30/03/2020 às 09h30min - Atualizada em 30/03/2020 às 09h30min

Cientistas da UFU criam biosensor para diagnóstico de infarto

Dispositivo a base de nanomateriais permite mais rapidez e eficácia do que exames tradicionais

DA REDAÇÃO
Dispositivo ótico para detecção de lesão no coração, causada por infarto | Foto: Arquivo Pessoal

“Não senti dor ou sensação de aperto no peito, nem falta de ar”, descreve Jaime Ferra, professor do ensino básico, sobre o infarto que sofreu em novembro do ano passado. Aos 29 anos, Ferra acredita que, mesmo sem saber, ficou infartado durante dois dias. Após procurar a Unidade de Atendimento Integrada (UAI), vinculada ao Sistema Único de Saúde (SUS), descobriu que tinha uma obstrução arterial. Ele foi submetido a todos os exames e tratamento e permaneceu internado por 20 dias, tendo mais dois infartos durante este período.

De acordo com Rodrigo Penha, médico cardiologista da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), o sintoma típico do infarto é o aperto no peito com irradiação da dor para os membros superiores. Penha explica que há casos assintomáticos, mas é preciso ficar atento aos fatores de risco. “O grupo de risco para infarto agudo do miocárdio são pessoas diabéticas, hipertensas, com colesterol alta, com estresse elevado e sedentárias”, falou.

A Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) registra uma morte por doenças cardiovasculares a cada 90 segundos. De acordo com o monitor Cardiômetro da SBC, as doenças do coração são as principais causas de morte no Brasil, representando mais de 30% dos casos. Um levantamento de 2008 a 2012 feito pelo Sistema de Internações Hospitalares do Ministério da Saúde apontou que o risco de morte por infarto após a internação é de 15,5%, enquanto nos registros internacionais o índice é de 7%.

No final de fevereiro, cientistas da UFU receberam a patente concedida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), por um dispositivo óptico capaz de fazer o diagnóstico de lesões no coração causadas pelo infarto, em um menor tempo e de maneira precisa. O aparelho foi inventado em 2012, durante o mestrado no Instituto de Química da UFU, defendido por Luciano Pereira Rodrigues, professor no Instituto de Engenharia, Ciência e Tecnologia da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM).

A pesquisa foi ainda orientada pelo professor João Marcos Madurro, do Instituto de Química, e co-orientada pela professora Ana Gracci Brito Madurro, do Instituto de Genética e Bioquímica (INGEB) da UFU. O estudo também recebeu investimento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), da Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (FAPEMIG) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

De acordo com Rodrigues, a agilidade do resultado pelo exame com o biosensor vai permitir que seja decidido precocemente qual o melhor tratamento no caso de infarto. “Esse dispositivo poderá ser útil no prognóstico preciso dos pacientes em prontos-socorros e hospitais, reduzindo o risco de mortes por infarto e, consequentemente, contribuir para a redução das taxas de mortalidade que, no Brasil, são altas”.  

Diagnóstico tradicional para infarto
De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), o diagnóstico para infarto tem três vertentes: clínico, eletrocardiográfico e bioquímico, porém, eles podem ser inconclusivos. A responsável técnica pelo laboratório de Análises Clínicas do Hospital Universitário Clemente de Faria (HUCF), da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), Jassiara Macedo, explica que o exame bioquímico mais utilizado atualmente em hospitais é o teste cromatográfico para proteínas. “Para o teste, a gente goteja soro sanguíneo, coletado do paciente, em um gel e o resultado fica pronto em cinco minutos, porém, não é um teste muito específico, podendo levar a um resultado de falso negativo, ou seja, o paciente pode estar tendo um infarto, mas o exame não detecta”, revela. 

Segundo Macedo, outro teste possível é o enzimático, para identificação da enzima creatina quinase chamada CKMB. Ela é uma opção mais específica, pois é ativada no organismo quando há uma lesão no coração. “Esse teste também usa o sangue do paciente e busca identificar as enzimas chamadas CK e CKMB. Porém, o resultado pode demorar até 40 minutos e é necessário ter altas taxas dessas enzimas para indicar o infarto”, evidencia a analista clínica. 

O “padrão ouro”, como Macedo se refere ao exame mais específico para a identificação de lesão cardíaca, seria revelar a presença de proteína Troponina T, parte exclusiva do músculo do coração, que é liberada na corrente sanguínea assim que começa a lesão. Até o momento, o teste imunoenzimático, chamado de ELISA, é capaz de identificar essa proteína específica. A analista clínica ressalta que nesse teste, mesmo a baixa concentração dessa proteína indicaria infarto. “Apesar da eficiência do ELISA, os laboratórios de pronto-socorro não costumam optar por ele, porque o resultado pode levar de quatro a seis horas para ficar pronto”, afirmou.

Nova tecnologia
Os pesquisadores da UFU receberam a patente pela criação de um teste que detecta as proteínas Troponinas T por meio de um sensor. “Sobre uma plataforma de vidro, depositamos um filme polimérico, que imobiliza o anticorpo-troponina. As proteínas Troponina T vão se ligar ao anticorpo; por consequência a Troponina T fica aderida”, explicou Luciano Rodrigues, um dos inventores.


Rodrigues é o principal inventor do dispositivo de detecção de lesão cardíaca | Foto: Arquivo Pessoal

Ainda segundo Rodrigues, para que essa ligação fique visível, eles marcaram um outro anticorpo-troponina com um nanomaterial com propriedades fluorescentes excepcionais, formando uma espécie de sanduíche. “O dispositivo incide um laser azul sobre a amostra, se ela emitir uma luz verde indica tem anticorpo ligado a Troponina T, ou seja, o paciente está com uma lesão causada por infarto, mas se o paciente estiver com outro problema ou saudável nenhuma emissão de luz será observada” explicou. A especificidade elevada não é o único ponto positivo da invenção dos pesquisadores da UFU. Trata-se de um teste sensível como o ELISA e ágil na obtenção do resultado como o teste cromatográfico em gel. “O resultado por meio dessa tecnologia pode ser obtido em até 15 minutos; para isso, ainda é preciso fazer ajustes para otimizar a detecção, assim como trabalhar na portabilidade do dispositivo para disponibilizar à hospitais”, revela Luciano Rodrigues.

Jassiara Macedo, técnica do laboratório de Análises Clínicas, quando soube dessa nova tecnologia que identifica a Troponina T em menos tempo ficou entusiasmada. “Esse dispositivo pode ser utilizado no SUS. Isso seria um avanço relevante, principalmente se considerarmos que 60% dos óbitos acontecem na primeira hora após os sintomas do infarto, a agilidade desse teste pode ajudar na redução desse índice de mortalidade”, ressaltou. Além disso, esse diagnóstico que marca especificamente lesão cardíaca tem potencial para reduzir as chances de reinfarto, de pacientes como Jaime Ferra que teve dois infartos enquanto estava internado no hospital. 

Em termos econômicos, um estudo da Deloitte Access Economics, em parceria com o SBC, publicado em 2018, apontou que as doenças cardíacas demandam custo elevado com tratamento de saúde. Além disso, as pessoas doentes perdem a produtividade no trabalho, sem contar as despesas da assistência social. A Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) aponta que, em termos econômicos, o diagnóstico e tratamento precoce podem reduzir os custos que são significativos à sociedade.  

Você sabe como está a saúde do seu coração?
Segundo Rodrigo Penha, médico cardiologista da UFU, para a boa saúde do coração, as pessoas devem prevenir e controlar os fatores de risco de infarto (diabetes, hipertensão, colesterol alto, estresse elevado e sedentarismo). Além disso, Penha orienta que sejam feitos regularmente exames para checar como está o coração. 
 
A SBC disponibilizou um teste que avalia o risco de infarto. Basta clicar aqui e conferir.

*Texto de Thiago Crepaldi, aluno do curso de Jornalismo da UFU.
 






 

 


 
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