20/12/2020 às 09h00min - Atualizada em 20/12/2020 às 09h00min

Salário mínimo em Uberlândia está quatro vezes abaixo do ideal

Rendimento necessário para uma família de quatro pessoas precisaria ser de R$ 4.358,60, de acordo com estudo divulgado pelo Cepes/UFU

DHIEGO BORGES
A relação entre o salário oficial e o mínimo necessário para se viver em Uberlândia apresenta uma defasagem de quase 80%. De acordo com o último levantamento feito pelo Centro de Estudos, Pesquisas e Projetos Econômico-sociais (Cepes) da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), o ganho necessário para a sobrevivência de uma família de quatro pessoas teria que ser quatro vezes maior do que o atual, fixado em R$ 1.045.

Segundo o estudo divulgado pelo Cepes, referente a novembro, o rendimento ideal para a manutenção de uma família composta por dois adultos e duas crianças, ou três adultos, precisaria ser R$ 4.358,60. Atualmente, o salário oficial equivale a 23,98% do mínimo necessário.

O valor é calculado de acordo com o Índice de Preços do Consumidor (IPC) e o gasto com a Cesta Básica de Alimentos, que em novembro foi estimado em R$ 518,82, um crescimento de 6,43% em relação ao mês anterior. O levantamento também mostra que a inflação acumulada no ano para os itens que compõem a Cesta Básica está em 20,56%.

De acordo com o economista doutor em demografia e coordenador do Cepes, Luiz Bertolucci, a relação entre o salário ideal e o mínimo, que impacta diretamente no custo de vida, teve uma piora em 2020. “É uma defasagem muito grande, sendo necessária uma política de recuperação dos salários, pois não há aumento real. Basta considerarmos que uma família de três adultos empregados, que juntos recebem um salário-mínimo cada, totalizando uma renda por salários de R$ 3.264,00, mesmo assim não estaria ganhando o mínimo necessário e, possivelmente, estaria enfrentando dificuldades no orçamento doméstico”, destacou o economista. 

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que, em Uberlândia, quase 30% das famílias compostas por quatro pessoas têm um rendimento menor que R$ 2.090, o que, segundo Bertolucci, mostra a desigualdade social na cidade.

“O último estudo do Cepes aponta que vamos fechar o ano com uma inflação acumulada de quase 5% nos últimos 12 meses, que é considerada alta. Tivemos um aumento considerável em itens relacionados a alimentação, aluguel, higiene, limpeza e energia elétrica, que têm maior impacto para as famílias mais pobres”, complementou. 

SÉRIE HISTÓRICA 
Ainda segundo o coordenador do Cepes, desde o lançamento do Real, em 1994, a relação entre o mínimo necessário obteve uma certa melhora. Naquele ano, o salário oficial representava 10% do ideal. A partir do controle da inflação, no fim de 1999, essa média subiu para 18%. Um dos melhores índices foi registrado em 2017, quando a relação entre o rendimento mínimo e o necessário ficou em torno de 32%.

“Em termos de relação entre o salário-mínimo oficial e o salário necessário, para Uberlândia, a melhor foi por volta de setembro de 2017, com o mínimo fixado em R$ 937 e o necessário em R$ 2.885,74. O pior resultado, ainda que tenham ocorridos ganhos reais no salário-mínimo, olhando para a última década, foi registrado no fim de 2015, momento em que tivemos uma crise econômica e a inflação bem mais alta. Em dezembro daquele ano, o mínimo estava em R$ 788 e o necessário era de R$ 3.342, o que representa uma relação de 23,6%, bem próximo do percentual registrado em novembro deste ano”. 

O economista também destacou que a defasagem salarial é ainda maior a nível nacional. Segundo o especialista, o salário mínimo ideal no Brasil teria que atingir a marca de R$ 5.289,53. 

AUMENTO PARA 2021
Nesta quarta-feira (16), o Congresso Nacional aprovou o aumento do rendimento mínimo para 2021. O valor foi fixado em R$ 1.088, um crescimento de 4,1%. De acordo com o IBGE, a inflação acumulada no país está em 4,31%, considerada pelo governo como dentro da meta. 

Na avaliação de Luiz Bertolucci, o valor do aumento salarial anunciado pelo governo não é suficiente. “Esse aumento de 4,1% não apresenta ganho real, não recupera a inflação, não melhora a renda dos mais pobres, pois há uma perda expressiva da renda de salário em relação ao dólar. Um trabalhador que já tem uma perda real no seu rendimento, então claramente é um quadro de aperto na renda que aumenta a desigualdade social, sem uma política de valorização salarial”, afirmou. 



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