01/01/2026 às 08h00min - Atualizada em 01/01/2026 às 08h00min

Colaçãozinho de manteiga

IVONE ASSIS

Qual criança nunca duelou com o sono para ver o ano novo chegar, mas ludibriada pelo tic-tac do relógio acabou por se entregar aos braços do adormecer?

O conto “Maneira de Olhar”, de Carlos Drummond de Andrade, publicado em 1958, apresenta o ponto de vista infantil do protagonista, que sonha em ver a passagem do tempo. Para tanto, o menino decide que permanecerá acordado para testemunhar o fato. Gostaria de ter suas próprias impressões, haja vista ninguém explicasse com clareza como o Ano-Novo passava. Os adultos dão explicações contraditórias, os outros garotos, nem adianta interrogar, pois “cada qual diz mais bobagem que o outro; aprendem a mentir com os grandes”.

Cheio de respostas fantasiosas ou evasivas que sempre recebe sobre o caso, o personagem duvida até mesmo do risinho maroto da mãe, que insiste para que ele fale sempre a verdade. O contista apresenta uma reflexão sofisticada sobre percepção, linguagem, verdade e perda gradual da sensibilidade diante do mundo.

A consciência da criança é tão viva que permite ao leitor experimentar suas dúvidas, angústias e expectativas. A imaginação infantil desenha a realidade: o menino acredita que o ano “passa” de fato, como um ser ou objeto visível e quase material, capaz de ser observado no céu.

Essa concepção literal contrasta com o comportamento adulto, que trata o tempo como abstração ou o reveste de metáforas inconsistentes. A multiplicidade de versões, a faixa de luz com anjos, o paraquedas do Ano-Novo, o balão murcho do Ano-Velho, evidenciam a incapacidade dos adultos em comunicar experiências complexas à criança sem recorrer ao artifício ou à mentira.

A célebre afirmação “Depende da maneira de olhar”, que o conto traz, sintetiza o conflito central do texto: a percepção da realidade não é objetiva nem uniforme, mas mediada pela sensibilidade, pela atenção e pela disposição interior de quem observa. A criança, ainda não “acostumada”, acredita que olhar com intensidade basta para alcançar o mistério; os adultos, por sua vez, parecem anestesiados pelo hábito, pelo barulho e pela celebração automática.

Vencido pelo peso das pálpebras, o menino “acordou no chão, apavorado com o estrondo”. Seu primeiro pensamento foi “O mundo acabou?”. Mas logo ouviu vozes, risos, buzinas e gritos. Apavorado, o garoto corre até a sala, e lá chegando constata que estão todos vivos, embora diferentes. O cambaleio vindo das garrafas toma conta de todos.

Enquanto o menino associa a revelação do Ano-Novo ao recolhimento, o excesso de ruído reforça a ideia de que o essencial escapa àqueles que não sabem parar e sentir. As estrelas, calmas e oniscientes, contrapõem-se à algazarra das pessoas. É a representação da imutabilidade do tempo ante as convenções sociais.

O desfecho do conto é marcado por frustração e aprendizado do garoto que, dormindo cedo e acordando assustado, sente-se deslocado, mas deseja saber se o Ano-Novo passou e como foi. Mas a passagem foi tão ligeira quanto a queda do menino da cama. Restava-lhe aceitar que perdera o espetáculo. O mistério permanece intacto, e a lição é amarga: não basta querer ver; é preciso saber como olhar.

Literariamente, o conto se destaca pelo lirismo da linguagem, pelas imagens sensoriais sutis e pelo tom melancólico que atravessa a narrativa. Expressões carinhosas e falatórios habitam o mesmo espaço-tempo, criando um equilíbrio entre ternura e inquietação. A infância não é idealizada como espaço de pureza absoluta, mas apresentada como momento de intensa lucidez, ainda não embotada pelas convenções sociais.

Assim, “Maneira de Olhar” ultrapassa o episódio específico da passagem do Ano-Novo e se afirma como uma reflexão universal sobre crescimento, desencanto e percepção. O conto sugere que, ao longo da vida, vamos perdendo a capacidade de perceber o extraordinário no cotidiano. O Ano passa para todos, mas nem todos o veem.

A desilusão de ter perdido a passagem do Ano-Novo é uma grande frustração para todo “colaçãozinho de manteiga”.

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

 
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