10/04/2025 às 08h00min - Atualizada em 10/04/2025 às 08h00min

Efemeridade do tempo

IVONE ASSIS

Abro o livro e lá está ela, dando boas-vindas ao leitor. Sua maquiagem é simples, usa uma “base” feita de xilogravura antiga e uma “sombra, passado”, chamada parnasiano. A folha de rosto informa um rosto poético de uma Cecília de estreia. A obra é Espectros, de 1919, o conteúdo é aquele compêndio de 17 sonetos tímidos, publicados aos dezessete anos, e, tantas vezes, excluídos pela crítica, ou até mesmo pela autora. Mas a versão em que eu observo esse espelho literário é a reedição da Nova Aguilar, “Vaga música”, de 1983. É nele que Cecília, no negrume da xilo, convida o leitor a adentrar as frestas de seus primeiros passos poéticos, agora encrustados ali, naquelas páginas amarelecidas e de pouca gramatura, como se fossem cortinas transparentes, onde cada texto vai deixando pistas nas demais páginas.

Sigo a vastidão de palavras até que, à página 145, “ouço” a “Canção da menina antiga”. Investigar memórias de leitura é adentrar canais que conduzem aos rituais sagrados da prática do reler, pois, sem o exercício, sem a repetição, não há memória. É nos entremeios das associações textuais que o repertório narrativo vai ganhando corpo e se vestindo de significações.

Então, aquele espelho Ceciliano exibia a menina antiga e sua canção, que dizia: “Esta é a dos cabelos louros / e da roupinha encarnada, / que eu via alimentar pombos, / sentadinha numa escada. // Seus cabelos foram negros, / seus vestidos de outras cores, / e alimentou, noutros tempos, / a corvos devoradores. [...]”. Era Cecília embebida de melancolia intrínseca e, ao mesmo tempo, trazendo uma reflexão existencial profunda.

Embora a autora estivesse com apenas 17 anos, o eu lírico já não era a criança de outrora. Envelheceu, perdeu a inocência. A menina agora era o retrato simbólico da transitoriedade da vida e do desgaste do tempo, ao qual ninguém escapa. O poema é uma reflexão sobre a efemeridade das experiências humanas, a vulnerabilidade diante do destino e a relação do ser humano com o mundo à sua volta, simbolizada pelos animais, os corvos, que surgem como criaturas implacáveis e devoradoras.

A poetisa segue narrando uma transformação cósmica, conectando o destino da personagem à ação do tempo. “Seu crânio estará vazio, / seus ossos sem vestimenta, / - e a terra haverá sabido / o que ela ainda alimenta”. O crânio vazio e os ossos sem vestimenta apontam para a despersonalização do ser e a solidão da morte, um processo irremediável, incontornável, inevitável, que afeta todas as coisas, inclusive a menina, cuja linguagem figurada dos pombos traz a inocência, a lembrança daquilo que se foi.

O conceito de tempo, frequentemente abordado por Cecília Meireles, é central para a compreensão desse poema. Nele, o fluir do tempo é quase circular, entre infância e morte, no caminho sem volta. Para entender melhor essa relação entre o tempo e o sujeito, recorro-me ao filósofo e crítico literário Mikhail Bakhtin, em “A Poética de Dostoievski” (1929), o qual entende Dostoiévski sob um ângulo de visão e pensamento artístico polifônicos, ultrapassando o limiar da criação romanesca. Para ele, o tempo na literatura é mais que uma cronologia externa, é algo que se interioriza, é uma força subjetiva. Esse tempo que é sucessão externa de momentos, é também realidade impressa. O tempo monta (remonta) as estruturas internas do ser. No caso do poema de Cecília, o tempo se interioriza na figura da menina, então, transformação e morte são simbolizadas de maneira quase atemporal, enfatizando a desintegração e a inevitabilidade da passagem dos dias.

O crítico literário Harold Bloom, em “O cânone ocidental” (1994), nos remete ao entendimento de que a literatura é um contínuo entre presente e passado, navegando entre o autor e as suas influências. E é um campo de memórias e reflexões que, ao (re)escrever o passado, vislumbramos o futuro. É, por certo, nessa literatura de vozes e ecos, que “A menina antiga”, de Cecília Meireles se encontra. Seu poema transcende a história de si e alcança a alma humana, por meio de uma relação da vida com a efemeridade do tempo.

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

 

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