30/08/2017 às 05h26min - Atualizada em 30/08/2017 às 05h26min

Uberlândia pode fica fora do consórcio regional do Samu

Prefeitura não repassa recursos ao consórcio desde o ano passado

WALACE TORRES | COLUNISTA

Uberlândia pode ser o único dos 27 municípios que integram o Consórcio Intermunicipal de Saúde do Triângulo Norte (Cistri) a não fazer parte do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), que deve entrar em funcionamento até o fim do ano. Apesar de não ter oficializado nem ao Governo do Estado e nem ao Cistri sua saída do consórcio, a Prefeitura de Uberlândia já se manifestou informalmente a prefeitos da região que não tem intenção de manter o convênio para participar do Samu. A principal demonstração da falta de sintonia com o projeto está no rompimento do repasse de recursos. Desde o ano passado, a prefeitura não faz o repasse mensal per capta de R$ 0,20 por habitante que cada município integrante do consórcio se comprometeu ainda durante a fase de implementação do serviço e que irá ajudar no custeio do Samu. O convênio para a implantação do Samu no Triângulo Norte foi firmado em dezembro de 2015, pelo ex-prefeito Gilmar Machado, que também liderou a formação do consórcio durante o tempo em que presidiu a Associação dos Municípios da Microrregião do Vale do Paranaíba (Amvap).

A falta de entendimento da Prefeitura de Uberlândia foi um dos destaques tratados em reunião ontem pela manhã no auditório da Associação Comercial e Industrial de Uberlândia (Aciub) com prefeitos e secretários municipais de saúde da região e que teve participação de representantes do Governo do Estado e da União. Prefeitos e secretários voltaram a cobrar um posicionamento do Município de Uberlândia, na expectativa de que a adesão seja mantida. “Com Uberlândia ou sem Uberlândia vamos tocar o Samu. Já conversamos com o prefeito Odelmo Leão e voltaremos a falar novamente. Uberlândia não pode travar um projeto tão importante como esse”, disse o prefeito de Monte Alegre de Minas e presidente do Cistri, Último Bitencourt de Freitas, em entrevista ao Diário do Comércio. Ele confirmou que a atual gestão municipal de Uberlândia não fez nenhum repasse ao consórcio, mesmo ainda mantendo o convênio. “O prefeito Odelmo é uma liderança política da região e não pode pensar só na cidade de Uberlândia. Esse é um projeto regional”, completou Último. A intenção, segundo o prefeito de Monte Alegre, é que o Samu comece a operar em definitivo até novembro deste ano.

O secretário municipal de Saúde, Gladstone Rodrigues, chegou a comparecer na Aciub ontem pela manhã, mas saiu antes do início da reunião, que começou com praticamente uma hora de atraso. Uma assessora da Secretaria de Saúde permaneceu na reunião e representou o município, mas não se manifestou.

O subsecretário de Assuntos Municipais da Secretaria de Estado de Governo, Marco Antônio Viana Leite, disse que trabalha para que o serviço tenha a adesão de todos os prefeitos que integram o Cistri, “especialmente Uberlândia”. “Uberlândia é estratégico para nós. A nossa ideia é fazer um acordo para que eles também possam aderir”, disse Marco Antônio, afirmando ainda que terá uma conversa diretamente com o prefeito Odelmo Leão para tratar da questão. Ainda não há data para a conversa. “Não podemos obrigar Uberlândia a aderir. Eles que têm que tomar a decisão, mas é importante que o município participe”, frisou.

Segundo o subsecretário de Assuntos Municipais, o Estado já repassou mais de R$ 10 milhões ao consórcio para a implantação do Samu do Triângulo Norte, o que inclui as 31 ambulâncias. Ele informou ainda que não tem conhecimento oficialmente sobre os argumentos do Município para não aderir ao serviço, mas espera que a situação seja superada. Questionado de que o Município de Uberlândia estaria cobrando a regularidade nos repasses do Estado, conforme o próprio prefeito Odelmo Leão já ressaltou em redes sociais e entrevistas na mídia local, o subsecretário disse que uma coisa não inviabiliza a outra. “São coisas distintas”, disse.

 

PARCERIA

Bombeiros estão sobrecarregados

A implantação do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência na região irá ajudar na divisão de tarefas com o Corpo de Bombeiros, que hoje está sobrecarregado. “Isso é um fato. Hoje, uma cidade do porte de Uberlândia deveria ter oito USB (unidade de suporte básico) e duas USA (unidade de suporte avançado). Mas estamos com quatro unidades de resgate durante o dia e três para atender à noite. O Samu vai somar com o Corpo de Bombeiros no atendimento à população”, disse o comandante do 5º Batalhão de Bombeiros Militar, tenente coronel André Humia Casarim. “Só nós bombeiros que estamos atuando no atendimento hospitalar, e temos várias outras missões, como salvamento aquático, salvamento terrestre, combates e prevenções a incêndios, além dos atendimentos na área civil, como vistorias e análises”, disse.

Nos municípios onde há unidade dos Bombeiros, o Samu irá funcionar no mesmo imóvel, tendo uma atuação integrada. Ainda segundo o comandante do 5º BBM, hoje há muitas demandas reprimidas, especialmente em relação a queimadas em lotes vagos. “Se você tem uma demanda de atendimento pré-hospitalar, com uma pessoa acidentada, você vai deixar de atender ela para atender um fogo no mato? Não. O incêndio vai aguardar até que a gente possa fazer o atendimento correto”.

Ao todo, o Samu terá 22 bases descentralizadas em 17 municípios, sendo cinco delas em Uberlândia. Além de Uberlândia, os municípios de Araguari, Ituiutaba, Monte Carmelo e Patrocínio também já têm unidades de saúde de referência para receber pacientes, dependendo do tipo de situação. A alta complexidade será atendida no Hospital de Clínicas da UFU. “Estamos em fase final de discussão para fazer adequação da rota de atendimento de urgência. Sabemos que tem recursos extras para ajudar nesse atendimento, mas o mais primordial é que nós estamos organizando o atendimento de urgência da nossa região”, disse o prefeito de Monte Carmelo e vice-presidente do Cistri, Saulo Faleiros.

Saulo Faleiros e o prefeito de Monte Alegre de Minas são do mesmo grupo político do prefeito de Uberlândia, e já estiveram com Odelmo Leão na tentativa de um entendimento para manter o município no consórcio intermunicipal de saúde. “Ele [Odelmo] disse que tem obrigações que não estão sendo correspondidas de repasses financeiros e que não pode arcar com a nova responsabilidade sem que essa questão seja resolvida. Não discordamos do pensamento dele (...). Vamos procurar resolver essa questão que é importante para região e também para Uberlândia”, disse Faleiros.

 

PREFEITURA

Em nota, a Prefeitura de Uberlândia informou que só neste ano o Governo do Estado deixou de repassar mais de R$ 50 milhões para a cidade para subsidiar atendimentos na área da saúde. “Sem a garantia destes e de outros recursos que são de responsabilidade do governo estadual, torna-se inviável a implantação do sistema para atendimento dos cidadãos de Uberlândia e dos 26 municípios que compõem o Consórcio Público Intermunicipal de Saúde (Cistri)”.

A atual administração municipal reafirmou também que “não assumiu nenhum compromisso na implantação do Samu”, que o Estado não tem repassado verbas para o custeio das operações, que o Hospital de Clínicas ainda não foi notificado oficialmente da necessidade de leitos extras para acolhimento dos pacientes que deverão ser atendidos pelo serviço móvel e que o município não dispõe de quantidade suficiente de leitos para a implantação do Samu.

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