19/03/2026 às 08h00min - Atualizada em 19/03/2026 às 08h00min

O poço que cavou

IVONE ASSIS

O ser humano tende a se vitimizar e cobiçar a conquista alheia. É comum ver pessoas, dotadas de comodismo, lamentarem a própria condição. Elas atribuem ao outro uma sorte que não compreendem, mas se negam a enxergar o esforço alheio. Mas a diferença entre as realidades, geralmente, reside no esforço e na capacidade de reconhecer o valor do que se vive.

Há narrativas que atravessam os séculos em estado de latência, aguardando que a experiência humana se torne suficientemente tensa para que suas imagens, que sempre estiveram ali, venham à luz. “A Senhora Holle” se inscreve nesse território. O conto exibe uma dinâmica da vida psíquica e social na qual o destino se articula com a disposição interna de cada sujeito.

A queda da jovem no poço vai além de um acidente; inaugura uma transformação, uma passagem. No conceito junguiano, o poço configura o acesso ao inconsciente, espaço em que as imagens escapam à lógica ordinária e exigem uma escuta que vai além do raciocínio comum. Ao encontrar o forno e a macieira, a jovem se depara com conteúdos que pedem resposta. Ela age com determinação, ética e empatia, trazendo uma abertura ao simbólico. Há, nesse movimento, um alinhamento entre interioridade e realidade. Desse modo, o trabalho deixa de ser obrigação e se torna participação, capaz de gerar prazer.

Esse processo revela uma estrutura psíquica voltada à transformação. Jung descreve a individuação como um percurso que implica confronto com dimensões desconhecidas do próprio ser. A jovem não recua diante do estranho, pelo contrário, ela enfrenta a realidade com determinação, sustentando a exigência. Ao servir Senhora Holle, insere-se em uma lógica de nível mais elevado. Sacudir o colchão produz neve, simbolicamente, a realidade responde àquele que se compromete com ela. O ouro que a reveste vai além do limiar da recompensa, expressa uma inscrição simbólica da experiência vivida.

A segunda jovem repete o gesto, porém, sem atravessamento. Ou seja, ao saltar em busca da recompensa pelo ato que nem realizou ainda, sua descida é sem compromisso. O encontro com o forno e a árvore, em vez de vínculo, desperta a recusa. No campo lacaniano, essa recusa se inscreve no registro imaginário, em que o sujeito se orienta pela imagem do ganho e pela expectativa de reconhecimento. Não há escuta do desejo, há submissão a uma cena antecipada. O ouro ali não passa de um signo vazio, destituído de experiência.

O piche que a recobre impede a circulação, fixando o corpo em uma densidade inexpressiva. Lacan chama de gozo aquilo que excede o simbólico e não se transforma em sentido. O piche mostra esse excesso. Presa a ele, a jovem não aprende e busca a recompensa imediata.

Essa estrutura ressoa na vida coletiva. Há sujeitos que sustentam um compromisso com o real, mesmo sob pressão, pois estabeleceram uma relação com o próprio desejo. Não se trata de pureza moral, trata-se de coerência interna. Outros se mantêm na superfície, orientados por expectativas externas, reproduzindo gestos voltados ao retorno imediato. A diferença se inscreve na forma como cada um vivencia a experiência.

O conto delineia uma crítica que ultrapassa o indivíduo e alcança a cultura. A madrasta, vislumbrando o ouro e ignorando o percurso, repete a cena sem sabedoria, como muitos o fazem. Esse movimento é comum em estruturas sociais que primam pela aparência e a recompensa, não considerando a dimensão formativa da experiência.

A narrativa toca um ponto estrutural, evidenciando que a transformação não se realiza por imitação. Ela exige implicação, escuta e permanência diante do que desestabiliza. O ouro não representa um prêmio externo, e sim, figura a inscrição de uma experiência vivida. Já o piche não pune, mas expõe a ausência de elaboração estrutural.

O galo, ao anunciar o retorno de ambas, expõe o que cada uma se tornou. Nesse instante, o conto abandona qualquer disfarce moralizante e apresenta sua verdade mais incisiva: a vida devolve que se oferece. Portanto, cada qual, espelho de si, encontra o poço que cavou.

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

 

 

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