16/01/2025 às 08h00min - Atualizada em 16/01/2025 às 08h00min

Extraordinário

IVONE ASSIS
Nesta semana, tivemos a grata satisfação de ver o sucesso de 12 estudantes brilharem no podium da escrita redacional. Destes, onze são da rede privada e uma da rede pública. Esta única candidata da rede pública a conseguir 1.000 pontos em sua redação é Samille Malta, de 19 anos, nascida em Brockton, Massachusetts (Estados Unidos), filha de brasileiros e moradora de Virginópolis, Minas Gerais, dos sete aos 16 anos de idade, quando se mudou para Viçosa (MG), em 2020, para estudar no Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Viçosa (CAp-Coluni).

Virginópolis pertence à região do Vale do Rio Doce, tem pouco mais de dez mil habitantes e se destaca por seu Festival da Jabuticaba. Já Viçosa, com cerca de oitenta mil habitantes, se destaca por sua arquitetura vertical e por ser uma cidade educadora, cujo índice de alfabetização é de 92%. Agora, Samille acaba de colocar Virginópolis e Viçosa no topo da notícia nacional. E Brockton, que já é conhecida como sendo a “Cidade dos Campeões”, graças aos boxeadores Rocky Marciano e Marvin Hagler, agora pode incluir Samille Malta em sua classificação (ou “ranking”, como preferir).

Samille Malta, dentre suas várias premiações, já conquistou medalhas de prata e bronze na Olimpíada Mineira de Química e informa que seu forte não “era” redação, e sim, matemática e química, e seu sonho é cursar medicina, ao concluir o ensino médio.

Quando o Enem 2024, com mais de quatro milhões de inscritos, anunciou que desta multidão, somente doze alunos atingiram a nota máxima na redação, que são mil pontos, uma pulga atrás da orelha ficou a questionar “por que as pessoas não sabem escrever?”, enquanto a pulga canora riu-se com gosto, dizendo: “Podem não saber ler, nem escrever, mas sabem cantar”.

Quanto a fatos não há argumentos, basta comparar o público musical com o público literato. É como comparar a proporção de açúcar no doce, com a proporção de sal na comida, em que o açúcar é a música e o sal a literatura.

Quando Carlos Imperial escreveu “Mamãe passou açúcar em mim”, lançada pelo cantor brasileiro Wilson Simonal, em 1966, ele estava coberto de razão (e de sorte), pois, acaso sua mamãe tivesse passado sal muito possivelmente ele teria “virado estátua”, mas como foi açúcar, tornou-se esse docinho que não sai da boca da história.

E por que isso acontece? A resposta é a obviedade, imperceptível talvez porque ninguém canta sobre isso, apenas, escreve-se (parcamente). No entanto, como informação escrita, não há quem a leia; e se a lê, não compartilha. As pesquisas sobre leitura vêm maquiando os dados, por medo de perder a função diante da escassez de dados positivos, mas a realidade não usa máscaras.

Todos os dias, ações e ações, na tentativa de remodelar a leitura, são instituídas, para anunciar que a literatura ainda respira, mesmo que por meio de pulmão artificial. Mas até quando subsistirá? Até quando esse “pulmão artificial” será mantido, com seu altíssimo custo? É uma questão de dias. E se não for encontrada a cura, teremos uma nação emburrecida, rasa.

O governo federal é o maior maquiador educacional que existe, e pode ser que essa maquiagem seja até inconsciente. Vai saber! Afinal, o que o governo lê? Quem sabe?! O fato é que é de lá que vêm todas as ações, e só se oferta aquilo que se tem.

Em 2012, o Ministério da Educação, junto ao governo federal, com apoio da Unicef, lançou 100.000 (cem mil) exemplares do livro “Brinquedos e brincadeiras de creches: manual de orientação pedagógica”, e este, ao chegar no Módulo I, no campo “c. Narrativas e gêneros textuais, orais e escritos” é formado por, unicamente, duas linhas voltadas à escrita, e o restante deste livro de 162 páginas cuida de outras atividades, sobretudo a musical. Como querer construir uma nação com leitores e escritores sem promover o ensino para tal? É no início da vida, nos primeiros meses e anos, que residem os maiores e melhores aprendizados. Jogando essa oportunidade fora, institui-se a dificuldade dos anos vindouros. Isso chega a ser “extraordinário”.


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