08/08/2017 às 16h45min - Atualizada em 08/08/2017 às 16h45min

A "xepa" do Governo Temer

Vendendo até a alma para ficar no poder!

ANTONIO CARLOS DE OLIVEIRA* | COLUNISTA

Você já foi à feira no fim dela? Nesse momento, o que acontece é uma espécie de leilão do que sobra nas bancas, e vence quem vende mais barato ou grita mais alto, não é mesmo?

Para quem não conhece essa expressão, a xepa é o período final de liquidação de artigos perecíveis nessas feiras livres. Os feirantes fazem isto ou para irem embora ou pela queda de qualidade dos produtos. Nesse caso, o que é feito é uma negociação para que a venda seja concluída rápido, e, enfim, liquidar o estoque.

Qualquer semelhança com a situação atual do Brasil não é mera coincidência. Na semana passada, o presidente Michel Temer garantiu o arquivamento da denúncia contra ele por corrupção passiva e, assim, conseguiu manter seu mandado presidencial. Depois de mais de 10 horas de sessão no plenário da Câmara dos Deputados, o Governo fechou um placar mínimo de votos para barrar a abertura de processo contra o peemedebista e impedir que o processo seguisse para o Supremo Tribunal Federal (STF). É importante lembrar que Temer foi o primeiro presidente brasileiro no exercício do mandato a ser denunciado por um crime comum, acusado pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, de supostamente ter beneficiado o empresário Joesley Batista, dono da JBS e delator da Operação Lava Jato, em troca de favores.

O interessante é que, desde a denúncia, o Governo manteve uma intensa agenda de negociações com deputados para garantir a vitória na Câmara. Tudo isso feito às claras, sem preocupação alguma em disfarçar a aparente “jogada” e sem medo de retaliações.

Além disso, Temer exonerou 10 dos 12 ministros que também são deputados e fazem parte do primeiro escalão do governo, com o objetivo de que eles participassem da votação. Logo após votar, eles reassumiram suas cadeiras na Esplanada dos Ministérios.

Após vitória, o presidente fez um discurso de conciliação e exaltou a decisão da Câmara dos Deputados, tentando demonstrar que o governo vai manter sua agenda de aprovação de reformas econômicas e, claro, reafirmou que vai cumprir o mandado até 31 de dezembro de 2018, em uma tentativa - mais uma vez - desesperada de forjar calma e tranqüilidade diante da truculência dos fatos.

Apesar da afirmação de que a decisão não foi uma vitória pessoal, mas uma conquista do estado democrático de direito e da própria constituição, na prática todo esse emaranhado de fatos representa muito mais do que uma simples manobra, simboliza a segunda fase do Governo Temer. E isso significa muito mais do que um pronunciamento feito pelo próprio presidente. Na verdade, esse sim é o período que estamos vivendo: um momento de declínio iminente.

Pensando estrategicamente, cabe lembrar que Temer ainda enfrentará outras denúncias, que segue ameaçado por possíveis delações e novas acusações, e que nesse sentido, sua popularidade já caiu a níveis tão ou mais baixos do que a de Dilma Rousseff antes de sofrer impeachment.

Com o arquivamento da denúncia, Temer pode até respirar mais aliviado, por um momento. Mas pensando estrategicamente, nada muda o fato de que o estrago causado pela crise obrigará o líder a governar sobre novas bases. O PSDB, maior financiador da evolução de Temer, provavelmente se dividirá, já que é conhecido pelo voraz apetite por cargos.

À luz da verdade, fica simples perceber que vivemos um momento de declínio da política. Temos um congresso capturado pelo poder econômico, que antes estava preocupado em se reeleger, mas agora tem como foco realizar seus lucros como na xepa, ainda neste mandato. Do lado do Poder Judiciário, temos uma esfera muito mais do que politizada, mas também partidária. E o que falar do Poder Executivo? Não há moral, caráter, ética, integridade, honra, dignidade e honestidade na maioria das vezes.

Não é à toa que uma pesquisa do Instituto Ipsos mostrou, há duas semanas, que 84% dos brasileiros consideram que o governo Temer é ruim ou péssimo. Desde que assumiu, seu apoio se manteve abaixo de 15% e atualmente está em 7%, segundo o Datafolha. O que significa que mais uma vez, o povo brasileiro “paga o pato” e tem que comer a xepa no café da manhã, almoço e jantar!

(*) Analista de negócios – Professor universitário

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