27/05/2021 às 12h23min - Atualizada em 27/05/2021 às 12h23min

Pandemia faz dobrar número de pessoas em situação de rua em Uberlândia

Levantamento feito por Fórum Permanente mostra que população saltou de 700 para até 1.500; Prefeitura foi questionada sobre vacinação destes moradores contra a Covid-19, mas não respondeu

FERNANDO NATÁLIO
Levantamento feito por Fórum Permanente mostra que população saltou de 700 para até 1.500 I Foto: Marcos Ribeiro
A pandemia do coronavírus impulsionou o aumento do número de pessoas em situação de rua em Uberlândia. Segundo estimativa do Fórum Permanente das Pessoas em Situação de Rua de Uberlândia, esta quantidade mais que dobrou após o início da crise sanitária e hospitalar provocada pela covid-19, passando de cerca de 700 pessoas nestas condições para até 1.500.

A perda de empregos, dificuldade de recolocação no mercado de trabalho e a consequente queda do poder econômico e dificuldade para custear despesas habitacionais influenciaram neste problema social, de acordo com o presidente do Fórum Permanente, Jack Albernaz. Esta avaliação também é reforçada pelo professor do Serviço Social da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Flander de Almeida Calixto.

“O número atual de pessoas em situação de rua na cidade flutua entre 1.200 e 1.500. Depende do dia em que é feita essa contagem. Mas, sabemos que dobrou porque fazemos esse levantamento com base nas refeições que servimos a este pessoal, desenvolvendo um trabalho que deveria ser feito pela Prefeitura, mas não é realizado adequadamente pelo poder público”, explicou Albernaz.

Ainda de acordo com o presidente do Fórum Permanente, quando a equipe serve as refeições aos moradores em situação de rua, hoje, identifica também pessoas que não eram vistas anteriormente. “É gente que perdeu o emprego, que não conseguiu mais pagar aluguel, que não consegue voltar ao mercado de trabalho. Recebemos relatos dessas pessoas apontando esses problemas”, disse. “E tem ainda os imigrantes de outros países, principalmente da Venezuela”, completou.

Para o professor do Serviço Social da UFU Flander Calixto, a pandemia precipitou uma piora social que já vinha ocorrendo, provocando, assim, a elevação do número de pessoas em situação de rua em Uberlândia. “É um aumento lógico. Antes da pandemia, o Brasil já apresentava recrudescimento inflacionário, baixa empregabilidade e precarização dos postos de trabalho. A pandemia acentuou estes problemas”, apontou.

Flander Calixto lembrou ainda que a crise sanitária e de saúde provocada pela covid-19 impactou, principalmente, o comércio, devido aos sucessivos fechamentos das atividades econômicas e à queda nas vendas do setor.

“A maior parte da mão de obra empregada no nosso país está nos pequenos comércios. Como eles foram atingidos fortemente, muitas pessoas perderam seus empregos e não conseguiram pagar mais suas contas. Com o déficit habitacional que ainda é muito grande no Brasil, muitas dessas pessoas não puderam pagar os alugueis de suas residências e foram para as ruas”, observou o professor do Serviço Social da UFU.
 
MOMENTO DE PICO
O diretor presidente da Ceami Família, Onésimo Domingos, reforça a constatação da maior quantidade de pessoas em situação de rua na cidade após o início da pandemia.

“Podemos falar em momentos de pico. É o que temos hoje em Uberlândia. Temos atendido mais pessoas em situação de rua na Ceami e não são somente pessoas que têm problemas com drogas e álcool”, revelou o diretor presidente da entidade, que tem 45 vagas na unidade do bairro Martins e mais 45 vagas na unidade do bairro Santa Mônica, totalizando 90 vagas para abrigar pessoas em situação de rua.
 
POSICIONAMENTO DA PREFEITURA
Questionada pelo Diário sobre a assistência do Município a estas pessoas em situação de rua, a Prefeitura de Uberlândia disse, por meio de uma nota, que tem desenvolvido ações junto a esta população durante a pandemia.

A Prefeitura esclareceu que por meio da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social, Trabalho e Habitação (Sedesth), tem adotado medidas em sua estrutura de atendimento à população em situação de rua, tendo como referência as indicações do Núcleo Estratégico do Comitê Municipal de Enfrentamento à Covid-19, do Ministério da Cidadania e da Política Nacional para a População em Situação de Rua, além de outros instrumentos legais.

“A fim de diminuir os riscos de transmissibilidade, reforçar o distanciamento social e assegurar o cuidado em casos de suspeita ou confirmação de contaminação, o trabalho com esta população foi intensificado”, constou a nota. 
 
Entre as ações, foram citadas pela Prefeitura:
 
- Busca ativa diária de pessoas em situação de rua nas vias, praças e logradouros públicos, feita pela equipe de Abordagem Social de Rua, realizando os encaminhamentos necessários para as pessoas com sintomas de COVID-19. Entre março de 2020 e abril de 2021, ou seja, desde o início da pandemia do novo coronavírus, foram realizados 170.391 procedimentos junto a esta população, sendo acompanhadas uma média de 130 pessoas diariamente.
 
- Monitoramentos e avaliações diárias das instituições de acolhimento institucional parceiras da Sedesth visando a prevenção de contágio dos funcionários e dos usuários em acolhimento. Nestas ocasiões ocorrem orientações sistemáticas sobre o uso adequado dos equipamentos de proteção, normas de segurança e prevenção à Covid-19, sendo reforçada a importância de manter o distanciamento e o isolamento social.
 
- Repasse de recursos financeiros complementares à subvenção para aquisição de materiais e implementação de ações necessárias durante o período pandêmico para os quatro abrigos que são acompanhados diariamente: Ceami 1 e 2, Icasu e Ramatis. Estes recursos complementares foram para aquisição de materiais e implementação de ações necessárias durante o período pandêmico. Para estes espaços, a Sedesth ainda doa itens como leite, bolachas, óleo de soja, bebida láctea, embutidos (mortadela) e kits de higiene pessoal. Também são disponibilizadas máscaras de tecido faciais, álcool em gel, kits de higiene pessoal, roupas, chinelos, tocas e aventais, entre outros itens. 
 
- No Centro de Referência Especializado para População de Rua e Migrante foram reforçadas as orientações sobre a prevenção ao contágio junto aos trabalhadores e usuários e disponibilizados equipamentos de proteção e prevenção ao coronavírus. Frequentemente também são realizadas sanitizações no Centro e em suas adjacências.
 
- Desde março de 2020, o abrigo Ceami Martins, instituição parceira da Sedesth, passou a funcionar como porta de entrada para o primeiro acolhimento às pessoas em situação de rua. Neste espaço, tais pessoas ficam em observação entre cinco e dez dias para verificar possíveis sintomas. Caso a pessoa não apresente algum sintoma, ela é transferida para os outros abrigos parceiros.  Para evitar a disseminação do coronavírus, todos que apresentam sintomas e ou suspeita de contaminação são encaminhados para isolamento, sendo solicitada a testagem de Covid-19, em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde. Para este encaminhamento foi criado um espaço de quarentena para a permanência das pessoas no Ceami das Chácaras Panorama. Todas estas ações são acompanhadas pela equipe de saúde com a disponibilização de exames e medicamentos necessários para cada situação apresentada.
 
O Diário também questionou o Município se a Prefeitura realiza um mapeamento das pessoas em situação de rua para garantir a vacinação deste grupo contra a covid-19. O Município, no entanto, não respondeu ao questionamento.


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