26/03/2018 às 17h05min - Atualizada em 26/03/2018 às 17h05min

Olha o trem

WILLIAM H STUTZ | COLUNISTA

História que aqui reconto me foi contatada, não carrego os créditos do caso nem posso dá-los, pois ao mundo pertencem, talvez até conheça, mas o registro tem que ficar. 

Em pequena cidade em pé de serra, vazia de barulhos e de gente, três meninos cresceram juntos. Claro que havia mais crianças no pequeno grupo onde ainda se usava "Caminho Suave" e à vezes até palmatória, mas esse trio era diferente, amizade siamesa, xifópaga. Podia contar, onde um estava era só passar olho e achavam-se os outros. Se por acaso um era pego roubando fruta em quintal, castigo para os três. Cresciam pé no chão alegres e pregados. Frango caía de maduro de poleiro, direto na panela ou fogueira. Os pais dividiam e pagavam o vizinho enfezado com a traquinice.

Adolescentes, hormônios à flor da pele, suavam frio/quente de êxtase ao espiar as meninas nuas em banho de cachoeira. Exaustos, pernas bambas, seguiam em alegre silêncio até se prostrarem em gramado e bancos de praça. Nenhum pio, apenas as estrelas como companheiras. Logo, recompostos a algazarra de sempre. Três que valiam mil em contar detalhes e fechar de olhos.

O tempo. "Medida arbitrária da duração das coisas".

A pequena cidade não os cabia mais. Buscar rumo, não tinha jeito. Resolveram fazer concurso do Banco do Brasil, carreira promissora, futuro certo. Bota um estudar sem fim.

Vendas, botecos e zona. Tinha sim. Era pequena, mas como manda a tradição, a zona lá estava e sempre cheia, inclusive em dias de semana. Um terror das matronas.

Dizem que foi lá que nasceu a história do vendedor de panelas que, ao ser surpreendido pela noite em suas andanças, buscou pouso no único hotel da cidade. Banho tomado resolveu sair para aventura. Perguntou ao porteiro do hotel onde ficava a igreja. Com sorriso de mineiro cordial indicou direção. O mascate pegou o oposto:

— Uai, moço, a igreja é prá lá!

Maroto, respondeu em cochichos:

 — Eu vou é pra zona, sô, pelo que sei é sempre do lado contrário das igrejas. Padre ia deixar ser diferente?

Pois nem tempo tinham os três. Era um estudar que só. Montanhas de apostilhas chegavam quase todo dia pelo correio.

A prova foi na Capital. Belo Horizonte os recebeu barulhenta e com seu trânsito agarrado de sempre.

Exame feito, agora era esperar resultado.

Meses de agonia depois e, pronto, toca a comemorar. Fecharam todos os bares e vendas da cidade. No último, vendo que não iam embora, o dono proclamou:

– Toma a chave dos fundos. Vocês vão marcando o que beberem no caderno e depois acertam, vou dormir, o leiteiro passa cedo. Só não vão me botar fogo na venda!

A luz tinha caído como sempre e lampião de querosene iluminava o ambiente. Naquela noite o gato do armazém dormiu em paz sobre seu saco de arroz preferido e nem camundongo ousou botar bigode fora da toca, tamanho furdunço.

Dia amanhecendo, abraçados seguiram para a estação de trem, cada um ainda com uma garrafa de Fernet pela metade.

Tontos se jogaram no banco da velha estação se deixando ficar. Passou hora e mais hora. Num sobressalto o rapaz acordou. Cabeça doía que só. A luz do amanhecer entrava por seus olhos como zagaias afiadas. Na ponta do banco o cabo da polícia estava sentado com as mãos entre pernas e dedos entrelaçados. Sem nem olhar para o rapaz que conhecia desde molecote, com voz paternal lhe murmurou:

— Tá vendo, estudou tanto e agora que ia assumir o posto perdeu o trem. Seus amigos embarcaram tontos, mas foram. Tem vergonha, não?

O moço aprumou, coçou cabeça e assim, do nada, começou com risada miúda, que foi crescendo, crescendo, até transbordar em gargalhada de rolar no chão. A cabeça doía, mas o riso era impossível de segurar.

Sem entender nada, o cabo já ia ficando era assustado.

— Enlouqueceu, rapaz? Eu vou é chamar o doutor e seu pai.

O moço ainda no chão de tanto rir, que doía corpo inteiro:

— Carece não cabo, carece não. É que na verdade só eu passei. Só eu é que ia viajar, os amigos vieram foi me trazer aqui na estação

Levou semana para os outros voltarem.
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