07/08/2025 às 08h00min - Atualizada em 07/08/2025 às 08h00min

O Papel no Tempo das Nuvens

IVONE ASSIS

Pensando em um diálogo entre a crítica benjaminiana e a modernidade no quesito da alfabetização, busquei aporte na obra “Rua de mão única”, de Walter Benjamin, na qual ele escreve: “O ritmo do trem e do bater dos tapetes embalava-me até adormecer. Era o molde onde se formavam os meus sonhos. Primeiro, os mais indistintos, talvez atravessados por uma onda de água ou pelo cheiro do leite; depois, os mais prolongados, sonhos de viagens e de chuva”. Até o roçar da folhagem na parede da casa parecia lhe ensinar qualquer coisa. Para Benjamin: “tudo naquele pátio se transformava para [...] em aceno”.

Ao olhar para os objetos cotidianos com atenção arqueológica, Benjamin transformou o banal em matéria crítica. Um brinquedo, um caderno, uma carteira de escola, tudo se tornava espelho histórico da civilização. Entre esses objetos, o papel tem um lugar fundamental, ele era campo de experiências: dobrado, sujo, escrito, esquecido. Na técnica moderna, o papel foi se tornando símbolo de uma cultura de arquivo, mas também de ruína: restos de uma experiência mais tátil, mais atenta ao processo de formação da consciência.

Veio a era digital tentando transformar o papel em produto obsoleto. Escritórios se orgulham de não imprimir mais documentos. Escolas migram para plataformas. Tudo é imagem, cliques e respostas rápidas em uma formação crítica rasa. Dizem que o papel é um resíduo ambiental, mas esquecem de que o papel também é suporte e sintoma. Aos poucos, desaparecem a caligrafia imperfeita, o rascunho, a mancha de tinta. E com isso, eliminamos a própria forma pela qual se aprende a pensar.

Benjamin diria que todo progresso técnico carrega uma sombra. O desaparecimento do papel é um avanço que se conecta ao indício de uma ruptura com a pedagogia da lentidão. Sem o papel, não há rastro da hesitação. Sem rascunho, não há memória do erro. E assim se impede a formação da frase no corpo, na mão e no pensamento.

Ao pular etapas também pula o aprendizado. A inteligência artificial depende de alimentação textual. Mas quem alimenta? Com que critérios? Com que vocabulário? Com que consciência de linguagem, de mundo, de história?

Sem alfabetização plena, o uso da IA será superficial, e seu resultado será eco de uma cultura que simula saber, mas que não o produz.

Benjamin, ao refletir sobre os cadernos escolares e as primeiras experiências com a leitura, mostrava como o processo de letramento era também um processo de formação do sujeito. Não se tratava de decodificar sinais, era aprender a olhar, interpretar, duvidar, recompor. O papel, nesse sentido, era mais que suporte: era campo de experimentação do sentido. Descartá-lo como relíquia é também recusar esse percurso formativo.

A cultura digital promete acesso rápido, mas exige uma base prévia que não se constrói sozinha. O leitor que nunca leu com atenção não saberá distinguir um texto bem escrito de um clichê. O autor que nunca escreveu à mão não sabe o peso de cada vírgula. A criança que nunca rabiscou um caderno não entenderá o que significa revisar, reescrever, recomeçar. E é exatamente isso que se transfere às máquinas: um repertório empobrecido, uma linguagem genérica, um discurso vazio.

Benjamin não se oporia à técnica. Ele mesmo era fascinado por ela. Mas exigia uma consciência crítica do seu uso. Não basta mudar o meio. É preciso pensar nas condições de produção e recepção do texto. Em tempos de IA, o papel parece antiquado, mas talvez seja o lembrete mais concreto de que toda produção intelectual começa com o corpo, com o gesto, com o tempo do aprendizado.

Na pressa de digitalizar tudo, esquecemos que a inteligência – humana ou artificial – não se improvisa. Sem o rigor da leitura, a escuta da frase, a disciplina do parágrafo, não há pensamento. Há apenas simulacro. A alfabetização continua sendo o pré-requisito para qualquer aventura tecnológica. E enquanto o mundo se orgulha de falar com máquinas, seria prudente lembrar que ainda há muitos que não sabem escrever com lápis.

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

 

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