12/07/2025 às 08h00min - Atualizada em 12/07/2025 às 08h00min

Gustavo Corção

EDMAR PAZ JUNIOR
Foto: Reprodução/Internet

No último texto disse que continuaria a falar sobre a ideia contida no livro do Roger Scruton, As Vantagens do Pessimismo, mas quero dar uma pausa, quase como um intervalo comercial, para falar de um outro autor que constantemente fico maravilhado com sua genialidade. Sempre me surpreendo quando me deparo com alguma coisa – na verdade, qualquer coisa – escrita por Gustavo Corção, principalmente por sua assertividade atemporal, sua maneira afetuosa de encadear brilhantemente as ideias. É quase como que uma espécie de terapia do deslumbramento. Talhando e soprando os sulcos de uma obra detalhista, uma daquelas que não se produz com agressividade brutal, mas sim com uma violência caridosa, o escritor brasileiro afunda um dardo de amor na nossa alma. Como disse Nelson Rodrigues comentando sobre Corção, “tudo em Corção é amor”.

Já escrevi inúmeros textos sobre ele, e não escondo minha predileção por esse gênio brasileiro, que, submerso num emaranhado de futilidades e escritos ideológicos esparramados pelas cátedras universitárias e mais – pior -, nas escolas de ensino fundamental e médio, acaba por não ter o reconhecimento que lhe é justo.

Numa crônica que li esses dias, Corção falava da morte de seu amigo Georges Bernanos, não apenas de uma maneira comum, como quem lamenta a partida de uma pessoa querida, mas de uma maneira que ultrapassa os limites físicos e atinge, mais uma vez, o transcendente. Falando acerca do “evento morte” e como somos arrebatados por uma sensação de “falta passada”, escreve assim:

“O primeiro sentimento que me veio, quando Fernando Carneiro me comunicou por telefone a morte de Bernanos, foi uma falta enorme, instantânea, brusca, como se aquele homem que apenas encontrara meia dúzia de vezes, e que se achava perdido para mim, ‘somewhere in France’, estivesse ligado à minha vida com os vínculos de uma antiga amizade. E estava. Realmente, estava. Sem que eu mesmo o soubesse, Bernanos tinha deixado em mim a marca inapagável de um contato verdadeiramente humano. Um minuto antes da notícia, mal me lembrava de seu vulto, de sua voz, de suas bengalas, de sua cólera pronta e de sua prontíssima ternura. Agora, pondo o fone no gancho, eu sentia crescer em mim, por todos os lados, em torno, atrás, adiante, nas recordações e nas esperanças uma falta enorme.

“desenhava-se, com a nitidez das coisas duras que se partem, os contornos de um buraco que acabara de me engolir um amigo. E eu o via, ampliados e detalhados, o que deveriam ter sido os nossos poucos encontros – e o que não foram. A sensação crispada de uma frustração assaltava-me lembrando cada conversa nossa, cada gesto, cada tentativa de entendimento perfeito que se havia detido em nossos duros limites. Mesmo agora, poucos dias atrás, eu devia ter escrito uma carta – e não a escrevi. Devia ter enviado umas revistas em que nós o defendíamos e que certamente lhe dariam prazer – e não as enviei. Adiara a carta, protelara a remessa das revistas, calculando, como se costuma fazer entre vivos, que o tempo é ilimitado e a vida inextinguível.

“A morte projeta uma luz rasante e crua que tem a esquisita propriedade de exaltar as minudências de um passado perdido, transformando a lembrança aparentemente mais clara e mais lisa numa paisagem lunar com suas montanhas e crateras.

“(...)Chega então a morte, e de repente, no cemitério das lembranças truncadas, corre um frêmito de vida. E as lembranças aleijadas se levantam, e tudo na vida passada nos parece abortivo e irremediável. Quem poderia adivinhar que aquele desenho de criança, representando uma casinha no alto do morro, com um sol ingenuamente dardejante por trás, seria contemplado com religioso temor, à luz da morte, por entre névoas de mágoas? A mãe do menino atropelado desculpa-se de ter posto fora os outros desenhos. O irmão do menino atropelado chora ter comido na véspera o pedaço maior de sobremesa. E tudo isso, entre nós, os vivos, os orgulhosos vivos, que não sentiram o gosto dos abismos, parece ridículo, insensato, passageiro, porque entre nós parece estar definitivamente estabelecido que essas coisas miúdas são o lixo da vida.

“O que no primeiro momento mais se chora no morto não é a falta que se adivinha para amanhã ou depois: é a falta atroz que ele já faz no passado. É a decepção, é o sentimento agudo de uma frustração naquilo mesmo que mais solidamente nos parecia ter adjudicado. A falta que o morto irá fazer dia por dia, no futuro, essa, chegará a seu tempo envolta numa tristeza que, de certo modo, é boa e harmoniosa. Imaginamos facilmente encontros perfeitos, soluções perfeitas, se o morto estivesse ali. Ao contrário, a retrospecção, diante da morte, deixa-nos o gosto amargo dos encontros imperfeitos e das soluções imperfeitas. E o peso do nunca mais nos oprime intoleravelmente.

“(...)O insulto que a morte nos causa não pode ser vencido pela Fé e pela Esperança, que são as virtudes da peregrinação. A ideia de que o morto esteja no céu, e o consolo de esperar que lá o encontremos, não basta, entretanto, para curar a ferida a ferida das faltas que ficaram para trás. Precisamos abraçar-nos à virtude que não passa, à Caridade, que é a única que vence a morte e que desconhece a separação entre passado e futuro. A solução perfeita desta tremenda sabatina da morte está na transferência das dívidas. Pague-se aos outros o que já não se pode pagar ao que morreu, e vem tudo a dar na mesma, e vem tudo se encontrar na mesma pirâmide de ofertas e donativos, o patrimônio da comunhão dos santos, de cuja distribuição Deus mesmo se encarrega. Valha-nos agora essa angústia passageira causada pelo invisível para que melhor sirvamos o visível, e assim o morto começa logo na eternidade seu ofício de advogado dos vivos.”

Já disse algumas vezes que o papel do escritor de excelência – não apenas o escritor, mas o artista em geral – é o de jogar luz onde pouco se vê, mostrar que apesar de algo estar bem nítido diante de nossos olhos, não conseguíamos ver que havia ligação entre uma coisa e outra – qualquer que seja –, em suma, nos trazer para a realidade e perceber que estávamos olhando diretamente para um movimento e não o estávamos percebendo. Isso é o que a literatura – o meio mais fácil, por assim dizer, exatamente pela facilidade de acesso e entendimento pois, qualquer pessoa, com o acesso à internet ou não, tem a possibilidade de ler um bom livro e entender o que está escrito – deveria produzir: homens cônscios de suas vidas, da realidade, e, principalmente, da Beleza que nos cerca.

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

 

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