“Não tenho dúvida de que São Paulo estava certo ao recomendar a fé, a esperança e o amor (ágape) como as virtudes que ordenam a vida para o bem maior. Entretanto, também não tenho dúvida de que a esperança, separada da fé e não temperada pela evidência da história, é um ativo perigoso, que ameaça não só aqueles que a abraçam, mas todos aqueles que estão ao alcance de suas ilusões.”
É assim que Roger Scruton começa sua obra, As Vantagens do Pessimismo, novamente combatendo falácias ideológicas que tanto cooptam incautos nos dias atuais. Utilizando mais uma vez sua inteligência aguçada e contundente, Sir Scruton desmonta algumas das mentiras que insistem em seduzir as pessoas, não por conta de seus resultados – que aliás, reiteradamente deram errado e se mostraram avassaladoras na vida real – mas justamente pelas suas promessas: sempre bonitas e de aparências virtuosas, mas que no fundo não passam de ressentimento matizado com utopia.
Interessante como, a despeito de se mudarem alguns argumentos, existe uma espécie de ciclo nos pensamentos ideológicos – que basicamente assevera a “reconstrução” do homem, mas que na verdade acarreta cada vez mais sua destruição – sob a farsa de uma liberdade humana incondicional ou mesmo na bravata da igualdade absoluta. Ora, basta um simples raciocínio para se evidenciar que não existe possibilidade real de igualdade e liberdade coexistirem de forma plena, já que, quando uma é imposta, necessariamente a outra é limitada.
Scruton busca através desse livro demonstrar como a falsa esperança é motivada, menos pela expectativa de que suas experiências possam dar certo, do que pelo apelo emocional que seus propagadores utilizam, e diz que apenas a pessoas que se enfiaram num turbilhão de autoengano poderiam ignorar os inúmeros avisos que evitariam várias desilusões. É essa a ideia que ensina no seu estudo sobre o pessimismo, como forma de combate a esse autoengano, e prossegue, “um estudo sobre a utilidade do pessimismo revelará uma das mais interessantes características da natureza humana: a de que os erros óbvios são os mais difíceis de corrigir. Eles podem envolver erros de raciocínio, mas sua causa reside em algo mais profundo que a razão: nas necessidades emocionais que vão se defender com todas as armas disponíveis, em vez de renunciar ao conforto de suas ilusões facilmente adquiridas.”
Admiro muito escritores que conseguem imprimir um de sentido, uma espécie de marca d’água em seus trabalhos, de forma que, quase sempre, conseguem deixa-las transparecer implicitamente em seus textos, podendo assim vislumbrar o que o autor tem por intenção, ou de um modo mais simples, o que ele preza, o sentimento que o liga ao que está fazendo. Scruton, assim, sempre retoma e permeia a ideia de pertencimento, aquele sentimento de que por pertencermos à algum lugar, ou até mesmo algum “tempo” na história, lutamos por isso e desejamos sempre preservar o que com os anos se mostrou bom. A concepção de nação, de religião, e até mesmo de um espectro político, por exemplo, nos dão essa visão de grupo por afinidades, e até mesmo no “simples” gesto de habitar um determinado lugar, é possível o afloramento desse sentimento. Mesmo que não seja o principal objetivo do autor aqui, esse pertencimento figura como pano de fundo, como por exemplo, quando ele diz que “Quando construímos, precisamos tratar a terra como um lugar de assentamento, em que nossas vidas estejam inofensivamente adaptadas tal como a dos peixes no mar”.
Continuando no livro, Scruton ensina que a desilusão produzida pelos progressistas é muitas vezes resultado de uma ideia equivocada de perfeição, como se fosse possível produzir um homem, em algum momento do futuro, que não pudesse morrer, que fosse imortal e sem defeitos, numa busca egoística de um “eu” inatingível. O filósofo, de forma brilhante, dá o tom de como deve ser, na verdade, um entendimento calcado na verdade e na realidade da vida: “A poesia, o teatro, a pintura e a música nos mostram que a mortalidade está inextrincavelmente urdida no projeto humano das coisas: que nossas virtudes e nossos amores são as virtudes e os amores das criaturas mortais; que tudo que nos leva a cuidar uns dos outros, a sacrificar-nos e a fazer gestos sublimes e heroicos depende da constatação de que somos vulneráveis e transitórios, com direito apenas à fugacidade das coisas deste mundo.”
Ora, estamos diante de uma ideia que sempre reiteramos aqui, nos nossos textos: a da busca pela (re)tomada de consciência da realidade, e que somente ela pode permitir o efeito do antídoto contra essas falácias: a verdade. O que essas falácias quase sempre procuram, são meios de se camuflar a seiva destruidora por trás de suas ideias, justamente através de argumentos que, num primeiro olhar podem parecer os mais justos, notadamente porque apelam para o lado emocional das pessoas: quem não quer “salvar a humanidade” ou deixar um “mundo melhor” para nossos descendentes? Tá aí a isca, que só conseguiremos nos desvencilhar se prestarmos atenção nos detalhes.
Continuamos no próximo texto.
As Vantagens do Pessimismo, Roger Scruton.
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