31/03/2019 às 10h30min - Atualizada em 31/03/2019 às 10h30min

Educadores contam como mudanças políticas, sociais e culturais têm afetado o trabalho em Uberlândia

Confira a terceira reportagem da série que conta os pontos de vista dos profissionais da rede municipal de ensino

DANIEL POMPEU
Professor Luziano Macedo dá aulas de história há 18 anos para adolescentes no Ensino Fundamental II em Uberlândia | Foto: Arquivo Pessoal
“A escola não é uma ilha”, diz Luziano Macedo, ao descrever como as mudanças políticas e culturais dos últimos tempos têm afetado seu trabalho como professor. A terceira reportagem da série especial sobre a profissão professor traz as percepções de Luziano e de outros profissionais da rede municipal de ensino de Uberlândia. 

O docente tem 52 anos a há 18 dá aulas de História para adolescentes no Ensino Fundamental II. Na escola municipal Hilda Leão Carneiro, em Uberlândia, ele leciona há quase 15 anos. A graduação e o mestrado foram feitos na UFU.

 

Sobre a rede municipal, Macedo considera o sistema mais simples e direto do que a rede estadual de escolas, onde também teve experiências curtas antes de passar no concurso da prefeitura.

Já para Selma Fernandes, de 56 anos, a docência foi função secundária. Aposentada há dois anos, a pedagoga cumpriu a função de supervisora na escola municipal Universidade da Criança por 25 anos. Depois de um período como secretária em consultórios médicos, adentrou o ambiente escolar e de lá nunca mais cogitou sair. “Eu entrava na escola e meus problemas ficavam de fora, eu só tinha os problemas que era de lá.”

Na sua opinião, quem acaba trabalhando na área, trabalha porque gosta. Considera que, ao longo do tempo, o educador foi desvalorizado, tanto em remuneração quanto em respeito dentro da escola.

 

Durante os últimos anos antes de se aposentar, ela chegou a ser responsável por cerca de 600 estudantes como supervisora. Ela conta que no início sua função era voltada à recepção e monitoramento dos alunos, mas ao longo dos anos adquiriu caráter pedagógico, de garantia de um ambiente saudável para o cultivo da educação.

Realidade diferente é a de Raquel Lopes. A pedagoga de 55 anos trabalha com crianças de quatro meses a três anos na Escola de Educação Infantil (EMEI), do bairro Marta Helena. Lopes está na mesma escola há 15 anos. “Sou apaixonada naquelas crianças. Acho que [educar] é uma forma até de contribuir com nosso futuro”, diz ela.

A educadora acredita que nessa idade, o mais importante é o afeto necessário a lidar com as crianças, além de estimulá-las para as próximas etapas educacionais. “É muito bom a gente presenciar a criança dando seus primeiros passos, comendo sua primeira sopinha”



Foto: A educadora Raquel destaca a importância do afeto nos primeiros anos da educação infantil | Arquivo Pessoal

Alice Monteiro, de 35 anos, é professora na EM Professora Maria Regina Arantes Mendes. A escola é uma das que se localiza na região rural de Uberlândia. Ela é formada em Letras e atua como professora de Inglês no Ensino Fundamental II. Na mesma escola, Monteiro leciona há 6 anos, mas há 10 constrói a carreira como docente. “Sempre pensei em ser professora, desde criança eu tinha essa idealização de admirar meus professores. Achava muito bonito ensinar”, diz. A professora ressalta que, após passar 4 anos dando aulas em escolas de idioma em áreas urbanas, a mudança para o contexto rural foi desafiadora.

Os quatro, em seus devidos contextos e experiências, são profissionais da educação que atuam na rede municipal de ensino de Uberlândia. Eles conversaram com o Diário de Uberlândia para oferecer suas perspectivas sobre a educação. Esta reportagem é a terceira da série que busca retratar a rotina de professores e educadores que atuam no conjunto de escolas da cidade.
 
REDE MUNICIPAL DE ENSINO
Em Uberlândia, são 3.790 professores, entre efetivos e contratados, ministrando aulas na rede municipal. Dentre as escolas públicas, a rede municipal é a que concentra alunos da Educação Infantil e Fundamental. As crianças e adolescentes matriculados na rede somam 53.591. Há também cerca de 1.500 estudantes na modalidade de Educação de Jovens e Adultos (EJA). Os dados são da Prefeitura de Uberlândia e do Ministério da Educação.

Há profundas particularidades em como a educação se organiza no âmbito municipal. Entre as possibilidades de educação pública, as escolas sob tutela da prefeitura são as que têm relacionamento mais direto com a administração de cada unidade. “O sistema é mais simples, mais direto. Quando se trabalha na rede estadual, você está em um sistema que é mais amplo. A relação entre você ter diretores e secretários de educação é mais próxima. O ensino do estado, acho que a relação é um pouco mais complexa, porque você tem vários setores que vão intermediar essa relação”, diz o professor.

Para Selma, que teve experiência como diretora da escola, a proximidade existe e em sua opinião é benéfica. “O estado, por ser uma rede muito mais ampla, maior, mesmo tendo a superintendência aqui, a gente está longe. O municipal é mais próximo.” Ela diz que as reuniões com a administração municipal eram frequentes e o diálogo facilitava a construção coletiva das diretrizes educacionais da escola.
 
DESAFIOS
Todos os educadores ouvidos descrevem o relacionamento com seus alunos como base fundamental da profissão. Há, para os professores que convivem com estudantes do Ensino Fundamental I e II, profundas mudanças em como a juventude atual enxerga a escola e cultiva suas relações com os docentes. Tais transformações criam dificuldades para a construção de uma relação de respeito em sala de aula. Para o professor Macedo, o maior obstáculo é despertar nos alunos a curiosidade que facilita o processo de aprendizagem e sua busca.

“A criança geralmente gosta de ver o novo, elas querem aprender. Só que a gente está sentindo que, enquanto profissionais da educação, não estamos conseguindo ver o brilho nos olhos dos alunos porque eles se vêm, muitas vezes, envolvidos com outras coisas [de fora da sala de aula].”

Considerando essa falta de disposição dos adolescentes, o professor conta que frequentemente utiliza de recursos para além do giz e lousa para tentar despertar em seus alunos a ânsia pelo conhecimento. Uma dessas estratégias é a construção de projetos extra-aula que unem o artesanato e o ensino de história.

O problema descrito por Macedo em sala de aula também era percebido por Fernandes nos corredores da escola enquanto supervisora. Na percepção dela, as dificuldades de se manter um ambiente saudável para o aprendizado vêm de uma desvalorização do educador. A relação com a autoridade dentro da escola sofreu uma transformação, conta ela. “Quando eu entrei tinha uma valorização maior do profissional. O respeito dos alunos em relação ao educador era muito maior do que é hoje, éramos mais valorizados. Trabalhar com relações humanas é muito difícil.”

Ela conta que nos últimos anos sentiu que as responsabilidades colocadas sob os profissionais aumentaram. Se antes, parte da educação era de responsabilidade dos pais, a aposentada conta que recentemente tem sido colocada de forma integral sob a alçada da escola.

"A hora que tinha algum problema na escola o pai ia. Às vezes achavam que estávamos perseguindo o filho.” Fernandes sentia uma pressão desses pais para aceitar o comportamento impróprio de seus filhos na escola. Mesmo assim, ressalta que as situações não eram a regra. Sente hoje grande satisfação por ter feito parte da educação dos jovens. “O mais gratificante é ver os alunos que nós tivemos oportunidade de orientar e ver que hoje eles se tornaram pessoas idôneas e responsáveis.”
 
OUTRO CONTEXTO

Foto: Professora de idioma, Alice viveu o desafio da mudança do contexto urbano para a área rural | Arquivo Pessoal


A educação na zona rural aprofunda ainda mais as particularidades de ser professor em tal contexto. Alice Monteiro, após alguns anos dando aula de inglês em escolas de idioma, passou no concurso da Prefeitura e desde então precisa acordar cedo para pegar uma van que viajará mais de 5km para fora da cidade, onde se localiza a EM Professora Maria Regina Arantes Mendes. Ela conta como no início, entender a realidade daqueles alunos foi o principal obstáculo em sala de aula.

“Uma coisa é você conviver com aquele aluno que está dentro da cidade, que tem os mesmos assuntos, que tem as mesmas informações. Até a linguagem, é uma linguagem totalmente diferente. E para mim especificamente, trabalhar com língua inglesa é um desafio ainda maior. ” Ela desenvolveu estratégias ao longo desses seis anos na mesma escola para convencer os estudantes de que a aprendizagem do inglês pode ser muito importante também em seu contexto rural.

Além das diferentes concepções de mundo, os alunos também conviviam, em maior grau, com a falta de tecnologia e acesso à informação quando comparados com adolescentes de áreas urbanas. Quando começou a lecionar na escola, há 6 anos, Monteiro conta que a internet ainda não fazia parte da realidade dos alunos ou da escola. A falta de recursos também dificultava seu trabalho para despertar o interesse nos alunos em aprender inglês. A carência não era apenas de recursos. De acordo com a professora, para muitos dos adolescentes, o único contato social com colegas de sua idade costumava ser feito no ambiente escolar.

A situação se complica quando consideradas as dificuldades relacionadas ao transporte escolar. “Têm meninos que moram em fazendas muito distantes. E a estrada nem sempre tem as condições adequadas. Por exemplo, na época de chuva as estradas pioram muito. Já teve situação da van quebrar e os alunos não irem para escola”.

Atolamentos e dificuldades de acessar algumas fazendas já fazem parte da rotina dos alunos, conta a professora. Em meados de março, pais de estudantes da zona rural realizaram protestos e chegaram a ocupar o plenário da Câmara Municipal de Uberlândia devido a uma mudança nos veículos que transportam os alunos. A Prefeitura contratou ônibus para fazer o transporte das crianças até que outras vans fossem disponibilizadas. De acordo com os pais, veículos maiores como os ônibus dificultam ainda mais o acesso e transporte dos estudantes na zona rural.

Assim como os outros professores, Monteiro descreve a questão das relações humanas dentro da escola como o aspecto mais complicado do dia a dia do professor. “Não é fácil, em questão de comportamento, realmente é muito difícil. Eu fui criada em um bairro periférico também, mas os meninos ali... têm muitos que têm contato com drogas, com a marginalidade. ” A professora diz que para conseguir o respeito dos alunos, tenta se colocar de igual para igual e construir suas aulas a partir do entendimento do contexto dos adolescentes. Ela conta que, aos poucos, tem tido sucesso na empreitada.
 
PISO SALARIAL
O piso salarial para educadores infantis da rede municipal, como é o caso de Lopes, é de R$ 1.696,71. O valor cresce para R$ R$ 1.909,35 no caso de professores do Ensino Fundamental I e II. A remuneração apontada se refere a professores que tenham apenas graduação. A progressão de carreira dos docentes do município acontece de acordo com o tempo de serviço e qualificação acadêmica. Um educador infantil com mestrado pode chegar a ganhar R$ 3.962,35 e um professor do Ensino Fundamental com doutorado R$ 5.350,71. A remuneração mensal citada se refere à jornada de trabalho de 20h semanais, padrão regulamentado na cidade para professores da rede.

Para Edeilson Pereira, presidente do Sindicato dos Professores Municipais de Uberlândia (Sinpmu), os ganhos são insuficientes para a categoria. “Pelo valor que se paga, hoje, por um cargo, ele acaba se sentindo obrigado a procurar uma somatória nos seus ganhos.” Pereira observa que o principal problema está na progressão de carreira, em que o crescimento na remuneração não acompanha devidamente a qualificação e experiência do professor. “Pra quem investiu na carreira, tem um diploma superior nas mãos, é um valor muito baixo.”

Pereira, que também é professor há 20 anos, entende que os desafios com que o professor convive deveriam gerar uma remuneração mais significativa, principalmente com relação à atenção aos alunos. “Você tem alunos que fazem usos de tóxicos. Às vezes eles chegam na sala de aula em uma situação totalmente imprópria para estar naquele ambiente”, diz o professor, ressaltando, porém, de se tratar de questão localizada.

Para Alice Monteiro, o professor deveria ganhar muito mais do que ganha. No caso dela, existe um adicional por ser uma escola da zona rural, mas ainda assim considera o valor insuficiente. “Dentre os trabalhadores com curso superior, a gente recebe uma das menores remunerações. ” De acordo com Monteiro, o professor tem um trabalho externo à sala de aula muito grande, se referindo à capacitação, preparação de aulas e provas. A professora conta que em muitas situações, já comprou livros e materiais para atividades com as quais a escola não tinha condições de arcar.

“A desvalorização não foi só na escola, mas também financeira. Hoje a remuneração, tanto na área do professor como do supervisor caiu muito”, declara Fernandes. Ela conta que muitos dos colegas trabalhavam em outras escolas para complementar a renda e sustentar a família. Raquel Lopes, educadora infantil, também acredita que o salário é insuficiente para as despesas e não condiz com a realidade do trabalho. “Acho que a remuneração poderia ser melhor. A educação em si é desvalorizada”, defende.

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