17/05/2020 às 11h30min - Atualizada em 17/05/2020 às 11h30min

Mortes maternas saltam de 1 para 6 de um ano para outro em Uberlândia

Foram seis óbitos em 2019 e um em 2018; jovens relatam descaso com gestantes na rede pública municipal

BRUNA MERLIN
Hospital e Maternidade Municipal Dr. Odelmo Leão Carneiro é referência para procedimentos de partos | Foto: PMU/Divulgação
O Relatório de Gestão Anual, da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), aponta um aumento significativo no número de mortes maternas no ano passado em Uberlândia. Em contrapartida, o número de internações durante a gestação, parto e período puerperal caiu no município. 

O documento, publicado nos últimos dias revela que seis óbitos maternos foram registrados em 2019. Em 2015, 2016 e 2017 foram duas mortes em cada ano, e em 2018 uma.

Segundo o Comitê Municipal de Vigilância e Prevenção ao Óbito Materno, Fetal e Infantil, os registros de 2019 tratam-se de cinco mortes maternas, ou seja, óbitos de mulheres a partir da constatação da gravidez até 32 dias após o parto ou aborto. A sexta fatalidade está relacionada a uma morte materna tardia, que representa óbitos de mulheres que aconteceram entre 33 e 365 dias após o parto ou aborto.

O médico obstetra e vice-diretor do comitê, Aloisio Gomide, explica que o acréscimo no número de mortes foi uma eventualidade e que não existe um motivo específico que justifica as mesmas. “Não podemos dizer que houve falha nos atendimentos públicos porque são cenários que podem se repetir ao longo dos anos, assim como aconteceu em 2014 onde foram cinco óbitos. Todos os casos foram eventuais e as pacientes apresentavam outros riscos que não estavam relacionados à qualidade do atendimento médico”.

Aloisio ressalta que todas as mortes são investigadas, independente da quantidade registrada em cada ano. De acordo com ele, as análises são feitas desde o atendimento no pré-natal até o pós-parto. Além disso, a saúde e as condições socioculturais da vítima também são apuradas.

“Qualquer morte materna é considerada um evento catastrófico e o índice de mortalidade é um indicador do desenvolvimento social de cada região. Todas as investigações são repassadas para as secretarias de saúde Municipal e Estadual. Elas são extremamente importantes para apontar erros, acertos e o que pode ser melhorado na saúde da mulher”, complementou o médico.


ATENDIMENTO
Durante gestação, Sarah disse que foi mal atendida na UAI Martins | Foto: Arquivo Pessoal

 
Atualmente, o município de Uberlândia tem 70* unidades públicas de saúde disponibilizadas para atendimento de pré-natal, sendo a Unidade de Atendimento Integrado (UAI) do bairro Martins, referência para a saúde da mulher. Contudo, a assistência municipal às gestantes tem sido alvo de reclamações de diversas mães que passaram por dificuldades e momentos de incompreensão e sofrimento durante os atendimentos de pré-natal e os preparativos para o parto.

A Stéfani de Freitas Bitencourt, de 21 anos, conta que teve muitos problemas antes de segurar em seus braços o pequeno Victor que nasceu no dia 26 de abril. Segundo a atendente, ela não teve direito de escolha e precisou ficar mais de 24 horas em trabalho de parto para realizar um parto normal, já que os médicos não queriam liberar a execução da cesárea.

“Meu bebê estava com mais de 4 quilos e sentado, e mesmo assim eles não quiseram realizar a cesárea. Só depois de muito implorar pela cirurgia e quando viram que não tinha mais jeito eles fizeram a cesariana. O Victor precisou ficar sete dias internado no hospital porque teve problemas respiratórios por conta da demora do parto.

Durante a gestação, Stéfani disse que chegou a pedir para sua médica, na Unidade Básica de Saúde Familiar (UBSF) no bairro Jardim Europa, marcar uma cesariana, pois o bebê ainda não estava na posição indicada para o procedimento normal. O pedido foi negado pela profissional.

A jovem também teve outras complicações quando começou a sentir as primeiras contrações e foi para o Hospital e Maternidade Municipal Dr. Odelmo Leão Carneiro. Ela relatou que chegando na unidade, na manhã do dia 25 de abril, passou por toda a triagem e foi orientada a ir para a UAI Martins porque não tinha nenhum encaminhamento de parto. 

“Fui para a UAI com muitas dores e, quando cheguei lá, a médica me mandou voltar para o Hospital Municipal. Fiquei indignada com a situação e tive que explicar que eles não me atenderam porque não tinha nenhum encaminhamento. A solicitação foi sair no período da tarde e tive que ir para o HC-UFU. Foi um descaso comigo porque sofri muito e ainda fiquei sendo mandada para vários lugares”.

Stéfani ficou mais de 24 horas em trabalho de parto até liberação de cesárea | Foto: Arquivo Pessoal

O não direito da escolha do parto também indignou Sarah Moura, de 22 anos. Ela ficou 15 horas em trabalho de parto no Hospital Municipal e, mesmo não tendo dilatação suficiente para o parto normal, foi impedida de realizar a cesariana até o último momento. Sarah ainda teve que aguentar mais um pouco na fila de realização da cirurgia. Após horas de sofrimento, ela conseguiu ver o rostinho da sua filha Júlia.

“Sempre quis a cesárea porque não queria sentir dores por muito tempo, mas todos os médicos fingiram não estar escutando a minha solicitação. Foi o dia mais longo da minha vida e nunca irei esquecer porque não tem nada de normal ficar sentindo dores horríveis durante horas e horas”.

A jovem também relembrou de situações ruins em que foi submetida durante o acompanhamento da gestação na UAI Martins. “Não deixam acompanhante masculino entrar nas salas. Muitas vezes as médicas não examinavam e só perguntavam se estava bem. Quando precisei ficar em observação não recebi auxílio nenhum, fiquei em cadeiras duras, sozinha e tive que ficar indo atrás das enfermeiras. Todas as gestantes reclamam do descaso e do mal atendimento que eles oferecem lá”;


O Diário de Uberlândia procurou a Prefeitura e solicitou posicionamentos sobre todas as situações relatadas pela Stéfani e Sarah. Em nota, a Secretaria de Saúde informou que as unidades de saúde referência para o atendimento das gestantes cumprem a lei 11.108/2005, que garante a presença de um acompanhante durante todo o período de trabalho de parto a fim de oferecer um momento de acolhimento e segurança para as gestantes. “Em relação ao tipo de parto, a secretaria segue as recomendações e protocolos da Organização Mundial da Saúde (OMS), que indica o parto normal como sendo a opção mais segura tanto para a mãe quanto para o bebê. Todas as situações são avaliadas pela equipe médica durante o pré-natal e parto, sendo observados os fatores de risco e a condição clínica de cada gestante para a condução e evolução de um parto seguro.”


INTERNAÇÕES
Indo na direção oposta do aumento de mortes maternas, o número de internações hospitalares relacionadas à gravidez, parto e período puerperal diminui cerca de 3,9% em 2019. A porcentagem é um comparativo entre 2018, quando foram registradas 6.754 internações, contra 6.482 no ano passado.

Para o obstetra Aloisio Gomide, os dados representam um bom indicador. Segundo ele, significa que está tendo menos intercorrências nos pré-natais e pós-partos. “Isso apresenta que a assistência na saúde pública está melhorando, reforçando que as mortes não estão ligadas à qualidade dos atendimentos”, ressaltou.

Por fim, o representante do comitê diz que o ideal é sempre a diminuição dos números de hospitalizações e que esse objetivo deve ser melhorado a cada ano. “A meta é sempre evitar, o máximo possível, a internação em hospitais e aperfeiçoando cada vez mais o atendimento”.



* ERRATA: O Diário errou ao informar que são 64 unidades públicas de saúde em Uberlândia. O texto foi corrigido às 13h52 desta segunda-feira (18).









 

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