30/12/2021 às 08h00min - Atualizada em 30/12/2021 às 08h00min

Corrupção, bolsonarismo e militares

CLÁUDIO DI MAURO
Em um ano no qual tivemos mais de 600 mil pessoas dizimadas pelo surto pandêmico de covid-19, chegamos ao seu final com a constatação através de levantamento feito pelo Tribunal de Contas da União -TCU, que o Ministério da Defesa desviou R$ 535 mil do dinheiro que era para aplicar no combate à doença, e preferiu comprar picanha, filé para servir aos seus militares. Além desse desvio financeiro, o Relatório do TCU constatou que entre os órgãos dos Três Poderes, a Defesa, foi o que mais gastou em itens que são considerados como não essenciais. Os destaques são feitos para bacalhau, camarão e bebidas alcoólicas, entre outros.

Outros relatórios do TCU já demonstraram que a Defesa tem sido useira e vezeira em desviar recursos que também seriam destinados ao combate à pandemia. Nesse caso, os recursos foram usados com desvio de finalidade para compra de mochilas, porta-celular, e entre outros foram trocados pisos e telhados em prédios que estavam em desuso.

Essas denúncias constantes de Relatórios do TCU foram publicadas pelo Jornal Folha de São Paulo e pela Rede Brasil Atual – RBA, em um momento no qual são registrados pelo menos 619 mil óbitos por covid-19.

No Relatório elaborado pela CPI do covid-19, pelo Senado da República, constatou-se que a tentativa de gastar dinheiro na compra de vacinas superfaturadas, em 1 dólar por dose, estavam envolvidos militares que ocuparam postos chaves no Ministério da Saúde. Veja-se que isso está relacionado a recursos financeiros que deveriam ser aplicados no combate à pandemia, para reduzir os riscos das doenças e dos óbitos.

Nos dois casos, no desvio de dinheiro, usado para compra de cortes de carnes especiais; na tentativa de comprar vacinas superfaturadas, infelizmente em situações de logísticas e compras, militares que deveriam dar o melhor exemplo de integridade, para a população, ao contrário, mostram-se envolvidos na corrupção que alegam combater. Isso é uma demonstração que militares ocupando funções civis também estão sujeitos à envolvimento nas práticas de corrupção. Não há nenhuma garantia de que pelo fato de serem militares estarão isentos dos riscos de práticas de malversação do erário público. Especialmente os militares que fazem parte dos esquemas bolsonaristas.

Como ex-prefeito eu convivi com militares, tendo em vista que por responsabilidade do ofício fui Diretor do Tiro de Guerra no Município de Rio Claro. Convivi com militares sérios e responsáveis. Fui homenageado pelo Comando do Exército do Sudeste e pelos Militares do Comando do Corpo de Bombeiros. Portanto, nestas minhas abordagens não estou achincalhando a instituição. É preciso distinguir a Instituição do comportamento de pessoas aproveitadoras de seu status. Estou demonstrando que o fato de serem militares não lhes estabelece a prerrogativa de serem honestos e de estarem acima do bem e do mal. Os Militares são seres humanos, educados nos mesmos territórios dos demais cidadãos.

Não é possível que condutas desonestas, caso confirmadas, “emporcalhem” o nome das Forças Armadas, para atender interesses politiqueiros de bolsonaristas. Também não é justo que se mantenha a ideia de que as Forças Armadas estão rendidas e por isso coniventes com as ações de milícias bolsonaristas, lideradas por iniciativas da família de Bolsonaro, em conluio com o Adriano, morto na emboscada na Bahia, Queiróz e esquemas de Flávio e Carlos Bolsonaro. Isso tudo precisa ser elucidado. 

Situação similar é vista com o Ministério Público e o Poder Judiciário. Sérgio Moro e Deltan Dallagnol demonstraram como os interesses próprios podem sacrificar um País como todo. Tirar Lula das eleições, condená-lo de maneira totalmente irregular e garantir a vitória do Bolsonarismo foi ação de um golpe praticado contra a Nação.

Situações graves como as relatadas, em que dinheiro que deveria salvar vidas foi utilizado para atender o diletantismo de militares, entram em choque com a decisão adotada nesta semana pelo Ministro do Supremo Tribunal Federal, o bolsonarista terrivelmente evangélico Kássio Nunes Marques que negou o pedido de absolvição apresentado pela Defensoria Pública de Minas Gerais para uma mulher que furtou em um supermercado na cidade de Sete Lagoas, Minas Gerais, 18 barrinhas de chocolates e uma caixa de chicletes, avaliados em R$ 50,00 à época do roubo, em 2013. Essa mulher foi condenada a 2 anos de prisão. Nada de defender furto, mas são dois pesos e duas medidas.

Importante indagar da Procuradoria Geral da República - PGR ao Procurador Geral Augusto Aras, como serão os desdobramentos das denúncias e constatações efetuadas que estão arroladas no Relatório da Comissão Parlamentar de Inquéritos - CPI do Senado que apurou as irregularidades nas ações de militares bolsonaristas, ocupantes de cargos no governo federal ao administrar a Pandemia, com todos os seus desvios de condutas. Também esses apontamentos do Tribunal de Contas da União nos casos do uso indevido e os desvios de finalidades dos orçamentos destinados ao Ministério da Defesa, serão devidamente apurados e punidos, em caso de confirmação? O que efetivamente está sendo feito a partir dessas denúncias? E afinal de contas, quem mandou matar Marielle Franco? Isso será elucidado?

O que justifica que cada caso seja tratado de maneira diferente, em tempos diferentes, a mulher que furtou chocolates e chicletes já recebeu pena de prisão e os casos ligados à pandemia, ficarão até quando aguardando a “boa vontade” da PGR?


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
 
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