25/07/2024 às 08h00min - Atualizada em 25/07/2024 às 08h00min

Estrada

IVONE ASSIS
Aprendi com meu pai e meu avô a amar as estradas, poeirentas, pavimentadas, de muito ou pouco fluxo. Como escreveu Drummond, em “A rosa do povo”, “É a árvore que regressa. A estrada voltando. Minas que espreita, e espera, longamente espera tua volta sem som”. É certo que Drummond estava em outro contexto, mas o recorte, isolado, lê o que meu pensamento quer expressar. 

A capa do livro “Os alegres peregrinos: contos rurais passadistas”, da escritora Enivalda Nunes Freitas e Souza, também apresenta, para mim, essa leitura de estradas que vão e que vêm, com árvores e caminhantes, todos passantes sob sóis e luas. Ah, sim, árvores não caminham, mas quando a estrada me leva, é o mato que passa, não eu. Eu levo comigo a saudade daquele lugar, o cheiro daquele campo.

Alberto Caeiro, em seu poema I, escreve: “Para além da curva da estrada / Talvez haja um poço, e talvez um castelo, / E talvez apenas a continuação da estrada. / Não sei nem pergunto. / Enquanto vou na estrada antes da curva / Só olho para a estrada antes da curva, / Porque não posso ver senão a estrada antes da curva. / De nada me serviria estar olhando para outro lado / E para aquilo que não vejo. / Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos. / Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer. / Se há alguém para além da curva da estrada, / Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada. / Essa é que é a estrada para eles. / Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos. / Por ora só sabemos que lá não estamos. / Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva / Há a estrada sem curva nenhuma”. (Poemas I, livro “Poemas Inconjuntos”. Fernando Pessoa (1888-1935). Poemas Completos de Alberto Caeiro. Organização Carlos Felipe Moisés. - 2. ed. - São Paulo: Ática, 2013, série Bom Livro, p. 87).

O mesmo Caeiro, na estrofe 20, da página 35, escreve: “Para além da curva da estrada, / Os meus pensamentos são contentes”. A estrada é um arrebatar de pensamentos, onde a memória trabalha profundamente, revisitando o ontem, formulando o amanhã e vivenciando o agora.

A estrada sempre ativa o imaginário e, como escreveu Manuel Bandeira, em seu poema “Estrada” (Petrópolis, 1921): “Esta estrada onde moro, entre duas voltas do caminho, interessa mais que uma avenida urbana”. Afinal, “Nas cidades todas as pessoas se parecem. Todo o mundo é igual. Todo o mundo é toda a gente”. Já, na estrada, “cada um traz a sua alma. Cada criatura é única. Até os cães. Estes cães da roça parecem homens de negócios: Andam sempre preocupados. E quanta gente vem e vai!”

É nas estradas que o mundo se mostra, que os homens se descobrem, que os incautos e os cautos se revelam, que a prosa acontece despretensiosa. As estradas lançam poeiras para que se desenhe a história.

Mia Couto, em “Poemas escolhidos”, escreve: “Estrada de terra, na minha terra / Na minha terra / há uma estrada tão larga / que vai de uma berma à outra. / Feita tão de terra / que parece que não foi construída. / Simplesmente, descoberta. / Estrada tão comprida / que um homem / pode caminhar sozinho nela. / É uma estrada / por onde não se vai nem se volta. / Uma estrada / feita apenas para desaparecermos”.

Sol e Lua, cada qual em seu turno, alumiam a estrada, com seus assombros e encantos. O vento assopra, a folhagem dança; as árvores se entristecem na seca e se alegram nas águas; a chuva molha a terra, Ipês florescem, pequizeiros e cajueiros florescem e dão frutos. A passarada canta, agradecendo a vida.

A rolinha-branca, anuncia que o fogo apagou, e olhando o estradão, diz: “Foi. Não foi”. É nesses longínquos que aparecemos e desaparecemos a todo instante aos olhos daquele que observa a vida da beira da estrada.


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