22/02/2024 às 08h00min - Atualizada em 22/02/2024 às 08h00min

A Garapa é servida

IVONE ASSIS
Hoje, fiquei relembrando-me de uma cena do documentário Garapa (2009), dirigido por José Padilha, em que uma senhora, em profunda desnutrição, vai ao Posto de Saúde se consultar, e o médico receita-lhe uma série de alimentos saudáveis necessários à sua sobrevivência, então, ela, analfabeta, pega a receita, e olhando para o médico, na mais pura inocência dos famintos, indaga-lhe, a pedido de informação: “– E onde eu pego, doutor?”. Essa cena de cortar a alma nos faz refletir sobre nossas atitudes cotidianas e mais ainda sobre a falta de programas sociais que assistam de fato a nação carente. Se a alimentação é o remédio que falta para aquelas pessoas, então, devia existir, sim, no Posto de Saúde, para os tratamentos emergenciais.

Dia após dia lemos análises documentais, seja na abordagem qualitativa, quantitativa, explicativa ou outra, todas apontam os problemas, mas nenhuma traz soluções. Ninguém faz essas pesquisas chegarem aos órgãos responsáveis, para que sejam responsivos. Pesquisas sem resultados é perda de tempo. O resultado da escrita é para o professor ler, mas o resultado só é alcançado se houver ação com resposta que apresente resultados positivos na sociedade, do contrário essas “pseudopesquisas” poderão ser, facilmente, confundidas com relatórios de fofoca. Em que o diz-que-me-diz fica por isso mesmo. Não podemos ser pesquisadores anônimos com resultados amorfos e medíocres. O papel das universidades carece ser maior que a “alfabetização metodológica”. Os resultados devem ser explicitados na sociedade e apresentados nos veículos de comunicação, precisam estar visíveis, a olho nu, nas ruas, campos e vales...

A merenda escolar deve se ampliar para merenda familiar. A assistência psicológica precisa ser levada à sociedade que está presa na miséria. A todo instante crianças, adultos e velhos morrem de fome ou doenças oriundas da desnutrição, bem como morrem vítimas da estupidez desumana que fazem crianças se prostituírem por um naco alimentar. Mais que ensinar a decifrar palavras aprisionadas em livros é preciso ensinar a traduzir as ações políticas e sociais.
Vinicius de Moraes, escreveu: “Não nasci ruminante como os bois / Nem como os coelhos, roedor; nasci / Omnívoro: deem-me feijão com arroz // E um bife, e um queijo forte, e Parati / E eu morrerei feliz do coração / De ter vivido sem comer em vão”.

Alimentação saudável é o desejo de todos, mas como ter acesso a ela? Quem está com a chave do segredo? Recomendações estão por todos os lados, e as soluções, onde estão? É fácil dizer que a amamentação evita a anemia e a desnutrição da criança, mas como acabar com a anemia e a desnutrição da Mãe da criança? Essa mesma mãe que precisa produzir leite para alimentar outra alma faminta. A higiene é duramente cobrada a todo momento, mas como proceder com as refeições extraídas do lixo, que alimentam a tantas pessoas?

Todos batem na tecla da alimentação saudável desde a infância, mas a maioria não tem nem alimentação básica por toda a vida. Que a nutrição é fator essencial na manutenção da saúde ninguém duvida, mas refeições balanceadas quando não há nem alimentos suficientes para sobreviver, todas essas “dicas de bem viver” se convertem em utopias. Como escreveu o senhor Solano Trindade, “Tem gente com fome”. E como tem.

Lembro-me de uma infância miserável, em que eu ficava lendo as tabelas alimentares nos livros da escola, enquanto olhava atentamente os desenhos dos alimentos para saber o que era aquilo para depois fazer a maldita prova e tirar boa nota, porque nossa mesa era composta de arroz branco com farinha, e o máximo que conhecíamos de variedade eram os ovos, bananas e tomates da Frutaria, que olhávamos de longe e, de vez em quando, apareciam em nosso cardápio.

Desde aquele milênio em que aconteceu minha infância até a presente Era da Inteligência Artificial, “Nada de novo no front”, a escola, os órgãos governamentais e a sociedade seguem a mesma metodologia, enquanto a Garapa é servida.


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
Leia Também »
Comentários »
Comentar

*Ao utilizar o sistema de comentários você está de acordo com a POLÍTICA DE PRIVACIDADE do site https://diariodeuberlandia.com.br/.