16/12/2020 às 14h48min - Atualizada em 16/12/2020 às 14h48min

Paciente perde gêmeas em parto e alega desassistência na rede pública em Uberlândia

Jovem relata que problemas durante a gestação não foram tratados corretamente e médicos não prestaram atendimento humanizado

BRUNA MERLIN
Primeiramente, jovem foi atendida na UAI Martins e, em seguida, encaminhada para o HC-UFU | Foto: Google Street View
O que era para ser um sonho acabou se tornando o pior pesadelo de Caroline Finamor, de 27 anos, que estava grávida de gêmeas. A moradora de Uberlândia viveu cenas de terror durante o trabalho de parto, realizado no Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia (HC-UFU), e acabou perdendo as filhas após complicações que não foram constatadas e tratadas pelos médicos que a acompanhavam, segundo ela.
 
O triste episódio que ficará para sempre na memória de Caroline aconteceu em outubro deste ano. Ela estava grávida de 20 semanas quando começou a sentir fortes dores na lombar e no quadril e decidiu procurar a Unidade de Atendimento Integrado (UAI) do bairro Martins para descobrir o que estava acontecendo. Ao chegar ao local, ela ficou horas esperando atendimento e a conclusão de exames.
 
“Cheguei lá era umas 16h e logo fiz a coleta para exames, mas hora nenhuma a médica quis me tocar para saber o que estava acontecendo com minhas bebês. Ela dizia que a dor era uma infecção de urina, mas era insuportável”, narrou.
 
Ainda de acordo com a jovem, ela ficou esperando em uma sala sozinha por mais de quatro horas até não aguentar mais de dor. Em determinado momento, ela sentiu um líquido escorrendo pelas pernas e teve que gritar por ajuda e implorar para que a médica a examinasse pelo toque vaginal.
 
“Após insistir muito, ela me deitou em uma maca e fez o exame de toque. Neste momento, tudo começou a ficar pior. Ela somente me disse que eu estava com a bolsa protusa [bolsa parcialmente fora do útero] e que iria me encaminhar para o HC-UFU. Não me explicou mais nada e só me vi dentro de uma ambulância, chegando no hospital e sendo recebida por várias médicas”, detalhou.
 
Chegando ao Hospital de Clínicas, Caroline passou por novos exames de toque e chegou a ouvir de algumas médicas que nada poderia ser feito por suas filhas e que seria melhor gastar o tempo para salvar outras crianças que tinham solução.
 
“Foi um susto porque fui pega de surpresa ao ouvir que minhas filhas iriam morrer e eu não sabia por que isso estava acontecendo. Ninguém me explicou nada e naquele momento eu nem sabia o que era bolsa protusa e o que ela causava”, comentou.
 
Para ela, todos os médicos que a atenderam não tiveram atenção e cuidados para que os procedimentos fossem no mínimo humanizados, além de não receber auxílio de uma assistente social ou psicólogo durante a situação. A jovem ainda foi examinada por diversos alunos da UFU e chegou a escutar risadas e piadas enquanto estava tentando digerir a notícia e lutar contra a dor.
 
“Eu ficava ouvindo em tom de piada que eu era muito nova e que era só eu fazer outro filho. Me disseram que não tinha porque eu chorar e que era exagero. Foi o pior momento da minha vida”, complementou.
 
O parto das gêmeas prematuras aconteceu no dia seguinte por volta das 6h. Caroline disse que não ficou acompanhada por nenhuma enfermeira ou médica durante o processo. “Elas só chegaram no quarto quando eu gritei que estava sentindo a cabeça da minha filha em minhas mãos. Foi quando realizaram o parto normal. Fiquei desassistida em todos os momentos. Não tive amparo nenhum”, relatou.
 
Mesmo assustada com toda a situação, Caroline teve forças para segurar as duas filhas no colo antes delas morrerem. “É a única lembrança que tenho delas. Ainda me sinto perdida, invadida e desrespeitada. Ainda estou tentando entender tudo o que aconteceu e investigando o que poderia ter causado tudo isso. Não existem palavras no mundo que descreva a dor que estou sentindo após perder minhas filhas diante dessa brutalidade médica”, concluiu.

Assista ao relato dela:

 

GESTAÇÃO
Os problemas com a falta de auxílio médico também aconteceram durante as consultas de pré-natal. Caroline relatou que fez todo o acompanhamento na Unidade Básica de Saúde Familiar (UBSF) do bairro Custódio Pereira e, segundo ela, diversas enfermidades que ela tinha durante a gestação não foram tratadas corretamente.
 
A jovem relatou que sofria de trombose pulmonar antes mesmo de engravidar e, ao contar o problema à médica que a acompanhava, a profissional disse que não era nada para se preocupar e até riscou a enfermidade da ficha da paciente. Com o passar dos meses, Caroline começou a sentir dores e ficar extremamente inchada, mas foi aconselhada pela médica a parar de comer besteiras, pois era devido ao excesso de peso.
 
“Eu pedi ajuda da minha doula e ela mesma escreveu uma carta para minha médica pedindo mais atenção no caso porque isso não era normal. Solicitamos uma consulta com uma médica de alto risco e somente na 14ª semana de gestação que descobri que era super importante acompanhar a minha trombose e que já era tarde demais”, contou.
 
Semanas antes de consultar com a médica de alto risco, Caroline também teve alterações nos leucócitos que mostravam uma bactéria na vagina e que não foram investigadas pela médica do pré-natal. “Ela somente me passou um remédio para dor. Após o parto e perda das minhas filhas, fui a outros médicos e eles me disseram que cuidar dessas bactérias também era extremamente importante porque elas podem gerar uma infecção no útero e causar um parto prematuro”, explicou a jovem.
 
Caroline ainda não tem certeza do que pode ter causado o parto repentino e a perda das bebês. Ela aguarda a biópsia da placenta para saber quais foram as causas.
 
“Espero que nenhuma mulher passe por isso que vivenciei. Eu sofri tudo o que uma pessoa poderia sofrer e não desejo isso para ninguém. Muito triste ver que isso pode voltar a se repetir com gestantes que são atendidas na rede municipal”, concluiu.

RESPOSTAS
A direção do Hospital de Clínicas de Uberlândia da Universidade Federal de Uberlândia (HC-UFU) informou que tomou conhecimento do caso pelas redes sociais e já está apurando os fatos.

Por sua vez, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) informou que, durante o pré-natal da paciente, a mesma foi acompanhada pela equipe de saúde e devidamente acolhida com todos os cuidados referentes à condição apresentada de gestante de alto risco, fazendo, inclusive, uso de medicamentos pertinentes ao quadro. 

A resposta do Município diz ainda que, ao dar entrada na UAI Martins, a paciente foi acolhida e atendida por um médico ginecologista/obstetra, que deixou a paciente em observação até que os exames solicitados ficassem prontos. Na reavaliação da paciente, observou-se um possível início de trabalho de parto. Por tratar-se de uma paciente de alto risco, foi solicitado uma vaga de urgência nos dois hospitais que fazem o atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A paciente foi transferida para o Hospital de Clínicas da UFU, que é uma unidade de alta complexidade e onde foi liberada a vaga de imediato.  


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