27/07/2018 às 19h04min - Atualizada em 28/07/2018 às 08h04min

“Os partidos políticos mais relevantes perderam a legitimidade e o Brasil”

Rafael Cortez fala do cenário nacional em ano de eleições

MARIELY DALMÔNICA | REPÓRTER
Rafael Cortez participou do 1º Fórum Soja Brasil em Uberlândia (Evaldo Pighini/Divulgação)
O doutor em Ciência Política, professor universitário da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) e analista da Tendências Consultoria Integrada, Rafael Cortez, participou do 1º Fórum Soja Brasil, nesta semana, em Uberlândia. O evento reuniu produtores de toda região e contou com a presença de outros estudiosos do mercado e da agropecuária no País.  Durante o evento, o especialista em instituições brasileiras, política comparada e economia política debateu sobre as influências do eleitoral na realidade brasileira. Em entrevista ao Diário de Uberlândia, Cortez disse que o setor da soja é um dos mais produtivos do País, e o agronegócio pode ser facilmente impactado sobre as variáveis do pleito. 

Diário de Uberlândia: O que esperar da política e da economia em um ano eleitoral? 
Rafael Cortez: Primeiro, essas duas questões estão muito ligadas, sobretudo depois da crise política, os atores econômicos estão muito receosos com o possível resultado da eleição. Certamente, é um semestre turbulento. Essa incerteza política afeta negativamente os investimentos, os agentes ficam receosos e preferem aguardar o resultado da eleição para tomar decisões importantes. O outro efeito relevante é na taxa de câmbio, é aquele preço que responde mais rápidos as incertezas vindas da política. Então, para quem tem um negócio, a tendência é de bastante variação ao longo do segundo semestre. Para a política a gente deve esperar uma eleição bastante competitiva, a eleição mais incerta desde 89, por conta da combinação da crise política, de investigações judiciais, tudo gerou no eleitor um sentimento contrário aos partidos políticos. A eleição será marcada por diferentes candidatos com diferentes programas. 

Por que parte da população se mostra desinteressada com a política?
Por conta da decepção, há um problema sistêmico de corrupção. O cidadão comum não consegue identificar diferenças entre os diferentes partidos por conta dessa onda de escândalos de corrupção, ele não sente que seu voto influencia as decisões do governo, e gera um sentimento de decepção que está expresso em números, grande parte dos eleitores escolhem branco ou nulo na hora de votar. A tendência é que seja um patamar mais alto que níveis históricos. 

Como o agronegócio reflete na econômica?
É o setor mais preparado para enfrentar desdobramentos do mundo da política. Como a taxa de câmbio é sempre importante, o agronegócio tem que esperar uma variação muito grande dessa taxa de câmbio. Ele é o setor mais produtivo da economia brasileira e é cada vez mais amplo. Ele mostra a relevância de aumentar a produtividade de um Brasil que vai crescer, mostra a importância de ter boas conexões com o mercado internacional. 

Qual seria um perfil ideal de presidente? 
A crise política mostrou que o presidencialismo brasileiro funciona quando existe uma liderança política forte. O País enfrenta um quadro de polarização política que precisa ser resolvido se a gente quiser voltar a um cenário de normalidade. Precisamos, portanto, de um presidente que retome ao papel com uma liderança capaz de conversar com diferentes setores, para que as próximas decisões sejam mais eficientes e que o País se volte menos para a competição e conflito político, e mais para questões que vão impactar de fato a política e a economia brasileira. Os atores políticos deveriam se preocupar com problemas que exigem decisões tomadas de maneira racional. 

Ainda não sabemos quais serão os candidatos à Presidência da República, isso é um problema?
Sim. Isso mostra a crise do sistema partidário brasileiro. Os partidos políticos mais relevantes perderam a legitimidade e o Brasil precisa construir instituições fortes para enfrentar esses desafios. Na medida em que a sociedade não sabe com antecedência quem vão ser os candidatos, dificulta que ela tenha um entendimento da proposta. É mais um motivo que a eleição de 2018 é extremamente importante para recuperar essa legitimidade política. Mas a participação política da sociedade é fundamental, é um dos benefícios da democracia. 

Até que ponto as fake news podem interferir nas eleições de 2018? 
As fakes news são realmente um perigo para a democracia, não só pensando nas eleições de 2018, é um problema que afeta os sistemas democráticos na era do protagonismo das redes sociais, que é um tipo de rede marcada por muita informação e dificuldade de monitorar o que é verdadeiro e o que não é. Não é um problema exclusivo do País, estamos tratando da informação que vai permitir que o eleitor avalie o comportamento da classe política, se ele não tem uma boa informação, acaba não fazendo uma boa avaliação e portanto dificulta a construção de bases. 
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