09/04/2026 às 08h00min - Atualizada em 09/04/2026 às 08h00min

Saber Ouvir

IVONE ASSIS

A fábula “O galo e a raposa”, atribuída a Esopo, cerca de 550 a.C., na Grécia Antiga, é uma narrativa intrigante que nos convida à reflexão profunda. Ao lê-la, os mais acomodados podem até pensar que estou no ápice do exagero, ao contrário dos críticos, que logo verão a mensagem filosófica nas entrelinhas.

Há, na fábula atribuída a Esopo, uma simplicidade aparente, dessas que Antonio Candido reconheceria como forma de condensação da experiência humana. O Galo, empoleirado na altura da azinheira, não se limita ao animal que canta para nos despertar na madrugada. Ele está muito mais para uma consciência em vigília. A Raposa, por sua vez, troca a fome predatória pela astúcia do discurso; e é nesse ponto que a leitura se abre, sob o olhar quase onírico de Gaston Bachelard, para uma poética das alturas e das ciladas.

A fábula traz ainda a árvore elevada, que vai além do cenário da floresta: é um estado da alma. Tem-se nela uma analogia entre anábase e catábase. Estar no alto em “O galo e a raposa” é instaurar uma distância crítica em relação ao mundo adjacente: um espaço onde o pensamento primeiro respira e depois cede ao impulso. A Raposa, criatura da terra, traiçoeira e insinuante, propõe o inverso: a descida. E toda descida, diria Bachelard, implica um risco de dissolução, uma entrega à matéria indistinta onde a clareza se perde.

Outro ponto a observar está no jogo das interpretações. Quando a Raposa anuncia uma falsa paz universal, ela mobiliza aquilo que hoje chamaríamos, à luz de Aaron Beck, de distorção cognitiva: uma tentativa de impor ao outro uma leitura conveniente da realidade. A proclama inexistente é menos uma mentira factual do que uma armadilha interpretativa. A Raposa convida o Galo a substituir sua percepção concreta — o perigo iminente — por uma crença abstrata e reconfortante.

O Galo, contudo, surpreende: ele não reage com negação direta, mas com um teste. Ao mencionar a aproximação dos cães, introduz uma variável que desestabiliza o discurso da Raposa. É, em termos contemporâneos, um sinal de inteligência emocional: ele questiona, ainda que ironicamente, a coerência da narrativa apresentada. Sua resposta ressoa o método socrático sugerido pela terapia cognitivo-comportamental (TCC): “Se há paz, por que temer os cães?”. A Raposa, incapaz de sustentar a própria ficção, foge, apavorada.

Assim sendo, a fábula aborda tanto a prudência diante do inimigo externo quanto a vigilância diante das próprias interpretações. Quantas vezes, no cotidiano, não somos também interpelados por “raposas” discursivas — notícias, promessas, discursos políticos ou afetivos — que nos convidam a descer de nossa posição crítica em nome de uma harmonia ilusória? E quantas vezes aceitamos, por cansaço ou desejo, essas narrativas sem submetê-las ao crivo da experiência?

A modernidade, com sua avalanche de informações, parece intensificar esse dilema. As distorções cognitivas descritas por Beck, como generalizações, leituras mentais, catastrofizações encontram, no ambiente social, um terreno fértil. A Raposa não desapareceu, e sim disseminou-se. O Galo, por sua vez, necessita de uma disciplina interior, uma espécie de “torre psíquica”, onde possa examinar os próprios pensamentos antes de agir.

Talvez seja nesse ponto que a antiga fábula se encontra com a psicologia contemporânea: ambas insistem na mediação entre estímulo e resposta. Não é o que nos é dito que nos determina, mas a forma como interpretamos aquilo que ouvimos. E interpretar, aqui, é um ato ético. Descer da árvore sem reflexão é abdicar da própria consciência; permanecer nela, contudo, em vez de isolamento, pode ser escolha deliberada de lucidez.

No fim, a moral “é preciso viver sempre prevenido” ganha uma espessura inesperada: migra da paranoia para o discernimento. O Galo não deixa de cantar; porém aprende a escutar melhor. E talvez seja essa a maior lição de Esopo: num mundo enviesado de palavras e intenções, a sabedoria não está em evitar o diálogo, mas em não se deixar seduzir por ele. Está em saber ouvir.

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

 

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