Em tempos de algoritmos e memórias descartáveis, a poesia de Ademar Ignácio da Silva nos oferece um refúgio raro, quase anacrônico. No poema “Imutável”, publicado no livro “Apesar da Barbárie” (2017, p. 36), o autor parece nos puxar pela gola para fora do redemoinho do presente, conduzindo-nos a um tempo interior, esse que pulsa longe dos relógios e das notificações. Nele, o poeta nos apresenta a figura do colibri e o gosto de um quindim: imagens bucólicas, com sabor de afeto e filosofia.
O verso “Meu doce e velho colibri, quanto me apraz! Acalma voluptuosas saudades da impetuosa juventude” parece evocar uma memória sensorial e espiritual que toca, ao mesmo tempo, o passado e a essência do ser. O colibri, com sua leveza suspensa no ar, surge como uma metáfora da alma que permanece viva mesmo quando o corpo já se curva à caducidade. Há aqui algo profundamente platônico: o mundo sensível, marcado pela juventude impetuosa e pelos prazeres intensos, é apenas uma sombra da realidade, aquela da alma imutável, eterna.
Platão, em seus diálogos, argumentava que a alma, sendo anterior ao corpo, retém a verdade e o conhecimento. Ela é, portanto, a única parte do ser humano que não se corrompe com o tempo. Para ele: “A alma do homem é imortal e imperecível” (Fédon).
E é exatamente essa a impressão que temos ao ler o poema Imutável: o eu lírico envelhece, sim, mas sua alma, talvez representada pelo colibri, segue amorosa e desejante. A “voluptuosa saudade” de que ele fala, em vez de amargor, traz um tempero da existência, um traço de humanidade diante do que não volta mais.
Mas, em vez de se limitar à evocação da eternidade da alma em termos abstratos, o poeta prefere dar a essa ideia de permanência um sabor concreto, e aqui entra o verso: “Alma eterna, faz-me degustar eviterno inocente quindim, o que de ti resta em mim!”. O pedido é uma espécie de prece gustativa: que a alma conceda um último instante de doçura, uma lembrança tátil daquilo que permanece. O quindim, símbolo de um prazer singelo, ganha ares filosóficos. Ele deixa de ser um perecível doce, para se tornar o que sobra da eternidade no cotidiano. Aí reside a resistência ao tempo com afeto.
A contemporaneidade, em sua fuga do tempo, fragmenta as relações e transforma a eternidade em um momento fugaz. Mas o poeta retoma a ação, enfatizando que, apesar da barbárie, trata-se de uma experiência singular. No mundo atual, quase tudo é efêmero: relações, mensagens, tendências. Mas aí vem a poesia de Ademar Silva como um gesto de resistência, anunciando que ainda é possível aproveitar o dia, porque nem tudo é apagável. É como se dissesse: “Há algo de imutável em mim, que persiste. E se expressa na lembrança do colibri. No gosto do quindim”.
A “voluptuosa saudade” que o poeta evoca não se confunde com o medo da morte, é um reconhecimento de uma vitalidade que ainda pulsa, quem sabe a própria alma. No entanto, como nos lembra Sócrates, em Fédon, o diálogo de Platão, “ninguém pode ter conhecimento” da alma após a morte, sendo assim “irracional a confiança de qualquer pessoa diante da morte, a menos que esse alguém pudesse demonstrar que a alma é absolutamente imortal”. E talvez aí esteja a beleza do poema: mesmo sem prova, o eu lírico crê, e deseja, que o eterno permaneça. Nem que seja o gosto doce de um quindim.
Ao fazer isso, o poeta também propõe um diálogo com o leitor pós-texto. A alma, com sua promessa de “ad aeternum”, ainda tem espaço em um mundo onde o corpo e seus simulacros digitais são constantemente performados?
A resposta do poema é sensível. A alma eterna está no afeto que sobrevive à juventude, no amor que permanece mesmo no corpo cansado. Está no quindim, na convocação da memória e do que há de mais essencial em nós.
Em “Imutável”, em vez de propor uma fuga do mundo contemporâneo, o autor o confronta com delicadeza. Isso relembra-nos, como Platão, que há verdades que não passam. E o que resta de eterno em nós é o que foi vivido com amor. Para o poeta, na beleza do colibri ou no sabor de um quindim, pulsa a essência do viver.
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