08/03/2020 às 12h16min - Atualizada em 08/03/2020 às 12h16min

Mulheres garantem espaço em profissões de segurança pública em meio a preconceitos

Diário de Uberlândia homenageia militares e agentes que arriscam suas vidas para o bem da sociedade

BRUNA MERLIN
Corpo de Bombeiros de Uberlândia tem 35 mulheres em atuação | Foto: Gilson Carvalho Júnior
O Dia Internacional da Mulher é comemorado anualmente no dia 8 de março. A ideia de uma celebração surgiu após operárias de uma fábrica têxtil serem carbonizadas em um incêndio supostamente intencional como forma de repressão às greves que elas faziam em 1857 na cidade de Nova Iorque. De lá para cá, as mulheres enfrentaram grandes passos para que fossem respeitadas e ouvidas. Mas, mesmo depois de tantos anos, o processo ainda é lento e o preconceito combinado com o machismo continua existindo em todos os cantos do mundo.
 
Em pleno 2020 ainda é comum dizer que as mulheres enfrentam dificuldades e são discriminadas em profissões que até pouco tempo atrás eram ocupadas somente por homens, principalmente na área da segurança. Ver uma mulher trabalhando na linha de frente de combate policial ou dirigindo uma viatura é surpreendente e causa indignação e desconfiança em muitas pessoas. Não é à toa que o efetivo feminino em órgãos de segurança pública é pequeno. 
 
Atualmente, 16.702 agentes penitenciários trabalham no Departamento Penitenciário de Minas Gerais (Depen-MG). Deste total, somente 2.545 são policiais penais do sexo feminino, segundo a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp). Na Polícia Militar (PM), a quantidade de militares femininas que atuam em Minas Gerais é de aproximadamente 10% do efetivo total que chega a quase 38 mil servidores.
 
Na Polícia Civil existem 3.569 mulheres trabalhando em todo o Estado. Em Uberlândia, há 79 policiais do sexo feminino. No Corpo de Bombeiros de Minas Gerais são 541 mulheres ativas no órgão. Já em Uberlândia, somente 35 militares atuam na região. 
 
Cabo do 5º Batalhão de Bombeiros Militar de Uberlândia, Maxlene Oliveira Miclos | Foto: Gilson Carvalho Júnior

A cabo Maxlene Oliveira Miclos de 39 anos faz parte do efetivo feminino do 5º Batalhão de Bombeiros Militar de Uberlândia. Ela, que é casada e mãe de três filhos, atua na área há quase 11 anos e escolheu a profissão pelo desafio de provar que as mulheres podem estar onde quiserem. 
 
“Sou muito realizada na minha vida profissional. É muito gratificante poder salvar uma vida ou um bem, trazendo alívio e conforto a um ser vivo. Ser bombeiro feminino para mim é saber que temos a força que nós mesmas não pensávamos que tínhamos que vai muito além do que sabíamos que éramos capazes”, ressaltou ela.
 
Maxlene, que atuou no salvamento das vítimas na tragédia de Brumadinho no início do ano passado, conta que já sofreu discriminação por ser mulher, mas sempre tentou manter a cabeça erguida. Para ela, é uma luta constante provar que é merecedora assim como outras militares.
 
“Não podemos comparar a força física de um homem com a de uma mulher, mas temos nossas próprias táticas para desenvolver o serviço obtendo o mesmo resultado. As militares demonstram em campo que não há diferenças na atuação dos sexos”, comentou.
 
Desistir da carreira já passou várias vezes pela cabeça dela, mas foi nos braços dos filhos e da mãe que encontrou forças para continuar. “Muitos dias eu chegava em casa chorando por pressões e pensava em largar a profissão. Graças a Deus ganhei o conforto e apoio da minha família para continuar fazendo o que amo”, disse.

Maxlene concilia vida profissional com três filhos | Foto: Gilson Carvalho Júnior

Atualmente, Maxlene está de licença maternidade do terceiro filho que tem três meses de idade. Além do bebê, ela precisa conciliar sua atenção com outras duas filhas de 21 e 16 anos, e o marido. Essa tripla jornada de profissional, mãe e dona de casa mostra a cada dia o quanto as mulheres são capazes de enfrentarem qualquer situação independente da sua profissão.
 
“Nesse dia 8 de Março reforço a importância da igualdade de gênero e de se construir uma sociedade livre de preconceitos e discriminações. Nunca aceite que você não é capaz, sempre corra atrás de seus sonhos”, aconselhou a militar.
 
POLICIAL MILITAR
 
“Os olhares são de surpresa quando há uma mulher trabalhando na função de gestão e liderança durante uma ocorrência. Parece que os moradores não acreditam”, tenente da Polícia Militar de Uberlândia, Luciene Alves Junqueira
 
Luciene Junqueira é responsável por controlar viaturas do 32º Batalhão da Polícia Militar (BPM) | Foto: Arquivo Pessoal
 
Luciene Alves Junqueira, de 33 anos, atua há 11 anos na Polícia Militar (PM) de Uberlândia. Hoje, ela é tenente e está alocada na 200ª Companhia de Tático Móvel da cidade e construiu um grande elo com a profissão, que exige disciplina, ordem e organização.

A policial é responsável por controlar as viaturas de recobrimento na área do 32º Batalhão da Polícia Militar (BPM) e atua em ocorrências de roubo, homicídio, tráfico de drogas e apreensões. Segundo ela, o comportamento das pessoas quando percebem a atuação de uma policial na rua ainda é de surpresa.

“Os olhares são de surpresa quando há uma mulher trabalhando na função de gestão e liderança durante uma ocorrência. Parece que os moradores não acreditam”, explicou a tenente.

Luciene é casada e não tem filhos, mas considera um desafio conciliar a vida profissional com a pessoal. Segundo ela, a responsabilidade de um militar é muito maior do que a dos demais servidores públicos. “Trabalhamos de dia, de noite, de madrugada, feriados, finais de semana e não temos horário para ir embora. Perdemos vários eventos familiares e muitas de nossas ceias de natal são com colegas de farda em um quartel. Mas, fazemos o que amamos e tudo isso vale a pena”, ressaltou.

A tenente contou que nunca sofreu algum tipo de preconceito ou discriminação durante seus anos de profissão, mas ela reconhece que essa realidade não é comum para a maioria das mulheres que se arriscam todo os dias pelo bem maior da sociedade. Ela acredita que o número do efetivo feminino ainda é pequeno devido à falta de reconhecimento e apoio da população com as mulheres.

“Eu exerço uma função mais administrativa então deve ser por isso que nunca me senti discriminada. Entendo que muitas colegas já devem ter passado por essa situação e todas devem ser ouvidas e acolhidas para que isso não aconteça mais”, finalizou Luciene.








 
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