, por meio da leitura e da absorção, que irá desenhar o espaço que o poema conquistou. Isso, notadamente, varia de leitor para leitor. Há quem enxergue somente a palavra pintada na página; há quem se emocione e diga que o escritor, tomado por uma força maior, escreveu para ele, mesmo sem saber de sua existência; há quem se debruce sobre o poema e extraia dali teses, artigos, colunas... mas há quem, ao ler, enxergue a expectativa.

Em um poema não há errado ou certo, há interpretação e poesia, elementos estes, intrinsicamente, atrelados à cultura e ao momento do indivíduo que o lê. Desse modo, podemos entender que o poema é vivo e moldável. É desta capacidade interpretativa que me alimento para buscar perseverança em desenvolver e manter projetos literários nos quais veja crianças de 5, 6, 8... anos desafiando (na poética) doutores da palavra de 60, 70, 80... anos.

Como ensina Mário Quintana, “Eles passarão, eu passarinho”. É magnífico ver que enquanto parte avança a passos largos para o contra, outra parte se esforça para ser mais criativo, buscando a sabedoria dentro da liberdade que cabe. Esta parte seleta, ao ler um livro, um poema, enxerga ali as possibilidades. São pessoas que, conscientes dos obstáculos, buscam alternativas. Assim, enquanto parte do mundo faz guerra, outra parte faz poesia. E em meio do universo da miséria e das tecnologias, entre os mansos e os brutamontes, eis que há um mundo poético.
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