12/05/2022 às 08h00min - Atualizada em 12/05/2022 às 08h00min

Portais do conhecimento

IVONE ASSIS
Eu gostaria de encontrar maturidade literária, em mim, que fosse capaz de (d)escrever o homem e o instante, mas, por certo, já perdi, faz tempo, a minha seriedade de criança, e isso me impede de usar as palavras com sua luminosidade original, o que acaba por atrofiar as frases.

No jogo social há regras muito duras a se seguir, isso inibe o pudor das meninas dos olhos, impedindo-as de enxergar muitos anseios da palavra. Uma fatalidade, não resta dúvida, mas o que importa é que, embora o tempo, desde a pré-história até sempre, mantém suas regras imutáveis, sancionando o nascer e o morrer, ou seja, a introdução e a conclusão, mesmo assim, ele permite pequenas variações no desenvolvimento. E são estes fragmentos de variações que fazem a diferença. Viver é tornar o ininteligível em legível, é saber ler nas entrelinhas.

A vida é um milagre, quase sempre desperdiçado em bobagens, em regras, em egoísmos, em egos feridos... e quando se dá conta, a estação já se foi. Viver é saber usufruir de cada estação. Penso que a vida se inicia no Inverno, e ali ficamos empacotados, embalados por todos, um círculo de proteção a que chamamos de primeira infância; depois vem a Primavera. Possivelmente, a mais bela das estações. Nela, a vida floresce, encanta, desabrocha. Não importa quantas flores caiam, a beleza só aumenta, é algo fascinante, com cheiro de natureza, com cheiro de vida. Em seguida, chega o Verão, iluminado e iluminando. Chega com seu brilho próprio, seus saberes.

Nessa estação encontra-se a força da natureza, para que se sobreviva às tempestades, às enchentes, ao calor exacerbado, à ausência... é no Verão que as demais estações vêm buscar inspiração, e amparo, e determinação, para viverem seu tempo. Talvez por isso tenha recebido seu nome no aumentativo, assim sendo, aquela que antes era a “Prima-Vera” agora cresceu e se tornou Verão. Por fim, chega o Outono, atenuando a temperatura de tudo... de todos, passando a desfolhar a vida daqueles que conseguiram chegar até ali.

O Outono desnuda o homem, tentando lhe encorajar com a autenticidade da primeira estação, mas o filtro que atravessara durante a vida só o permite se aproximar do que fora um dia, sendo impossível retornar à condição original. Há quem diga que os velhos têm coragem, e que falam o que lhes vem à mente. Não, não é verdade. O medo é um “órgão humano” com múltiplas funções, por isso, por mais desafiado que seja – por aquilo a que chamamos de maturidade – o medo não se despede, nunca, por fazer parte da totalidade humana, como dosador de medidas sociais. E àqueles que se divorciam das “etiquetas” rotulam-se de loucos ou coisas semelhantes.

Vejamos Van Gogh, Virginia Woolf, Michelangelo, Kafka, John Forbes Nash, Einstein, Hemingway e tantos outros nomes que montam a história com seus feitos, sua arte, sua ciência, sua loucura. Esquizofrênicos, bipolares, autistas, disléxicos, ansiosos sociais... cada qual na sua dor e no seu saber, rotulados pela doença do preconceito social de muitos. O que seria da história sem eles, e sem os milhões de iguais a eles? Não se trata de confundir loucura e genialidade, mas, sim, entender que todas as pessoas têm inteligência a seu modo, no seu tempo, e no seu temperamento. Como escreveu Aristóteles: “Nunca existiu uma grande inteligência sem uma veia de loucura”.

Para todo distúrbio, assim como para dores de cabeça, a ciência oferece tratamento (medicação, terapia...), portanto, o que falta, de fato, é amor e paciência, para se compreender o outro. A impaciência é, sem dúvida, uma das maiores barreiras que separam as pessoas. Ser problemático é da natureza humana, a diferença está na determinação em se tratar e na capacidade de se auto educar, para ser, minimamente, gentil, compartilhando experiências, diferenças e saberes. A escrita e a leitura é uma ponte que conduz a esse Universo da transformação, beber nessa fonte é uma arte, uma vez que os livros são portais do conhecimento.


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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