Nunca se desejou tanto dar voz à mulher, como neste século. Ainda assim, é incompreensível a brutalidade que permeia a raça humana, com o feminicídio. É como se uma parte bestial se recusasse a ouvir a sensatez. Olhando e ponderando fatos, desejos e devaneios, tudo parece tão cheio de significados. A literatura não poderia ser indiferente. Em “Mulheres breves” (2005), de Kênia Maria de Almeida Pereira, escritora uberlandina, que se destaca na academia com o feminino, na Inquisição e no Holocausto, e que também milita no ficcional, traz divertidos contos curtos, todos intitulados com nomes de mulheres. E não é a primeira vez que trago esta obra à pauta, porque, a cada revisitação literária, encontro algo novo por lá.
Ao final de cada conto, tem-se uma espécie de diálogo, quase sempre jocoso, entre narrador e personagem. Para “Rita Felicidade”, por exemplo, é: “Assine ‘Inveja’, a maior revista do Brasil” (p. 52). É um tipo de vinheta entre um conto e outro, que media o leitor pelas entrelinhas da ficção e do social. Com esse título ultra pitoresco, Kênia Pereira cutuca o mundo mimizento que nos encontramos, em que o sucesso alheio parece doer naquele que não luta pelo seu próprio espaço. E pensando nessa perspectiva, é possível enquadrar a brutalidade masculina a esse conceito da inveja. O opressor, em vez de lutar para ser um sujeito melhor, prefere silenciar aquela que vem trilhando em suas conquistas.
Conquista é algo relativo, porque tem significados peculiares a cada pessoa, conforme seus desejos e expectativas. O que parece incrível para um, é nada para o outro. E está tudo bem. É a diversidade que torna tudo tão interessante. O que não pode acontecer é um fracassado se incomodar com o sucesso do outro e querer silenciá-lo, para que, em vez de haver dois lutando pelo sucesso, escravizar dois no fracasso. É questão de lógica e bom senso.
Na arte da palavra, cantada e escrita, conforme escrevi certa vez, “se de um lado Tom Jobim narra a beleza da ‘Garota de Ipanema’, ‘Moça do corpo dourado / Do sol de Ipanema’, do outro, Kênia Pereira (d)escreve ‘Perla’, uma mulher destemida, que desfila nas plantações de algodão, fazendo um gingado com a foice, enquanto cobre sua ‘pele branca que o sol não verá tão cedo’. Lutando por sua dignidade, ela se identifica: ‘Sou pérola, sou Perla, sou alva’ (p. 12). A protagonista se negou a ser ‘escrava de madame’, por isso foi para a panha de algodão. No conto, a escritora critica o desprestígio comumente ofertado à mulher no mercado de trabalho. Já em ‘Semira’, a autora constrói uma mulher que vende sexo e, embora tenha descoberto algum prazer neste ofício, ‘continua assim, amando [...] ela mesma, que é dois, que é quatro, que é tudo, que é nada’. Semira é uma mulher comum, que sonha com a liberdade, com a conquista, com a autorrealização, mas sempre se esbarra em seu entorno vazio, que mais lhe parece uma sombra, um eco da própria voz. Evidente, não basta o querer, é preciso haver oportunidade”.
A Unifem (2006), em “O progresso das mulheres no Brasil”, apresenta 297 páginas em que diversos escritores narram o cotidiano e a dignidade de mulheres que lutam. Há quem lute por melhores condições de vida, e que está fora do mercado de trabalho há anos, como “Denise Moraes, que é HIV positiva desde 1998”, a qual desabafa, “Quero continuar trabalhando. Deixar a gente no mundo dando só remédio para sobreviver, não dá”. E não dá mesmo. Faz-se necessário que essas mulheres vivam com dignidade. Daí a necessidade de projetos e programas de governo que as alcance. Todos os dias, a teoria apresenta um oceano azul, mas o cotidiano que encontramos é um oceano vermelho. São milhões de mulheres clamando por cidadania, por dignidade humana, mas os ouvidos governamentais e empresariais continuam moucos. No meio do nada a favor, encontra-se a necessidade de sobrevivência.
Literaturas como “Mulheres breves”, “Colcha de retalhos: a mulher brasileira de 1920 a 2020”, e outras, vêm, feito andorinha, transportando suas gotinhas de água na plumagem das asas, no desejo de apagar o incêndio.
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