Há alguns anos, escrevi sobre a obra “O arroz de Palma”, de Francisco Azevedo, em que fiz uma breve explanação sobre a obra e o autor. Mas, hoje, quero falar sobre o arroz, de Francisco, e, possivelmente, retornarei à citada obra, não somente agora, porém várias outras vezes, pois, estamos diante de uma obra inesgotável.
De hábito, os finais e inícios de ano são momentos em que fazemos planos, promessas, listas de expectativas e tantos outros, na esperança de melhorias. Na maior parte, trata-se de desejo de melhoria humana.
Pensando nisso, veio-me à memória o arroz de tia Palma, com suas maneiras diversas de se fazer, mas com um só tempero, o amor. Se cardápio de raiva, lá estava o tal arroz de tia Palma, sendo servido em cacarecos de cadeira, para que restaurados fossem e, após aquela porção de arroz, cadeiras e corações se mantivessem restaurados. Em se tratando de cardápio de inveja e cobiça, o arroz trazia dois ingredientes, amor e perdão.
Ouso até dizer que o perdão era a água que cozia o tal arroz em todos os menus. Aquele arroz mágico, inicialmente rejeitado pelo dono ao qual ele veio, guardado por um herdeiro, cobiçado pelos que gostariam de ter tido a honra de herdá-lo, todavia não a tiveram, porque não se tratava de um arroz espólio, e sim, um arroz merecimento. O arroz de tia Palma segue por toda a obra, ou melhor, por toda a vida das personagens, dando sabor a vidas insossas, refrescando línguas abrasivas, alimentando vazios profundos, saciando saudades... Cada receita, mais primorosa que a outra.
Não é um arroz que se consome a bel-prazer. Embora gratuito, é um arroz caro demais para ser consumido trivialmente. É um arroz que gera confiança, gera riqueza... um arroz que gera união. Penso que o autor deve ter encontrado um sentido maior para dar à máxima “unidos venceremos”, tão usual nos escárnios atribuídos ao arroz papa, não porque fora santificado, mas por receber uma quantidade excedente de água. A união do arroz de tia Palma, sim, é uma união santa, capaz de eliminar cicatrizes, curar almas gravemente feridas de guerra.
O capítulo Extremos, à página 215, traz uma conversa “extrema”, para uma percepção “extrema” da vida. Logo no início, um intrigante paradoxo: “excessos e abstinências são extremos que, bem dosados, compõem o equilíbrio do corpo e da mente”. Para ilustrar, aquele personagem apresenta o nascer do sol e pontua que “Van Gogh arrancaria a outra orelha” caso pudesse contemplar tamanha beleza em cores. Aprofundando-se um pouco mais, o sobrinho diz que “Deus pôs a beleza do sol nos extremos. Nascendo ou morrendo”. Afinal, o sol do meio-dia não permite nem mesmo ser olhado, tão forte é. E tia Palma, entre um crochê e outro, ensina “o sol dos extremos”, quando é o do meio-dia, é o sol auge, e quando é o da meia-noite, é o sol ausência. Afinal, “o sol que está a nascer ou a morrer é o sol das preces”.
O eu-lírico enxerga seus extremos de escassez de saberes e diz para si: “Metido a sabichão, filosofias de bolso, ares de letrado. Pobre. Melhor enfiar a cara nos livros. Estudar mais e falar menos.
Eu, contudo, poderia falar mais sobre esse arroz, de Francisco, mas não. Melhor saborear a refeição de agora, sem excessos, e aguardar até que a próxima receita seja preparada. Claro que arroz também tem os seus extremos, ora ficando cru, ora ficando cozido em demasia. Se isso ocorrer, tudo bem. Entre uma safra e outra, novas possibilidades de colheita. A sazonalidade é para nos dar tempo para refletir, ponderar e, assim, dosar melhor a água no próximo cozimento.
Há situações em que o arroz cru é o que se tem de mais emergente. Outras vezes, o arroz queimado é o que resta, e não há o que se fazer, senão suportar o processo. Na maior parte do tempo, o que se tem é o arroz, ora soltinho, ora papado, cada qual com seus encantos. O arranjo da mesa vai dizer muito desse arroz. Arroz de carreteiro, solto, livre, pontual. Já o risoto, papado, aglutinado, charmoso. O importante é que nunca falte o arroz.
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