13/08/2017 às 05h13min - Atualizada em 13/08/2017 às 05h13min

Um pesadelo que ressurge

ALEXANDRE HENRY ALVES* | COLUNISTA

Quem nasceu até meados da década de 1970 (ou antes disso) sabe exatamente como era a sensação de viver em um planeta que poderia ser extinto a qualquer momento, em virtude de uma guerra nuclear entre os Estados Unidos e a União Soviética. Sabe aquele medo lá no fundo? A gente sabia que dificilmente as ameaças de um hecatombe atômico iriam se concretizar, mas não dava para descartar essa possibilidade, até porque éramos bombardeados diariamente com artigos, filmes, livros etc. falando desse futuro sombrio. Eu me lembro, por exemplo, de estar no carro com meu pai e meus irmãos em abril de 1986, quando os EUA lançaram um ataque contra a Líbia e a notícia do ataque foi transmitida no rádio. Nunca esqueci o tom das palavras do meu pai, expressando um medo de que aquilo, finalmente, desaguasse no conflito mundial que todos temiam.

Mas, aí vieram Mikhail Gorbachev, a queda do Muro de Berlim e o desmoronamento da União Soviética. Apesar da tensão daquele momento, logo as coisas se acalmaram e a ideia de que poderíamos ser exterminados por bombas nucleares praticamente desapareceu. A nova potência mundial, a China, apesar de ter vários artefatos do gênero, tem demonstrado que deseja muito mais se enriquecer com o comércio global do que travar uma nova Guerra Fria com os americanos. A Rússia quer continuar rugindo, mas também não tem dado mostras de que pretende utilizar seu arsenal atômico como arma de persuasão. Índia e Paquistão, apesar das rusgas constantes, não provocariam um desastre de proporções globais, ainda que tenham mísseis nucleares. Enfim, tempos bem mais calmos em que o medo do hecatombe praticamente desapareceu, de forma similar ao que aconteceu com o medo da AIDS.

Só que, assim como acontece com a AIDS, a ameaça não desapareceu. Eu achava que o maior risco da era pós-Guerra Fria seria um terrorista maluco se apossar de uma pequena bomba nuclear e a detonar em uma grande capital do mundo ocidental. Continuo achando que isso realmente pode acontecer, com grandes chances, nos próximos 50 anos. Mas, não seria o início de uma guerra generalizada e, sim, de uma nova era de controle muito mais rígido do que o que já existe sobre o armamento atômico.

Porém, agora temos dois novos fatores a complicar a situação mundial: Donald Trump e Kim Jong-Un, ambos claramente incapazes de demonstrar um controle emocional razoável e ambos com o dedo ao alcance do gatilho nuclear. Trump ainda tem um sistema de freios e contrapesos para segurá-lo em sua instabilidade pessoal, mas o ditador norte-coreano não tem. O pior é que não dá para saber quais são as reais intenções de Kim Jong-Um em sua escalada armamentista, pois material suficiente para servir de chantagem já existe na Coreia do Norte há vários anos. Pense em Israel e você terá um paralelo. O que o lar dos judeus buscou com a posse de armas nucleares? Uma forma de dizer aos vizinhos que, caso o atacassem, poderiam sofrer consequências devastadoras. Conseguido o instrumento de chantagem, na forma de algumas bombas atômicas de curto e médio alcance, os israelenses, ao que parece, não se preocuparam muito em continuar ampliando sua capacidade de destruir o mundo.

Com o ditador norte-coreano, isso não está acontecendo. Como dito, seu país detém armas nucleares há algum tempo, além de uma artilharia que poderia dizimar milhões de sul-coreanos em poucas horas. Em síntese, ele já tem tudo o que precisa para continuar no poder de forma ditatorial, fazendo o que bem entende em seu quintal sem que ninguém se arrisque a ir além de bravatas e ameaças vazias contra ele. Só que ele não parou por aí. Desenvolve a cada dia armas mais potentes e com alcance muito maior do que o necessário para chantagear o resto do mundo. Aonde ele quer chegar? Ninguém sabe.

É por isso que vejo um retorno daquele pesadelo atômico dos tempos de Guerra Fria. Não é algo tão forte quanto tínhamos antigamente, mas se acabou a tranquilidade que sentimos nos anos pós-União Soviética quanto a esse futuro sombrio. Hoje, eu não descarto um conflito nuclear entre países, mesmo achando que as possibilidades são pequenas. E, a partir do momento em que uma nação apertar o botão nuclear, o que pode vir depois é muito mais imprevisível do que a reação esperada à detonação de um artefato atômico por parte de um grupo terrorista. Por isso, algo precisa ser feito com urgência. Países serem donos de armas nucleares é um problema, mas que nem de longe se compara a ter loucos com o dedo no gatilho, como é o caso dos tempos atuais.

(*) Juiz Federal e Escritor - www.dedodeprosa.com

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