A crônica “Minha vida com Vicente Celestino”, de Adriano Bailoni Júnior, é um retrato afetivo da cultura popular brasileira e da força simbólica que a música exerce sobre a memória coletiva. Entre o confessional e o histórico, a era de ouro da canção nacional traz Vicente Celestino como figura central de um Brasil que descobria, na voz do tenor, a própria alma.
O cronista mostra uma Uberlândia de 1936, provinciana e em processo de modernização. O narrador, um garoto de doze anos, trabalha em uma loja de tecidos quando descobre a potência da voz de Vicente Celestino. O menino do interior mineiro encontra, no canto do tenor carioca, um ideal de beleza e transcendência que ultrapassa as fronteiras do tempo e do espaço, em um duplo movimento: o da memória individual que se entrelaça à história nacional.
A linguagem é marcada por uma nostalgia luminosa e um lirismo de quem rememora fatos e emoções. Expressões como “a voz orgulho do Brasil” ou “a praça ficou lotada e coberta pelos guarda-chuvas” ilustram o encantamento do cronista e a beleza de unir multidões e corações. Ao evocar a precariedade dos meios de comunicação e o esforço de um artista que percorreu o país de norte a sul, há um elogio à persistência, valor também cultivado por Bailoni, homem público e memorialista.
Do relato histórico à experiência pessoal, Adriano revela com humor e ternura a cena do menino tímido, embriagado por uma cerveja, se aproximando do cantor em tentativa de conversa. Esse constrangimento despretensioso é o ponto alto do texto, pois mostra a dimensão humana do narrador, o fã que, diante da grandeza de seu herói, se reconhece pequeno, mas acolhido. A simplicidade da cena contrasta com a monumentalidade de Celestino.
Bailoni demonstra domínio de uma prosa que mistura o registro jornalístico ao sabor do anedotário. Há clareza, linearidade e ritmo narrativo, mas também certa musicalidade que ecoa a própria arte de Vicente Celestino. As transições suaves como “de minha parte, eu me apaixonei pela voz do tenor” e “na realidade, minha intenção era convidá-lo para almoçar comigo” aproximam o leitor da voz de um contador de causos, típico das rodas familiares mineiras que tanto marcaram sua escrita.
Ao mencionar gravações, selos fonográficos e repertórios, Bailoni oferece um panorama da indústria fonográfica brasileira das décadas de 1930 a 1950. Ele cita a passagem de Celestino pela Continental, RCA Victor e Casa Edson, demonstrando o olhar atento de um pesquisador apaixonado. Com valor histórico inestimável, a crônica reúne testemunho pessoal e registro da cultura popular.
A presença das cartas originais de Vicente Celestino, ao final da obra, reforça o caráter de autenticidade e afeto que perpassa toda a narrativa, sob o tom gentil e simples do cantor. O gesto epistolar, raro nos dias de hoje, simboliza uma ponte entre gerações, mediada pela humanidade e pela arte.
Por fim, a escrita de Adriano Bailoni é também uma reflexão sobre o poder da memória e da devoção como forma de resistência contra o esquecimento. O cronista compreende que a grandeza de um artista está na permanência de sua voz na lembrança dos que o amaram. Assim, “Minha vida com Vicente Celestino” é uma declaração de amor ao Brasil que cantava com Celestino.
Publicada no livro Uberlândia, minha terra: reminiscências (Assis Editora, 2010, p. 17-21), a crônica revela o olhar emocionado e memorialista de Adriano Bailoni Júnior, advogado, político e cronista mineiro que eternizou o impacto do tenor na vida de um fã e no imaginário cultural brasileiro.
O texto apresenta ainda duas cartas originais de Vicente Celestino, datadas de 25 de março de 1953 e 18 de setembro de 1954, nas quais o cantor comenta sobre discos, gravações e desafios da indústria fonográfica da época. Esses documentos epistolares, somados à biografia de Celestino (1894–1968), que Bailoni também transcreve e comenta ao final do livro, ampliam o valor documental e afetivo da obra.
Reminiscências é, sem dúvidas, um testemunho poético e histórico da força da voz, da memória e do afeto na construção da cultura popular brasileira.
*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.