18/03/2019 às 15h12min - Atualizada em 18/03/2019 às 15h12min

Professoras do Estado contam como é a realidade do trabalho nas escolas de Uberlândia e região

Através de uma série especial feita pelo Diário de Uberlândia, profissionais do ensino irão relatar os desafios e o amor pela profissão

FERNANDA PARANHOS
“Eu costumo dizer que eu não estou professora, eu sou professora, com muito orgulho”. A afirmação é da professora de história e vice-diretora Nuccia Alves, que trabalha na Escola Estadual Antônio Luís Bastos, em Uberlândia. Através de uma série especial, o Diário de Uberlândia te convida a conhecer a realidade dos professores do Estado.
 
A graduação em humanas e a licenciatura não eram um sonho de infância. A menina Nuccia, nascida em Ibiá (MG), sonhava em cursar Direito, mas acabou parando na sala de aula. Um caminho sem volta. Foi entre o giz, o quadro e os alunos que ela se encontrou.
 
“Eu tinha medo de entrar em uma sala de aula. Acho que todo mundo tem isso quando se forma. O que destravou esse medo foi a necessidade e hoje eu não tenho problema nenhum mais”, contou ela.
 
A investida no ensino público surgiu depois do trabalho em uma multinacional. Em seguida, veio a decisão de fazer um concurso no Estado. Deu certo. O objetivo foi a estabilidade que ela ainda diz ser um dos pontos principais para continuar na escola.


Professora de História e vice-diretora Nuccia Alves | Foto: Arquivo Pessoal 

Trajetória diferente teve a professora Leda Regina Morais, a começar pela área que é Matemática. Transitar em meio aos números, sim, era um plano de vida, apesar do objetivo principal ser a formação em Engenharia.
 
Mas Leda foi aprovada no vestibular da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), se formou, fez três pós-graduações e logo em seguida começou a trabalhar em uma escola particular. Quase uma década na iniciativa privada até ir para o Estado, onde está há 10 anos.
 
São dois cargos, dezenas de aulas e a certeza de que faz isso por pura paixão. “Eu brinco com meus alunos que eles nunca me viram e nunca vão me ver chegar na aula triste. Pois é porque eu amo. Têm muitos problemas, mas eu amo”, disse a professora.

PROFESSORES NO ESTADO
Há muitas Nuccias e Ledas em Uberlândia, em Minas Gerais e no país todo. Professoras e professores estaduais, apaixonados, dedicados e cientes de sua profissão.
 
Segundo a Secretaria de Estado de Educação (SEE), há 230 mil servidores, sendo 88.842 efetivos da rede estadual. Só em Uberlândia são 2.429 professores, de acordo com o último Censo Escolar, de 2018.
 
Geralmente, o professor contratado pelo Estado trabalha por cargos, sendo que um cargo corresponde à carga horária de 16 horas/aula, além de mais 4h presenciais exigidas para elaboração de atividades. A SEE informou que os salários vão de R$ 1.982,54, acrescido de um abono de R$ 153,10 totalizando R$ 2.135,64, para uma carga horária de 24 horas semanais. O teto máximo é de R$ 4.101,35. Isso leva em consideração benefícios acumulados ao longo da carreira, novas formações e tipos de contrato (se é efetivo ou não).
 
O fato é que, segundo o profissional que está em sala da aula, manter uma vida dedicada exclusivamente a um cargo na rede pública é quase impossível. “É muito difícil alguém trabalhar só com isso. Sempre tem gente procurando outros trabalhos, outros cargos, mais aulas para complementar renda”, afirma Leda Morais, que é efetivada na Escola Estadual René Gianetti e cumpre um contrato em outra escola pública.
 
A professora Nuccia, por exemplo, desde o início de 2019, é vice-diretora no período vespertino na escola onde ministra aulas. Ela também confirma que buscou este segundo cargo para melhorar a renda.
 
“Eu já falei para o meu marido que eu quero sair, ir trabalhar em outra área. Ele ri e diz que eu não dou conta. Não dou mesmo. Eu não largo isso aqui. Eu amo meus alunos”, diz Nuccia que complementou dizendo que vai tentar assumir a diretoria da escola.
 
DESAFIOS
Para o professor estadual há uma realidade um pouco diferente do profissional privado. O número de alunos em sala que varia de 30 a 50, estrutura e salário são pontos destacados.
 
“Em escolas particulares a diferença está, primeiro, no foco do aluno, a família é mais participativa, nos recursos pedagógicos que podemos usar, projetor, sala de vídeo, nós temos, mas não é igual. Na escola onde eu trabalho são 29 salas de aula só no período da manhã e duas salas de vídeo. A gente tem que brigar para dar uma aula diferente, agendar com antecedência”, relata Leda.
 
A acomodação também pode ser um ponto negativo do profissional da área, de acordo com a professora Nuccia que diz ver muitos colegas demasiadamente seguros do cargo efetivo sem se reinventarem. “Daí vêm os problemas, falta de atenção dos alunos, de disciplina. Você pode passar na porta da minha sala que você vai ver todo mundo atento. Eu tento inovar de todas as formas”, conta.


"Eu brinco com meus alunos que eles nunca vão me ver chegar na aula triste", diz Leda | Foto: Arquivo Pessoal

Ser o “amado mestre” de jovens inseridos num contexto de tecnologia e modernidade faz com que a profissão seja ainda mais desafiante. Imagine encarar isso numa aula onde a matéria é maciçamente teórica. Na aula de História é assim, o desafio pleno, enfrentado ao pé da letra.
 
“Para o professor do Estado é só o giz e o quadro, a gente se vira”, diz Nuccia. “Celular, redes sociais são os maiores concorrentes. Já peguei aluno com fone, mexendo no celular no meio da explicação. A gente pede para fazer isso depois. É difícil, por isso, eu procuro sempre chamar atenção deles”.
 
Apesar do amor pela profissão, trabalho é trabalho e precisa ser remunerado. Outro desafio na lista. Leda conta sobre o desconforto que sente em não ter a segurança de ver o salário depositado em conta, integralmente, no início do mês.
 
“Agora com a mudança do governo e dos atrasos o salário vem parcelado. Recebi no dia 13 e devo receber no dia 25 deste mês o valor referente a janeiro. Além do 13° que será dividido em 11 vezes. Eu já recebi um pouco, não sei quanto virá no mês que vem. Complicado”, explicou ela.
 
A colega Nuccia confirma e complementa destacando o temor da categoria de que o Estado, no geral, passa implantar a ideia de que professor tem de ser doutrinador. Algo que faz com que toda a paixão seja abalada. Mas ela segue firme e forte. Tanto que o resultado está no fruto colhido: a recepção dos alunos.
 
A professora apaixonada, mas ciente do mundo onde vive, da estrada em que pisa, encontra alunos e alunas que, vira e mexe dizem que ela é a melhor de todas, que inspira e que por isso, querem ser professores também. Emocionada, Nuccia mostra a foto da aluna que, no final do último ano letivo, escreveu uma cartinha colada com uma foto onde as duas estão abraçadas.
 
 "Como eu vou dizer para essa menina não ser professora, que não vale a pena! Eu apresento os dois lados. A escolha é dela. Eu amo meus ‘pequerruchos’”, finalizou.
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