18/06/2021 às 15h25min - Atualizada em 18/06/2021 às 15h25min

Estiagem gera alerta sobre risco de desabastecimento de água em Uberlândia

Especialistas acreditam que o baixo índice de chuvas de 2021 pode ocasionar crise hídrica mais severa do que as registradas em 2019 e 2014

NILSON BRAZ
Estiagem pode comprometer níveis de estações de captação | Foto: VIA-DRONES
Oficialmente, o período de estiagem em Uberlândia começou no fim da primeira quinzena de abril. Mas, segundo os levantamentos do Laboratório de Climatologia da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), mesmo no período chuvoso, a quantidade de chuvas registradas em 2021 foi abaixo da média esperada. Em janeiro de 2021 choveu pouco mais de um terço da quantidade de chuvas registradas no ano passado em Uberlândia e quase a metade da média dos últimos cinco anos, o que pode ocasionar uma crise hídrica mais severa do que as registradas em 2019 e 2014.

A principal consequência desse fenômeno é que, com o prolongamento do período de estiagem, os resultados da falta de chuvas podem ser ainda mais impactantes. Isso significa, segundo especialistas, que o fim de agosto e início de setembro podem apresentar níveis muito baixos nos rios e mananciais da nossa região, impactando diretamente no abastecimento de água e fornecimento de energia da população de Uberlândia.

De acordo com alguns especialistas, apesar de não ser uma previsão certeira, é necessário olhar os indícios como uma espécie de alerta. Tanto para a gestão pública quanto para a própria população. O ambientalista Gustavo Malaco explica que Uberlândia tem um consumo de água muito alto. E para o impacto não ser tão grande, principalmente em secas mais severas, como a que está se desenhando para 2021, seria necessário repensar a maneira de como se consome água na cidade.

“O consumo de água por habitante é muito acima da média mundial. Também tem a irrigação, que é o maior usuário de água. Precisa de um olhar mais reforçado sobre a utilização desse recurso de uma forma mais eficiente. Tanto no setor da agropecuária, como também nos comércios e na indústria”, explicou o ambientalista.

FALTA DE ÁGUA
Apesar dos alertas não representarem um risco concreto de que irá faltar água na cidade, os especialistas falam sobre a necessidade de estratégias que garantam o fornecimento do recurso para os cidadãos. O ambientalista Gustavo Malaco explicou que, mesmo o período seco abaixando muito os níveis dos canais de captação de Sucupira e Bom Jardim, a alternativa do município pode ser colocar o novo sistema de captação, que é o de Capim Branco, em atividade. Mas que ainda assim não seria sensato deixar essas outras fontes de água se esgotarem.

“Esse é um debate muito importante. Mesmo com certa abundância de água, nós não podemos perder o local que fornece água mais barata para Uberlândia, porque desce de forma gravitacional e que tem menos poluentes, do que Capim Branco, que é uma água que vai ter que ser bombeada, gastando energia no processo e tem mais poluentes no lago. Espero que Uberlândia não cometa esse erro”, disse o ambientalista.

De acordo com o diretor geral do Departamento Municipal de Água e Esgoto (DMAE), Adicionaldo dos Reis Cardoso, apesar de, atualmente, a produção de água estar sob controle, o sistema de captação de Capim Branco, que deve ser inaugurado no mês de julho, poderá ser utilizado, caso aconteça um desabastecimento de água em Uberlândia.

“Tivemos menos chuvas neste ano. E, com isso, o lençol freático abaixa e produz menos água, digamos assim. Hoje, Sucupira e Bom Jardim estão com níveis satisfatórios, mas, pela percepção da falta de chuvas, nos meses de agosto, setembro e outubro só não deveremos ter problemas se já estivermos colocando água de Capim Branco aqui em Uberlândia. Se não fosse isso, Uberlândia teria um problema de abastecimento", confirmou o diretor do DMAE.

PLANO DE CONTINGÊNCIA
Estudioso da área hidrológica de Uberlândia e preocupado com o possível desabastecimento de água na região, o servidor público Eduardo Macedo de Oliveira considera as ações do governo municipal insuficientes, quando o assunto é a utilização do recurso na cidade. Ele conta que, desde 2014, quando o município passou por uma das maiores crises hídricas registradas, ele passou a tomar medidas, por conta própria, para chamar a atenção do poder público e da sociedade sobre o assunto.

“O DMAE é uma autarquia que cumpre a sua função, mas acredito que esse não é um assunto só de autoridades. A sociedade organizada tem que estar atenta a isso e cobrar. As pessoas delegam essa ação só para as autoridades. Eu não penso assim. Eu, como cidadão, entrei com representações no Ministério Público em 2014 e em 2019 e chegaram a montar um gabinete de crise”, afirmou o servidor.

Ele disse, ainda, que é preciso pensar em estratégias para orientar a população quanto à utilização mais consciente e inteligente da água. Ele apresentou projetos para o DMAE que previam incentivar os moradores a terem reservatórios de água para fazer o reaproveitamento de parte da água utilizada na lavagem de roupas.

Segundo o diretor do DMAE, Adicionaldo dos Reis Cardoso, a autarquia tem o planejamento para fazer campanhas de uso consciente da água, mesmo com o início das atividades de Capim Branco, para evitar o agravamento da situação que pode ser causada pela seca. Mas ele disse, também, que outros projetos esbarram em questões estruturais da cidade. O exemplo utilizado por ele é que já existe a previsão de que tenha reservatórios de água de reuso em prédios que ainda serão aprovados na Secretaria Municipal de Planejamento, mas nas residências isso acaba sendo mais difícil.

“Como Uberlândia é uma cidade com mais de 100 anos, tem muitas casas que nem reservação de água tem. Então se nós fizermos uma campanha, que eu, inclusive, abraço a ideia, de além da pessoa ter uma caixa d’água, ter um reservatório para água de reuso, seja de água da chuva ou da máquina de lavar, demanda muito que a população abrace a ideia, que não acontece muito”, finalizou Adicionaldo Cardoso.

 
  • LEI DE SEGURANÇA HÍDRICA
Ainda no sentido de garantir o fornecimento de água para a população, o município de Uberlândia atendeu a uma recomendação do Ministério Público para a criação de um Projeto de Lei que institui a Política Municipal de Segurança Hídrica e Gestão das Águas. Em dezembro do ano passado, a proposta foi aprovada na Câmara Municipal.

O texto regulamenta um conjunto de políticas, planos, programas, projetos e iniciativas relacionadas à proteção, preservação, conservação, recuperação, manejo, prestação dos serviços públicos pertinentes e demais ações de interesse local concernentes às águas e respectivas áreas de interesse hídrico em Uberlândia.

As medidas servem para garantir o acesso a quantidades adequadas de água de boa qualidade, por meio da integração de políticas de saneamento, meio ambiente, gestão de recursos hídricos, saúde, uso do solo, defesa civil, transparência e controle social, visando à manutenção e garantia do abastecimento de água.

De acordo com o promotor Fernando Martins, a legislação aprovada é muito completa e importante, porque ela abrange desde a preservação das nascentes da região até a criação de alertas para a população sobre o uso correto da água, além de ser possível dar incentivo ou fazer sanções quanto a essa utilização.

“Quem gastar água desnecessariamente pode sofrer uma sanção maior, e quem souber fazer uma economia, vai ter incentivos. É uma legislação muito boa, mas eu acredito que ela ainda não está sendo utilizada, porque é muito jovem. Mas ainda assim vou cobrar informações sobre o que está sendo feito após a aprovação da lei”, disse o promotor.
 

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