Terminei o texto anterior comentando como o excesso de informação, o “barulho alto” do mundo, nos atrapalha, principalmente no aprofundamento do conhecimento de si: cada vez que tentamos nos conhecer ou mesmo nos silenciarmos para ouvir a voz da sabedoria, tudo à nossa volta parece conspirar contra, como se fosse errado tentar se desenvolver. Parece um tanto quanto engraçado essa “coincidência”, não?!
Ora, se a cada vez que tentamos manter um certo nível de sanidade, de busca pelo conhecimento real, somos confrontados pela manada, pela multidão sedenta apelando para que continuemos a ser, como diz Ortega y Gasset, homens massa, na “média” de todos, aparenta ser um claro indicativo de que, de fato, há algo importante por detrás desse movimento do silêncio: é sutil – mas nítido para os que sabem ver – que há valores intrínsecos no nosso crescimento, que só alcançamos quando fazemos esse movimento de “afastamento” da turbulência mundana, mas que a maioria das pessoas não querem/conseguem, justamente porque a média quer que todos fiquem na média.
Pois bem, por que insisto no ponto acerca do silêncio para enxergar esse sentimento de continuidade? Porque é justamente através do silêncio que conseguimos penetrar em nossa natureza humana, na essência de seres pensantes, e enxergar que nossa capacidade de deixar um legado é muito maior que a mera existência terrena. Jesus deixou um prelúdio do que queria que fizéssemos: “céus e terras passarão, mas minha palavra não passará”. Perceba que quando o Apóstolo diz, “sede imitadores de Cristo”, ele apresenta um imperativo daquilo que devemos ser, do modelo supremo de ser humano, e do mais alto ideal que temos de buscar.
É evidente que não podemos “produzir” a Verdade imutável de Cristo, mas o sentido de suas palavras aqui é justamente o de “deixar algo para a posteridade”, uma espécie de ensinamento que, podem as montanhas mudarem de lugar, cair um novo meteoro na Terra, ou mesmo acontecer a extinção da humanidade, mesmo com tudo isso, ainda assim permanecerá o que foi dito. Porém, nem tudo se resume apenas nas “palavras escritas” (apesar de ser e melhor forma de se transmitir os acontecimentos e ensinamentos).
O maior exemplo que temos é a Igreja Católica que é fundada, para além das doutrinas, numa tradição que remonta aos primeiros apóstolos e padres que viveram na época de Cristo. Ora, nenhuma ideia, gesto, ações, ou mesmo palavras, permanecem tanto tempo entre nós se estes ali não se mostrassem reais, permanentes e coerentes com toda a realidade humana.
O sentimento de continuidade é, antes de tudo, reconhecer que os que vieram antes de nós acrescentaram muito mais do que podemos creditá-los e, apenas depois, o desejo de, para além de fazer permanecer esses ensinamentos, trabalhar no sentido de que eles sejam aprimorados e aplicados à nossa época: ninguém constrói um prédio sobre areia, exatamente porque não há um solo firme que permita a sustentação de uma construção sólida.
O ensinamento de Cristo, acerca das palavras (e aqui englobamos também as nossas ações), significa que é muito mais importante aquilo que fazemos, do que aquilo que conquistamos materialmente, e isso é reflexo da nossa consciência do passado, já que só podemos deixar um legado quando sabemos que estamos deixando algo.
A questão, assim, é que as “coisas” materiais passam, mas a palavra, os gestos, nossas ações não, e é exatamente esse sentimento de deixar nossa existência marcada, não por conquistas materiais, mas sim por ações relevantes, que a humanidade vem perdendo pouco a pouco. Nossa natureza, nossos dons, são de crescimento, não somente no sentido de acumulo material, mas muito mais em espírito, em inteligência, em virtudes e, consequentemente, em humanidade.
Há uma citação famosa, atribuída à Werner Heisenberg, ganhador do Nobel de Física: “O primeiro gole do copo das ciências naturais te tornará um ateu. Mas, no fundo do copo, Deus estará esperando por você”.
Edmar Paz Jr.
*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.